[QUADRINHOS] Le Chevalier: Arquivos Secretos, de A. Z. Cordenonsi e Fred Rubim (resenha)

Quando um crime desafia as capacidades investigativas da polícia do Império Francês, o Bureau Central de Inteligência e Operações emprega os serviços de Le Chevalier e seu fiel parceiro, o Persa. Desta vez os dois terão um assassino para capturar e uma conspiração para desvendar. Será que estão à altura destes desafios?

Há muitos atrativos neste primeiro volume em quadrinhos de Le Chevalier. Aliás, antes de falar dele, vale lembrar que a estreia do personagem foi no romance Le Chevalier e a Exposição Universal, também escrito por A. Z. Cordenonsi e lançado pela AVEC Editora. Eu ainda não li o livro, mas posso garantir que dá pra ler a HQ sem prejuízos, pois suas histórias são independentes da que foi narrada na obra de estreia dos personagens centrais.

Mas, falemos da HQ! Os desenhos de Fred Rubim (O Coração do Cão Negro) são ao mesmo tempo rústicos e dinâmicos; há participação de personagens históricos em contextos fictícios (Thomas Edison, Jules Verne) e de personagens da ficção reimaginados na ficção histórica steampunk de Cordenonsi (o Corcunda de Notre Dame, Frankenstein). Se você gosta de algumas dessas coisas, ou todas elas (como eu!), esse quadrinho é pra você.

No início é inevitável lembrar de Mike Mignola ao ver o estilo mais solto e carregado em sombras de Rubim, mas acho importante destacar que ele tem personalidade própria e talento o bastante para não apoiar-se nos ombros de “gigantes” dos quadrinhos norte-americanos. Rubim é um exímio contador de histórias que pode seguir seu próprio caminho aqui e/ou no exterior. Talento não lhe falta pra isto.

Com relação aos protagonistas, Le Chevalier e o Persa são correspondentes a Sherlock Holmes e Dr. John Watson. Mas as semelhanças param por aí. Ambos têm personalidades distintas das criações de Arthur Conan Doyle. A dinâmica da dupla me agradou e me divertiu bastante. Diferente de Sherlock, o Chevalier é mais simpático, e parece uma mistura francesa do James Bond com o Holmes, combinando o treinamento do primeiro com a mente dedutiva do segundo, com uma personalidade mais sóbria e um tanto taciturna, sem soar enfadonho ou arrogante. Em suma, um personagem bem construído, assim como o Persa, que é bem mais impulsivo que o Watson, além de ter o pavio curto e estar sempre com fome. Isto faz deles uma dupla cheia de personalidade e carisma na medida certa.

Embora tenha uma aparência que me remeteu a Johnny Depp, não consigo imaginar o Chevalier interpretado pelo ator, posto que o agente é mais discreto que a maior parte dos personagens interpretados por Depp. Ao passo que, no caso do Persa, foi inevitável imaginá-lo como o Sallah de Os Caçadores da Arca Perdida, interpretado por John Rhys-Davies (o Gimli de O Senhor dos Anéis).

A Besta de Notre-Dame“, como o próprio título já sugere, brinca com um clássico da literatura dentro do passado alternativo imaginado por Cordenonsi. Apesar de ser a história mais curta, ela nos deixa curiosos do início ao fim, especialmente com a abordagem que a dupla criativa preparou para o personagem que dá nome à história.

Jà “Contra o Dínamo Rubro” além de ser maior, é a trama que dá mais margem para futuras HQs da dupla, pois introduz uma grande ameaça, que certamente causará mais problemas para o Chevalier. Mistura aventura, espionagem, ação, e tem a participação de personagens históricos, mesclando eventos reais com fictícios, numa criativa e instigante reimaginação da Europa de meados do século XIX.

Le Chevalier funcionaria perfeitamente se publicada no Velho Continente, por “conversar” e brincar bastante com a história da Europa. Em contrapartida, notei um velado preconceito contra os ianques da parte dos personagens (e talvez dos autores?), especialmente na segunda história, por motivos que prefiro deixar que descubram, a fim de não estragar surpresas. Isto pode incomodar um pouco alguns leitores, mas não creio que comprometa a diversão proporcionada pela trama.

O mundo imaginado por Cordenonsi é muito intenso, cheio de impérios, espiões, máquinas incríveis, e crimes que desafiam os personagens de variadas formas. Ou seja, um mundo vivo e cheio de possibilidades narrativas. Seu potencial é comparável ao de grandes séries clássicas que giram em torno de protagonistas icônicos, como os já citados Sherlock Holmes e James Bond. Le Chevalier tem tudo pra ter uma vida longa e próspera tanto nos quadrinhos e quanto na literatura.