[QUADRINHOS] Marcos Martin revela os segredos de The Private Eye

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(entrevista cedida a Zack Smith, traduzida e adaptada por Rodrigo F. S. Souza)

Um dos quadrinhos mais aclamados do ano foi lançado quase literalmente do nada – The Private Eye  (saiba mais sobre ele aqui), de Brian K. Vaughan (Saga, Y: O Último Homem, Ex Machina, e a série de TV Under The Dome) e Marcos Martin (Batgirl: Ano Um, Demolidor), que anteriormente trabalharam juntos em Dr. Estranho: O Juramento. Ambientada num futuro onde a destruição d”a nuvem” tornou as informações pessoais de todos disponíveis para qualquer pessoa, este é um mundo onde a privacidade é valorizada acima de qualquer coisa, e a maioria das pessoas usam máscaras em público… e onde nosso herói, especialista em obter informações de pessoas, se encontra envolvido com homicídio, conspirações e muito mais.

Numa era em que quase todos os quadrinhos são anunciados meses antes, The Private Eye surpreendeu os leitores ao ser lançado online sem aviso – e com um modelo “pague o quanto quiser” que permitiu aos leitores ter cada edição a partir de uma doação de sua escolha. E ainda está fazendo experiências com a forma dos quadrinhos, com cada página sendo desenhada num formato “panorâmico”, ou seja, uma versão das páginas horizontais dos quadrinhos tradicionais.

Com a quinta edição de The Private Eye prestes a ser lançada, ligamos para Marcos Martin na Espanha pra conversarmos sobre a série até o momento – como foi fazê-la, os riscos que ele e Vaughn correram como criadores, e muito mais. Também conseguimos um preview da edição 5 – a primeira vez que os criadores liberaram um preview de uma edição da série antes de lançá-la.

Preview de Private Eye #5

Preview de Private Eye #5

Pergunta: Marcos, como tem sido a experiência até agora?

Marcos Martin: Tem sido um desafio, eu diria, em diversos frontes – criativamente, por tudo que Brian propôs em seus roteiros, e [pelo uso de] um formato diferente como o panorâmico, eu [tive que] descobrir como dispôr a página e como ela deve ser vista pelo leitor.

E [pensar] que isto seria lançado somente como um quadrinho digital, criar o website… meu Deus, estou pensando nisto agora, e é um pesadelo! Mas estamos conseguindo, aparentemente.

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P: Citando um antigo desenho animado (Super Galo): “Você sabia que o trabalho era perigoso quando o aceitou.” Mas isto levanta a questão – como você foi convencido a entrar em algo tão desafiador?

Martin: Bem, eu não estava ciente de onde eu estava entrando quando tivemos a primeira ideia. Pra nossa sorte tivemos muita ajuda com todos os aspectos técnicos, porque Brian e eu somos ignorantes com coisas tecnológicas.

Acho que quando você começa algo assim, você tem que seguir em frente, e aos poucos fazer o que deve ser feito. Se pensar em tudo que terá que fazer quando começar, você nunca fará nada, porque é muita coisa. E na verdade [no início] você nem mesmo está ciente de todos os problemas com os quais terá que lidar.

Se você segue em frente, você não pensa nisto, só lida com os obstáculos conforme os encontra.

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P: O formato panorâmico do quadrinho é interessante, porque já fizeram isto em quadrinhos impressos, e a reação quase sempre foi “Os grampos estão no lugar errado!” Existe este vício pelo formato clássico das páginas de quadrinhos, e você não vê muita experimentação com a forma. Como surgiu esse formato para The Private Eye, e quais foram os desafios e vantagens únicos dele?

Martin: O formato foi uma das primeiras decisões que tomei quando escolhi fazer o quadrinho digital. Basicamente eu queria que os leitores pudessem ver a página sem ter que rolá-la, assim ela poderia se adaptar perfeitamente ao tamanho de um monitor de computador – estava pensando em monitores de computador mais do que em iPads ou tablets, porque achei que quase todo mundo tem um computador ao contrário de um tablet ou iPad, e que isto seria mais universal.

A ideia é você não ter que rolar pra cima ou pra baixo, uma coisa que me deixa nervoso quando leio um quadrinho online.

Quando comecei a bolar os layouts da série, tive que lidar com as consequências criativas disto. Não tenho certeza se este é o melhor formato para leitura de quadrinhos, por causa do modo como o olho se move quando você lê uma HQ, que obviamente é da esquerda pra direita e de cima pra baixo.

Você não tem esse lance “de cima pra baixo” quando está lendo no formato panorâmico – você os lê diagonalmente, penso eu. Então não tenho certeza se ele tem tantas vantagens assim sobre o formato tradicional.

Mas ele tem suas próprias vantagens. Ele lembra um filme, o que penso ser bom para esta história. E um efeito colateral sobre o qual não pensei, mas descobri enquanto estava fazendo-o, é que, por se passar em Los Angeles, subconscientemente imagino LA horizontalmente, enquanto Nova York eu imagino verticalmente. Então, de certa forma, o formato panorâmico é muito apropriado para Los Angeles.

P: Você já esteve em Los Angeles – ou melhor, quais foram alguns dos desafios de retratá-la nesta sociedade de um futuro próximo?

Martin: Já estive em LA algumas vezes – não morei lá, como morei em Nova York. Na verdade não gostei de LA na primeira vez que estive lá, mas gostei bastante na segunda vez.

É divertido ambientar a história lá, e passar este clima para o leitor, este clima de LA. Acho que seria mais fácil pra mim conseguir isto com Nova York, mas foi bem divertido ambientar a história lá.

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P: E [na HQ] existe essa sociedade que parece o Carnaval de Nova Orleans sob influência de crack – imagino que foi divertido não fazer apenas pessoas de visual genérico para cenas de multidão e planos de fundo. Como foi desenhar todos estes personagens com cabeças de tigre, peixe, e assim por diante?

Martin: Você acha que foi divertido? [risos] Quando comecei a trabalhar neles, minha preocupação maior foi tentar encontrar um modo de visualizar este mundo de máscaras e disfarces sem em nenhum momento sentir ou fazer com que o leitor sentisse que estava assistindo algum tipo de desfile de carnaval ou festa a fantasia.

Porque não é isto – é mais como uma evolução da moda, é pra onde a moda evoluiu depois de todos estes anos neste mundo onde a privacidade é a coisa mais importante.

Mas no começo eu pensava, “O que eles vão fazer? Vão usar fantasias como numa festa a fantasia? Vão se vestir como palhaços ou cowboys ou sei lá o quê?”

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P: Isto é uma coisa engraçada – vários artistas que trabalharam com Brian notaram que ele cria estas linhas temporais alternativas, por exemplo “um monte de Nova Yorks alternativas” ou “um mundo onde todos os homens morreram em 2002, e a cultura e tudo mais congelou-se desde então.” Então isto é uma exigência sutil para construir um mundo.

Martin: Sim. É a sutileza que torna isto difícil – você não pode exagerar, porque isto não é o que a história pede que você faça. No meu caso, o lance dos disfarces tem que ser um pouco exagerado, mas é um futuro que não pode ser muito distante do que conhecemos.

De certa forma ele serve como uma olhada em nosso passado, pois tem muitas coisas em comum com os anos 80 ou 90 do que com aquilo que imaginamos do futuro. Então ele tem que ter a mistura certa de futurismo com tendências atuais ou mesmo antigas.

É difícil. Brian é um cuzão. [risos] Ele torna as coisas difíceis pra nós artistas.

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P: [risos] Conte todos os podres! Mas, falando sério – como foi sua colaboração? Porque você mora na Espanha, e ele em Los Angeles… foi principalmente pelo Skype, e-mails, como?

Martin: Bem, eu consegui atrair Brian para o mundo do Skype, o que torna as coisas bem mais fáceis e menos caras para nós. No começo nos falávamos por telefone, mas agora discutimos a maioria das coisas pelo Skype ou por e-mails.

Fazemos duas ou três sessões de Skype pra discutirmos cada detalhe da trama e do roteiro de cada edição e pra garantirmos que estamos fazendo do jeito certo. Daí temos esboços, e coisas que tem a ver com o lançamento de cada edição e relacionadas ao website.

Outras questões discutimos por e-mail. Eu diria que mantemos contato constantemente. É óbvio que seria melhor se estivéssemos na mesma cidade, mas isto quase nunca acontece, então fazemos tudo da melhor forma possível.

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P: Quais sequências de Private Eye foram as mais divertidas de desenhar?

Martin: As mais fáceis de desenhar. Sempre digo pro Brian, “Duas pessoas sentadas numa mesa conversando com as luzes apagadas é a cena perfeita pra mim. Bote o máximo de quadrinhos pretos que puder.” [risos]

Normalmente as situações que nunca desenhei antes são as mais divertidas. Neste momento estou pensando numa sequência de sonho do começo da edição 3 que foi bem excitante de desenhar. Mas tem uma cena que acabei de desenhar pra edição 5 que penso ser a melhor que já fiz.

Não por causa do desenho, mas por quão excelente ela estava no roteiro e como ela evoluiu através de nossas conversas para algo que sinto ser ainda melhor. Esta é a parte mais excitante do meu trabalho como um artista dos quadrinhos, a parte que na verdade é invisível aos olhos dos leitores.

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P: Uma pergunta que deve ser interessante para muitas pessoas que estão querendo pôr seus trabalhos online: Como o modelo pague-o-quanto-quiser está funcionando para você? Imagino que um artista como você correu mais riscos do que Brian, que tem a grana do Stephen King pra sustentá-lo… [só te enchendo, Brian]. Mas, falando sério, quais foram os altos e baixos até agora?

Martin: Bem, sabíamos que seria arriscado desde o início. Foi bem arriscado pra mim, porque esta é minha única fonte de renda, então se não tivesse funcionado, eu não teria nada pra me sustentar.

Mas também foi bem arriscado pro Brian, que vinha trabalhando nesta historia há muito tempo pra ser lançada de uma forma que poderia ser completamente esquecida e ignorada. Além do fato de que poderia certamente fazer menos dinheiro do que faria numa editora tradicional. Fizemos um acordo em que eu ganharia uma certa quantia primeiro, e o Brian ganharia o mesmo tanto depois.

E depois disto separamos tudo em metades iguais. Brian, felizmente, é muito tranquilo quanto a isto, e tem feito sucesso o bastante pra pôr este plano em prática. Mas, sim, em alguns momentos foi um pouco assustador pra mim, pois tive basicamente que gastar todas as minhas economias antes do lançamento.

P: Wow.

Martin: Mas valeu a pena – mesmo se não tivesse dado certo, sempre vale a pena tentar coisas novas. E, especialmente com o estado do mercado atual, algo novo tem que surgir, de forma que seja justo para os autores e os leitores. Além disto, não foi como se eu não fosse capaz de encontrar trabalho eventualmente… espero.

P: Bem, a web ofereceu mais possibilidades – Scott McCloud falou sobre a “paisagem infinita,” e há maneiras de se apresentar a história ou fazer tipos de histórias que são muito diferentes do que você geralmente encontraria numa comic shop.

Mas como qualquer coisa na web, existe ainda a questão de como você fará isto de uma forma que o permita ter comida e eletricidade em casa.

Martin: Sim. Eu penso que por não ter sido pra isto que a internet foi criada – lucrar – acho difícil para produtos culturais encontrarem uma forma de ganhar dinheiro nela. Então minha ambição artística sempre foi não lutar contra isto, mas encontrar um meio de fazer todos se sentirem confortáveis com este cenário.

Eu realmente penso que o modelo pague-o-quanto-quiser funciona para os criadores e os leitores. Definitivamente funcionou para nós. A questão é: ele pode expandir-se para mais pessoas, para outras áreas? Não sei.

No final das contas… penso que precisamos de uma revolução, e revoluções nunca partem de pessoas que já têm o poder. Ela tem que vir das pessoas normais, e é preciso que um monte dessas pessoas as realizem.

No momento são poucas pessoas – a Internet é como o Oeste Selvagem, e enquanto muitas pessoas encontram ouro nela, muitas não encontram. Na verdade muitas morreram miseráveis e sozinhas… Então, sim, isto deve animar alguns.

P: Quais são os planos para o enredo de Private Eye? Algumas das conversas iniciais deram a entender que seriam 12 edições…

Martin: Quando Brian me apresentou esta ideia, antes de optarmos pelo modelo digital, foi como uma série limitada. Atualmente acho que serão 10 edições. Pode ser um pouco mais, eu acho, mas definitivamente não será menos – 11 ou 12, talvez, mas pelo menos 10 se os leitores gostarem e apoiarem. Desde que eles estejam conosco até a 10ª edição, estaremos lá.

P: Vocês estão prestes a lançar a quinta edição, então isto é quase a metade do caminho. Ainda há muito pela frente, mas, fora este, você tem algum projeto em quadrinhos sendo planejado?

Martin: Não tenho – Estou longe de terminá-lo, e normalmente nunca tento pensar no que farei em seguida até estar quase terminando o que estou fazendo. Algumas vezes eu nem mesmo sei o que farei depois de terminar [um projeto]. Então deve levar um tempo até eu pensar a respeito.

Mas com tudo que tenho pela frente este é o menor dos meus problemas agora, pode acreditar. É claro que eu gostaria de continuar tentando algo através do Panel Syndicate. Enquanto os leitores nos apoiarem continuaremos tentando.

Leia as primeiras 4 edições de The Private Eye em www.panelsyndicate.com, e prepare-se para a edição 6, que sairá em breve!

Fonte: http://www.newsarama.com