[QUADRINHOS] Kobane Calling, de Zerocalcare (resenha)

Vou começar esse comentário pelo final: Recomendo fortemente Kobane Calling! Uma das minhas leituras favoritas de 2017 (e também de todos os tempos)!

Você sabe onde fica Kobani (sim, a grafia correta em português é com i, o título está em inglês)!? Já ouviu falar em Rojava!? (E Rebibbia?!)

Então, antes de falar sobre quadrinhos, tenho que ressaltar o quanto me surpreendi com a minha ignorância acerca das lutas no Oriente Médio. Se informar apenas pelos grandes portais de notícias não me preparou para o relato do carismático Zerocalcare sobre o que ele viu nas suas viagens pelo Curdistão sírio.

Primeiramente, vale situar que Rojava é o nome da região ao norte da Síria, fronteiriça com a Turquia, que é dividida em três cantões: Cizre que faz fronteira com o Iraque, ao leste; Kobani, ao centro; e, a oeste, Afrîn. Os cantões são separados entre si por áreas ocupadas pelo Estado Islâmico.

Dito isto, Zerocalcare é um quadrinista italiano que é enviado por um jornal para, Mehser, no sul da Turquia, que fica a aproximadamente três estações de metrô de Kobani, que estava resistindo à ocupação do EI. Contudo, após retornar pra casa, ele fica com a sensação de ter visto uma parte muito pequena de uma história muito maior e decide voltar a Rojava, determinado a conhecer a história de dentro.

Fico na dúvida sobre o que é melhor: o relato em si, ou a forma como ele é contado… A visão do autor da resistência de Rojava é, ao mesmo tempo, muito didática e inacreditavelmente hilária. Mesmo estando numa zona extremamente sensível a piadas, ele consegue nos dar um relato repleto de momentos engraçados sem ser desrespeitoso com a luta dos combatentes, nem estimular estereótipos preconceituosos, e ainda desconstruir muito a imagem ocidental do Oriente Médio.

Por fim, vale mencionar que Rojava é um dos pontos de resistência mais importantes do mundo moderno, sendo um dos poucos lugares que conseguiu implementar um governo com pautas avançadíssimas no que diz respeito a direitos humanos e, com sucesso, repelir ataques do EI, mesmo com toda a negligência do mundo à sua causa, e com os inimigos políticos que a confederação fez ao seu redor.

O grande ponto de toda a narrativa de Zerocalcare é que precisamos lembrar que a história não acaba com o fim do quadrinho, a guerra continua, as forças do EI continuam à espreita, os governos continuam fazendo jogos políticos para desestabilizar as forças de resistência, pessoas continuam morrendo (e matando) por causa de ideais maiores que elas mesmas.

Confesso que, depois da leitura, cheguei a dar uma pesquisada para validar se o autor não romantizou demais uma perspectiva da luta, mas ao que parece, mesmo com os tons de cinza inerentes a guerras, fica bem claro quem está lutando pela liberdade e quem está lutando para reprimir essa liberdade.

Kobane Calling foi lançado pela Editora Nemo e, repito, é um dos meus quadrinhos favoritos de 2017 (e de todos os tempos).


Editora Nemo

Tradução: Fernando Scheibe

Brochura

23,8 x 17,2 x 1,6 cm

272 páginas

Onde comprar:

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Submarino


Sobre o autor:

Acredita que o lado bom da vida é amargo como uma boa cerveja ou café sem açúcar, coleciona quadrinhos e escreve resenhas sobre a nona arte no Instagram sob a alcunha de @quadrinhonauta!