[QUADRINHOS] Jupiter’s Legacy #1 – A Era dos Superheróis

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No nosso imaginário atual, super-heróis se tornaram mitos, figuras simbólicas que já pertencem a nossa cultura popular. Embora venham dum mundo fantástico, seus dilemas sempre correlacionam com a nossa realidade, na verdade, como toda boa ficção, dentro das histórias em quadrinhos encontra-se uma representação de nosso mundo em si.  Só olharmos precisamente os X-Men, pois são um belo retrato da sociedade e suas crises. Criados no auge do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA, Stan Lee utilizou os oprimidos mutantes como voz catalizadora daquele momento. Não, por muito tempo, logo outros autores descobriram que a linha que separa aquela realidade da nossa é muito mais tênue que imaginamos.

Das diversas reimaginações modernas sobre o mito do super-herói, a mais famosa é Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons, sem dúvidas. Essa obra inseriu a ideia de pessoas saindo fantasiadas com roupas espalhafatosas dentro dum desesperançoso e paranoico mundo à deriva da Guerra Fria. Diferente dos demais quadrinhos, em Watchmen os heróis são apenas homens e mulheres vulneráveis aos males e os problemas do cotidiano.  Curiosamente, Moore havia abordado o conceito de superseres influenciando questionavelmente o mundo onde vivem antes, em sua fase com o super-herói britânico Miracleman (originalmente conhecido como Marvelman). Por essas e outras que considero Alan Moore como o grande desconstruidor dos super-heróis e seus ideais, mostrando-os como hipócritas e cínicos assim como o mundo que os rodeiam. Deve-se notar que essa visão particular influencia os quadrinhos americanos até hoje, só vermos agora Jupiter’s Legacy, o novo grande trabalho do escritor Mark Millar em conjunto com o ilustrador Frank Quitely.

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 Miracleman

Planejada inicialmente como uma maxissérie de doze edições, Millar e Quitely então decidiram estrutura-la como uma trilogia, dividindo-a em minisséries. Hiperbólico como sempre, Mark Millar vendeu esse seu projeto como um grandioso épico sobre os super-heróis, uma visionária abordagem sobre o tema. Lógico que qualquer um que tenha acompanhado o sujeito pelos últimos anos sabe o quanto isso é balela, afinal estamos falando do mesmo cara que foi apelidado carinhosamente de “Marketeiro Millar”. Por exemplo, Kick-Ass, Nemesis, Super Crooks e etc., todos esses seus trabalhos autorais recentes são dignos dum adolescente onanista que curte filmes do Tarantino porque há litros de sangue para todos os lados e isso é “daora” (sim, aprendi com ele que polemizar faz bem).  Títulos bem superficiais e com um desenvolvimento capenga, mesmo com premissas muito interessantes. Mas antes que me acusem de ser um hater do escocês, vou dizer que já fui fã dele há um bom tempo atrás e essa queda de qualidade me incomoda muito. Olha, ele escreveu aqueles dois excelentes volumes d’Os Supremos, a ótima reinvenção do azulão em Superman: Entre a Foice e o Martelo e a minissérie Guerra Civil, simplesmente o melhor evento da Marvel na última década. Quando há um bom editor para segurar suas “loucuras” e cortar suas besteiras, Millar é sensacional.

Voltando àquela originalidade a qual contestei, sim, Jupiter’s Legacy ainda não é toda aquela Coca-Cola que Millar pintou, isso, com base nessa sua edição de estreia. O escritor construiu uma visão madura sobre os reflexos do super-heróismo numa sociedade através de eras. Nada que já tenha sido feito diversas vezes anteriormente nos quadrinhos (como no já citado Miracleman), até mesmo pela própria dupla de criadores quando trabalharam juntos em Authority. Sim, isso mesmo que vocês devem está pensando com uma incrível expressão de surpresa em seus rostos: Frank Quitely já trabalhou com outros autores além de Grant Morrison.

A trama começa em Marrocos, na década de 30, logo apresentando o nova-iorquino Sheldon Sampson, referência clara ao método Stan Lee de nomear personagens com letras iniciais no nome e sobrenome. Nas páginas iniciais, acompanhamos um diálogo bem lugar-comum como ferramenta para ilustrar o poder de influência dum personagem. Encontramos aqui Sheldon convencendo o capitão dum navio a leva-lo para uma misteriosa ilha o qual sonhara uma vez. Lá deve estar a chave para salvar os EUA, segundo a sua crença, afinal a Grande Depressão assolava seu país e acabara com sua vida. Seu irmão Walter e um grupo de velhos colegas da faculdade, incluindo Grace, o seu interesse amoroso, vêm acompanhando-o nessa sua busca pela salvação. Eles conseguem o navio, chegam à ilha e encontram algo fantástico (ainda não revelado nesta primeira edição) que mudará suas vidas. Ao retornarem, Sheldon nos diz que conseguiram habilidades extraordinárias lá, se tornaram divindades as quais o povo nomeou como “super-heróis”. Dessa forma, remodelaram o mundo com seus feitos e trouxeram uma era gloriosa para a humanidade sobre a sua liderança.

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Jupiter's Legacy 001 (2013) (c2c) (Monafekk-Empire) 008Sheldon, a Grande Depressão e a Ilha

Numa leve virada de página, logo estamos em 2013. Millar nos apresenta um mundo mais próximo ao nosso, aqui super-heróis são celebridades, patrocinados por grandes empresas, e ditam a moda e o pensamento da juventude. São os nossos popstars, suas roupas extravagantes os singularizam e enunciam suas diferenças. Mesmo assim, muito da ideologia altruísta de Sheldon se perdeu e as coisas vão de mal a pior ao redor do globo. A nova geração apenas quer fama, sucesso e dinheiro, o heroísmo é algo só para a velha escola.

Importante pensarmos sobre esses cenários apresentados pelo autor neste primeiro número. O passado evoca um sentimento de esperança, insinuando os motivos para o surgimento de alguém como o Superman naquela época de crise e assim mantém o estigma do sonho americano sobre Sheldon, da mesma forma como acontece com o kryptoniano. O trabalho de cores de Peter Doherty (não confundam com o músico) nesta passagem é muito bom, seus tons amarelados e sua pigmentação dando diferentes texturas aos objetos em cena, cria uma referência visual perfeita com aquela época e a própria forma como a arte gráfica era. Quando vamos para o presente, nos deparamos com um universo carregado de cinismo e insipidez, bem comum nos trabalhos de Millar. É um contraste bem claro entre dois tempos, por ora, essa narrativa dupla serve apenas para acentuar o nascer e morte (deturpação) de ideais.

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Na entrevista dada a própria editora Image Comics e colocada no editorial da edição, além de vender muito o seu peixe como sempre, o escritor afirma que suas duas maiores influências são Alan Moore e Frank Miller, aliás, duma forma o tanto quanto curiosa ao declará-los que são como figuras paternas idealizadas por ele. Muito desses dois pode ser encontrado no estilo de Millar compor suas obras, só denotarmos o cinismo de Moore em Os Supremos e a realidade extremamente marginal em Kick-Ass, referência pura ao Demolidor de Miller. Outra grande referência a Frank Miller está na falta de caráter e senso moral de seus personagens, em suas obras mais autorais, a humanidade sempre está em plena decadência, algo que Millar recorre aqui em Jupiter’s Legacy.

383172_615720768456612_295422498_nSim, isso é sério

O momento-chave da edição para podermos analisar melhor o trabalho realizado aqui pelos autores está na primeira grande batalha da minissérie. Millar possui uma forma de escrita bastante tradicional quando se diz em linguagem visual, o foco está nos diálogos “maduros”. Dois jovens heróis conversam numa colina enquanto assistem, com certa indiferença, o combate de diversos heróis – incluindo Sheldon Sampson – contra Blackstar, um vilão que possui uma bateria de anti-matéria no peito, lembra bastante o novo deus Darkseid. Interessante nesta sequência é a linguagem visual que o artista Frank Quitely adapta para a escrita de Millar, parece convencional se comparada com a sua arte mais inventiva em seus trabalhos com Grant Morrison, mas ainda continua interessante. A colina é bem delimitada como o campo de foco dessa ação, a luta, então Quitely faz a passagem de quadros correspondente numa forma bem compreensiva e ágil, sem expandir ou alterar o local. A sacada aqui é concentrar nos golpes dos personagens para criar o dinamismo da sequência, não há necessidade de deslocação e movimento, assim como se aquele pequeno lugar fosse uma arena e cada golpe fosse deslumbrado pelo espectador com precisão. Isso consegue render duas páginas com uns quinze super-heróis socando o tal vilão, sem ao menos haver uma descoordenação na fluência da ação e planos.

Outro momento que Quitely brilha neste combate é quando o irmão de Sheldon, Walter Sampson, revela seus poderes psíquicos e transporta a consciência do vilão para uma espécie de pintura mental. Baseada num local específico de sua infância, uma praia, Walter recriou ela com uma riqueza de detalhes e a utiliza como prisão para mente de seu inimigo, um lugar calmo em que ele pode ser anestesiado enquanto seu convalesce fisicamente em combate. A graça de apreciar a arte de Frank Quitely está nos pequenos detalhes que contribuem para construção de seus personagens. Seu traço fino, mas bem delineado, dá um volume interessante a suas formas, lembro que o próprio artista brasileiro Mike Deodato Jr., diz que essa seja uma das características fortes no trabalho do britânico por dar uma noção incrível da presença e movimento dos corpos de personagens, eles realmente parecem que se movem e se comportam como um ser humano de verdade. E olhando ainda essa sequência onírica, percebe-se seu cuidado até nos mais mínimos detalhes do painel, assim como o artista francês Jean “Moebius” Girard, Quitely minuciosamente compõe o mundo a volta de seus personagens para que as paisagens sejam tão verossímeis quanto quem vive nelas. O trabalho do colorista Pete Doherty marca muito bem a presença aqui, trabalhando nos níveis de tons para criara imersão dessa prisão mental, enquanto utiliza cores próximas às duma simples aquarela a fim de manter a sensação de estarmos observando uma pintura naturalista.

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Logo em seguida, após a derrota de Blackstar, inicia um debate ideológico entre Sheldon e Walter. Aqui Millar solta um pouco seu tato com diálogos e começa a dar um deslumbre sobre o que aconteceu a este mundo desde o surgimento de superseres através dessa discussão entre estes dois. Sheldon agora atende pelo nome de Utopian (Utopiano), além de seu semblante lembrar o Superman, ainda parafraseia o mantra sobre poderes e responsabilidades imortalizado por Benjamin Parker, o conhecido Tio Ben. Sua própria identidade como super-herói demonstra sua crença nos ideais utópicos o qual sonhara, infelizmente, a geração atual apenas procura viver como celebridades e arrumarem empresas para patrociná-los, inclusive seus filhos Brandon e Chloe, o primeiro está cansado dessa vida e a segunda nem preferiu se envolver. Isto o decepciona bastante. Engraçado que somente Sheldon e sua esposa, Grace, ainda se escondem por trás de identidades secretas no presente. Do outro lado da moeda, Walter aceita esse niilismo da nova geração porque sabe que foram eles que deram esse fardo a juventude, acredita no individualismo ao contrário do conceito de unidade e altruísmo do seu irmão. Fica claro que o mundo não mudou tanto desde que se tornaram super-heróis porque Sheldon nunca quis se meter nas políticas da sociedade, Walter logo se posiciona contra isso, dizendo que eles possuem o poder de guiar a humanidade se tomarem as rédeas das coisas. Acredito que nos veremos um embate político maior nas próximas edições, e quem sabe, Walter buscando governar o planeta e assim se tornar o grande vilão desse épico.

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A edição termina com um gancho forçado apresentando uma provável importante personagem sofrendo algo que parece ser uma overdose, como pouco explorou ela aqui, fica só uma pequena curiosidade no ar, nada muito instigante. De qualquer forma, Jupiter’s Legacy se mostra como o mais promissor e maduro trabalho de Mark Millar em anos e pelas boas vendas, prova seu talento em vendê-la, espero que não decepcione nas futuras edições. Caso não vá com a cara do escritor e acha que super-heróis darquis estão batidos, a presença de Frank Quitely na arte vale sempre uma lida.

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