[QUADRINHOS] Jupiter’s Legacy inaugura um novo Mark Millar?

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ATENÇÃO: o texto abaixo contém SPOILERS de Jupiter’s Legacy #1 a 4, pois sua intenção é fazer uma análise crítica, e aprofundar-se nas referências presentes na série.

Uma Pitada de Morrison e Uma Colherada de Waid

Não é à toa que o surgimento dos primeiros super-heróis da história do mundo de Jupiter’s Legacy ocorre na década de 1930, entre a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, mesmo período em que a ideia que deu origem ao Superman nasceu nas mentes de Jerry Siegel e Joe Shuster. Semelhante ao semi-autobiográfico e metalinguístico Flex Mentallo de Grant Morrison, desenhado pelo mesmo Frank Quitely que cuida da arte aqui, Mark Millar usa a ficção super-heróica de Jupiter’s Legacy para contar sua versão compacta e alegórica da história dos super-heróis, sem o hermetismo e simbolismo característicos das narrativas mais autorais de Morrison.

Os trechos do início da primeira e da quarta edição, que revelam um pouco sobre a origem dos poderes dos primeiros super-heróis, representam a transição entre a era das aventuras pulp, estreladas por exploradores destemidos descobrindo ilhas misteriosas e civilizações exóticas (ou alienígenas), e a era dos super-heróis.

Sem dar muitos spoilers, o conceito por trás da Universidade, que dá origem aos poderes de Sheldon Sampson, se assemelha ao Colégio Invisível da série Invisíveis, outro trabalho de Grant Morrison que Mark Millar parece referenciar aqui. E a ideia da ilha que “chama” pessoas escolhidas me fez lembrar da série de TV Lost, cuja trama tratou a ilha onde se passava a história muitas vezes como uma entidade que atraiu aquelas pessoas até ela com seus poderes misteriosos.

Sheldon Sampson e seus amigos chegando à Ilha (arte de Frank Quitely para Jupiter's Legacy #4)

Sheldon Sampson e seus amigos chegando à Ilha (arte exuberante de Frank Quitely para Jupiter’s Legacy #4)

Outra obra em quadrinhos que Jupiter’s Legacy referencia e com a qual “conversa” é Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross, ao retratar a nova geração de heróis como jovens inconsequentes que pouco interesse têm em dar continuidade ao legado dos heróis veteranos, personificados na figura de Utopian. A nova geração de heróis se preocupa mais em preservar uma boa imagem pública para conseguir patrocinadores, e também corresponder às expectativas de seus pais, embora a maioria nem se dê ao trabalho de tentar. A indiferença deles para os problemas do mundo é reforçada pela sequência final da primeira edição, em que três heróis discutem seus problemas, e nem se dão conta das notícias sobre crises econômicas, políticas e sociais que passam na TV atrás deles.

Aqui Millar dá continuidade à ideia que introduziu na série Kick Ass: ser super-herói virou moda. Jovens se vestem com colants em Jupiter’s Legacy, mas não para atuarem como heróis, e sim para se aproximarem de seus ídolos super-poderosos. Os super-heróis deste mundo são como os rockstars e as estrelas de Hollywood. Seus uniformes demonstram tendências sadomasoquistas, e escancaram o fetiche que representam para o resto do mundo.

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Utopian versus Brandon: pai e filho representando o conflito de diferentes gerações de super-humanos.

Outra semelhança com Reino do Amanhã é o embate entre gerações que Jupiter’s Legacy retrata. Nela vemos o idealismo e a filantropia da velha geração lutar contra o cinismo, o pragmatismo, a ganância e a luxúria da nova.

Cada Mundo Tem O(s) Superman(men) Que Merece

Utopian, o líder, e descobridor da ilha misteriosa que lhe deu superpoderes, é o principal representante da velha geração, o Superman de seu mundo. Ele que se agarra e reverencia as ideias do passado, negando-se a enxergar a corrupção e o cinismo dos tempos modernos. Utopian é contra a intervenção de super-heróis no andamento da política e economia globais.

Diferente de Utopian seu irmão Walter é um progressista extremista, que defende a ideia de uma intervenção mais direta na política e economia globais, o que remete à ideologia defendida pelo grupo Authority (cujas histórias Millar escreveu depois da saída de Warren Ellis, criador do conceito por trás da equipe).

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Rivalidade entre irmãos: Utopian e Walter expondo seus pontos de vista contrastantes.

As diferenças ideológicas entre Utopian e Walter – que começam no fato de que o primeiro usa um codinome enquanto o segundo nem se dá ao trabalho de esconder sua identidade – são reforçadas pelas cores de seus uniformes: Utopian usa um uniforme predominantemente branco com detalhes em vermelho, desenhado num estilo mais clássico, enquanto o traje de Walter é cinza escuro e vermelho, com um design mais moderno, igualando-se aos uniformes dos super-heróis da nova geração – detalhe que ainda antecipa a aliança entre Walter e Brandon. E reparem em como as luvas dele prenunciam o papel que ele ocupará nos eventos trágicos da edição 3.

Vale reparar que a aparência de Utopian, já velho, lembra Zeus, reforçando seu papel de figura paterna na sociedade dos super-humanos. E a ideia de ele exercer uma profissão mais mundano quando personifica seu alter-ego, a fim de não esquecer de sua origem humilde e humana, lembra a visão mais romântica do Superman, adotada por Grant Morrison e Mark Waid em suas interpretações do personagem. Tanto Utopian quanto sua esposa vivem num lar modesto, que lembra a vida simples dos Kent em Smallville.

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Sheldon encontra seu genro Hutch…

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… que 9 anos depois segue a profissão do sogro.

Notem que Hutch, já casado com Chloe na edição 4, usa um macacão de mecânico. Um indício de que ele não apenas “se endireitou”, como havia prometido que faria a Sheldon Sampson, como assumiu a profissão do pai de Chloe, mostrando o quanto o respeitava. Irônico como o filho do maior inimigo de Utopian é quem salvou a vida de sua filha e assumiu seu legado, tanto simbólica quanto literalmente, pois é o pai do neto do super-herói falecido.

Outra referência à mitologia do Superman é George, pai de Hutch, que no passado foi o melhor amigo de Sheldon. O personagem é ruivo, o que parece ser uma referência a Jimmy Olsen, que por muito tempo foi conhecido pela alcunha de “melhor amigo do Superman”. Coincidência? Acho que não.

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Reparem nas cores do uniforme. É o legado sendo levado adiante. 🙂

E Jason, filho de Chloe e Hutch, que chama os super-humanos de “super-pessoas”, é mais um personagem que Millar usa para homenagear o Superman. Todo o esquema armado por ele e seus pais para esconder seus poderes e seu intelecto lembra a maneira como Clark foi instruído pelos Kent a não usar suas habilidades para benefício próprio a fim de satisfazer seu orgulho e vaidade.

Tragédias Gregas e Shakespeareanas Super-Humanas

Detalhe da capa de Jupiter's Legacy #3 (desenho de Frank Quitely, cores de Peter Doherty)

Detalhe da capa de Jupiter’s Legacy #3 (desenho de Frank Quitely, cores de Peter Doherty)

Na segunda edição Chloe, filha de Utopian, é internada após ter uma overdose resultante do uso de uma “substância alienígena” no final da primeira edição. É quase como se Millar dissesse que os super-heróis usam kryptonita como cocaína, e que só uma substância de outro planeta seria capaz de provocar um “barato” em super-humanos. Além disto, na mesma edição é revelado que Chloe foi engravidada por Hutch, filho do maior inimigo de Utopian, tornando sua história uma versão super-heróica de Romeu e Julieta, que se revelará um dos núcleos dramáticos mais importantes da série.

Outro elemento shakespeareano da história é a conspiração entre Brandon, filho de Utopian, e seu tio Walter, que arquitetam o assassinato do herói.

A morte de Utopian parece referenciar a pintura Saturno Devorando Seu Filho, de Francisco Goya. No mito Saturno faz isto para evitar que seu filho o destrua, mas no fim é morto por Jupiter, seu outro filho, que sua esposa escondeu na ilha Creta. Além disto, o episódio também usa o tema arquetípico do Complexo de Édipo, sendo uma representação literal, super-poderosa e brutal do assassinato do pai pelo filho, ou, no caso de Jupiter’s Legacy, do Pai de Todos pelas mãos de seu filhos, sobrinhos e netos, que estão fartos de sua autoridade repressora, idealista e, para eles, retrógrada.

E a brutalidade da execução do plano lembra a de filmes de máfia como O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros, além de fazer referência ao modus operandi da equipe Authority.

Os EUA que nascem após o final trágico da primeira parte de Jupiter’s Legacy, que se encerra na terceira edição, se assemelham, politicamente, aos de Watchmen. Neles atividades super-humanas são proibidas. Apesar do governo super-humano ter sido criado como uma forma de superar toda a repressão de Utopian sobre os filhos, sobrinhos e netos dos primeiros super-heróis, a repressão continua sobre aqueles poucos que não se uniram a Walter e Brandon.

Mark Millar Rebootado?

Jupiter’s Legacy é sobre a transição entre a fantasia idealista da era de ouro e de prata e a chegada do realismo no mundo dos super-heróis na era de bronze, e na era moderna. A chegada violenta e cínica, que leva grandes ícones do mundo dos super-heróis à morte simbólica e/ou literal, a fim de que paradoxalmente sobrevivam aos novos tempos. Ícones que sempre dão um jeito de ressuscitar em tempos difíceis, ou voltar sob a forma de um novo herói que assume o legado daquele que lutava por um ideal mais nobre, e menos brutal em sua execução, por não permitir que sua inocência e idealismo sejam maculados pelos tempos difíceis em que vive.

Mesmo que ainda haja resquícios daquele cinismo ácido dos trabalhos mais “reacionários” e “revoltadinhos” de Mark Millar, em Jupiter’s Legacy e Starlight – série que lançou este mês – o escritor vem dando sinais de que conseguiu equilibrar suas ideias mais “pessimistas” numa narrativa mais consistente. Seus personagens agora dialogam com mais naturalidade, ao invés de soarem como tentativas de emular o estilo “bad ass” de Warren Ellis escrever as falas de seus heróis e vilões. Parece que Millar está começando a seguir um caminho próprio no lugar de apenas referenciar em sua escrita as influências de sua carreira. Surpreende, por exemplo, o tom de reverência e respeito com que ele faz seus personagens se referirem aos tempos mais inocentes da era de ouro de seu mundo, claramente baseados na era de ouro e de prata dos super-heróis. No lugar de ressaltar o ridículo, Millar expressa através de Chloe e Jason um carinho nostálgico por um tempo bem mais leve e divertido. É quase como se o autor pedisse desculpas pelas maldades que fez muitos destes seres super-poderosos sofrerem em suas mãos em trabalhos anteriores.

Seria esta uma tentativa de redenção de Mark Millar?

Seria esta uma tentativa de redenção de Mark Millar?

Resta saber se ao final de Jupiter’s Legacy o bem triunfará sobre o mal, como nas saudosas e tradicionais histórias de super-heróis, ou se a desesperança tomará conta de um mundo que implora por alguma, como nos muitos trabalhos de Millar que antecederam este. Só o tempo pra dizer se o autor permitirá a alguns de seus personagens um final feliz, pra variar, e um sopro de otimismo em seu tão lucrativo Millarworld.

JUPITER’S LEGACY #1 a 4
[Image Comics, 20 páginas por edição / 2013-2014]
Roteiros de Mark Millar, desenhos de Frank Quitely, cores de Peter Doherty

Nota: 8,0