[QUADRINHOS] “Louco – Fuga” de Rogério Coelho (resenha)

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Licurgo Orival Umbelino Cafiaspirino de Oliveira é um homem com uma missão: salvar um pássaro da prisão guardada e comandada pelos Guardiões do Silêncio. Mas esta é só uma primeira interpretação das ações do protagonista, que escondem em si uma importância ainda maior e mais urgente, pois visam garantir à raça humana a preservação de sua sanidade.

Talvez você conheça o personagem citado no parágrafo acima, ou no título desta resenha, mas não da forma como foi reimaginado por Rogério Coelho (Barco dos Sonhos) na última Graphic MSP lançada em 2015. Dono de uma narrativa crepitante, com cenários intrincados e multicoloridos, o artista empregou seu grande talento para contar uma história que desafia os limites da linguagem dos quadrinhos.

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Como o próprio título sugere, toda a narrativa é uma fuga sem fim, onde o Louco segue seu fluxo de consciência, indo de uma história pra outra, de uma lembrança pra seguinte, de um sonho para o próximo, simplesmente atravessando as sarjetas que separam os quadrinhos, ou se livrando delas quando imerso em seus próprios cenários oníricos. Isto dá à história uma fluidez que torna sua leitura dinâmica, e cada virar de páginas uma surpresa, pois a inventividade das diagramações de Rogério torna o desenrolar da trama tão imprevisível quanto as ações do Louco.

Mesmo sendo uma história rápida de ler, o bom apreciador de desenhos belos e detalhados dificilmente passará para a página seguinte sem focar-se nas minúcias da arte de Rogério, cheias de elementos gráficos meticulosamente desenhados e coloridos, que convidam o leitor a perder-se na imaginação do Louco, assim como ele próprio se deixa levar por suas ideias.

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Mas apenas apreciar a beleza visual da história não é o bastante para assimilar suas mensagens e símbolos. Parte do seu valor se revela quando paramos para refletir a respeito do que é graficamente representado. Peguemos os Guardiões do Silêncio, por exemplo. Eles se assemelham aos Sentinelas das histórias dos X-Men – robôs cuja missão é capturar e aprisionar indivíduos com capacidades acima das de um ser humano normal – que são personificações do desejo humano de reprimir o que é diferente por não entendê-lo completamente. Muitos homens e mulheres considerados loucos em seu tempo, sob a luz de novas descobertas se revelaram gênios para as gerações seguintes, que finalmente alcançaram a compreensão do que eles tentavam dizer com suas ideias excêntricas. É este tipo de indivíduo que o Louco, criado por Marcio Araujo como parte do universo concebido por Mauricio de Sousa, representa nesta graphic novel.

O Louco é aquele tipo de pessoa que tem uma imaginação fértil e incansável, pra quem é praticamente impossível resistir ao impulso de seguir uma ideia que conduz a outra, uma história que toma um novo caminho, levando alguém a entrar na história alheia. O que nos leva a mais um símbolo presente em Fuga: os cucos mecânicos que acompanham os Guardiões do Silêncio.

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Pra quem não sabe, o cuco é um pássaro conhecido por tomar para si o ninho de outro pássaro e usá-lo para cuidar de seus filhotes. O título original do filme Um Estranho no Ninho – One Flew Over the Cuckoo’s Nest (cuja tradução literal seria Voando Sobre um Ninho de Cucos) – faz referência a esta peculiaridade dos cucos, ao mostrar o que acontece quando um criminoso (interpretado por Jack Nicholson) finge estar louco pra ser internado numa instituição psiquiátrica, onde passa a influenciar o comportamento dos pacientes, ao ponto de suas ações começarem a sofrer a repressão da Enfermeira Ratched (papel de Louise Fletcher). Neste caso, um homem são invade o “ninho” dos loucos (daí o título brasileiro do filme).

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Em Fuga acompanhamos o oposto: o Louco é quem invade os “ninhos” dos outros, representados pelas histórias de personagens do Maurício de Sousa, como a Turma da Mônica. O que gera outro conceito brilhantemente representado por Rogério Coelho: os quadrinhos como portais para outros mundos. É dessa forma que o Louco vai de uma história pra outra, assim como nós, leitores, nos transportamos de um mundo para outro ao pegarmos uma nova HQ ou livro pra ler, com suas páginas servindo de verdadeiros portais dimensionais e temporais. Com isto, Rogério fez de Fuga não apenas uma história do Louco, mas uma homenagem do personagem e dele próprio ao universo de Maurício de Sousa, às Graphic MSPs já lançadas (todas citadas numa bela e metafísica página dupla) e, acima de tudo, à Imaginação Humana, representada pelo pássaro dourado que o Louco tanto se esforça para libertar da prisão dos Guardiões do Silêncio, as personificações de qualquer tipo de autoridade ou instituição repressora, ou ainda – indo mais além nesta interpretação – de medicamentos usados para silenciar os pensamentos de indivíduos considerados loucos, mesmo que muitos deles sejam hiperativos, ou sofram de problemas como o transtorno de déficit de atenção, entre outros problemas neurológicos que os impedem de seguir suas ideias, sempre em ebulição e ramificando-se em outras, rompendo limites espaço-temporais.

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Por tudo isto, Louco – Fuga é “O Estranho do Ninho” do selo Graphic MSP, algo que a própria capa já indica, com sua quebra do formato que vinha sendo usado até então pelas histórias do selo, além de ser uma das obras mais graficamente belas da coleção, e certamente a que mais ousou na forma de contar sua história e transmitir sua mensagem.

Terminei a leitura com uma de minhas crenças pessoais renovadas: às vezes é bom perder-se nos próprios pensamentos, permitindo que nos levem a novos cenários e universos, alçando novos vôos, como uma borboleta fora do casulo, ou um pássaro fora da gaiola.


nota-5


louco fuga rogerio coelho capa

Panini Comics | Brochura ou Capa Dura | 28,2 x 19,4 cm | 84 páginas

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