[QUADRINHOS] Infinity – Quando os Vingadores Conquistaram o Universo (ou quase isto)

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Semana passada encerrou-se Infinity, saga que Jonathan Hickman, atual escritor das séries Avengers e New Avengers, vinha preparando desde que assumiu os dois principais títulos dos Vingadores há um ano atrás. No decorrer de quase 20 edições o autor introduziu novos personagens, reformulou antigos conceitos que compõem o Multiverso da Marvel Comics, e foi aos poucos posicionando cada uma das peças de sua imensa e intrincada rede narrativa, plantando com grande parte delas as sementes (ou devo dizer Bombas de Criação?) que dariam origem à saga que movimentou boa parte da Casa das Idéias no segundo semestre deste ano. É o resultado deste esforço de Hickman que analisarei neste texto, que contém MUITOS SPOILERS (além de comentários elogiosos e algumas críticas ao trabalho do autor, como é de praxe).

Pois bem, de início vou deixar bem claro que não pretendo comentar cada edição de Avengers e New Avengers que culminou em Infinity (até porque escrevi reviews detalhados de boa parte delas, que podem ser conferidos aqui e aqui), e ignorarei os tie-ins, concentrando-me apenas nos pontos que julguei relevantes para a trama central e seu desenrolar. Dito isto, prossigamos.

Apesar de ter armado um gigantesco cenário que envolvia o Evento Branco, as Incursões, a ancestral raça conhecida como Construtores, e personagens como Ex Nihilo, Abismo, Capitã Universo, Estigma e Máscara Noturna, além das Bombas de Criação, Bombas de Anti-Matéria, Thanos, as Jóias do Infinito, entre outros elementos envolvidos em maior ou menor grau, não foi desta vez que Jonathan Hickman usou todas as suas cartas no jogo. Isto pode ter rendido para alguns um bocado de decepção. Muito se falou do que trataria Infinity – eu mesmo especulei um bocado sobre quais subtramas introduzidas pelo escritor teriam continuidade na saga – que acabou se mostrando mais “simples” do que muitos deduziam.

Infinity se dividiu em duas frentes principais. A maior e mais poderosa equipe dos Vingadores partiu para os confins do universo, a fim de ajudar vários impérios galácticos a deter o avanço dos Construtores, raça de aliens supostamente responsáveis por supervisionar e guiar a evolução da vida através do Cosmos (segundo Ex Nihilo, ele próprio uma criação indireta dos Construtores). Já os Illuminati, grupo secreto de Vingadores organizado pelo Homem de Ferro, ficaram na Terra, e tiveram que lidar com a chegada de Thanos, que se aproveitou da partida dos heróis mais “pesos pesados” do planeta para atacar nosso mundo.

Partindo disto Hickman pôde abordar um pouco mais da ameaça representada pelos Construtores, no que se resumiu basicamente em uma série de ataques deles aos principais impérios galácticos do universo, como os Shi’Ar, os Skrulls e os Krees, entre outros. Portanto, grande parte de Infinity foi basicamente uma guerra intergaláctica da qual os Vingadores foram uma parte ínfima, e pouco respeitada pela maioria (pelo menos no início da história).

Vingadores e o Conselho Galáctico versus Construtores

Vingadores e o Conselho Galáctico versus Construtores

A grande sacada do escritor foi transformar o evento num catalizador do novo papel dos Vingadores no Universo 616 (o universo tradicional da Marvel). Assim, pouco importou todas aquelas histórias sobre as Bombas de Criação, o Evento Branco e as Incursões, que ocuparam papéis secundários dentro da trama central. As primeiras, por exemplo, nem sequer foram citadas durante a saga, permanecendo como subtrama a ser explorada pelo autor nos próximos anos (ele já disse que tem mapeado pelo menos mais dois).

Enquanto a numerosa equipe liderada pelo Capitão América foi conquistando aos poucos o respeito e admiração de impérios alienígenas, o Homem de Ferro e seus Illuminati tiveram a dura tarefa de encarar Thanos e seus Obsidianos do Sacrifício (Cull Obsidian, no original). No geral foi mais uma invasão alienígena à Terra que espalhou-se por vários pontos do planeta, garantindo ganchos para serem explorados pelos tie-ins de Infinity. O que de fato importou foi o motivo pelo qual Thanos invadiu a Terra: encontrar e matar seu filho, uma missão que lhe foi dada pela Morte na mediana minissérie Thanos Rising (sobre a qual falei aqui).

Pantera Negra versus Anão Negro

Pantera Negra versus Anão Negro, um dos Obsidianos de Thanos

Li algumas críticas sobre Hickman usar a velha máxima “entre mortos e feridos salvaram-se todos”, já que durante toda a história nenhum personagem importante morreu, apesar da história mostrar conflitos onde civilizações inteiras foram obliteradas, e impérios enfraquecidos ao ponto de quase deixarem de existir. Outro problema foi a maneira como o autor impôs dificuldades titânicas sobre os heróis para rapidamente saná-las, com personagens “dei ex machina”, como Capitã Universo e Estigma, em passagens rápidas acompanhadas de recordatórios econômicos, algo que também aconteceu durante as batalhas espaciais em larga escala, que duraram poucas páginas, algumas delas sendo retratadas em poucos quadrinhos, ou mesmo citadas em apenas um. Além disto, a forma como Hickman descartou os Construtores pouco antes da reta final, sem esclarecer muito sobre a origem e os propósitos deles, me desagradou particularmente.

Mas, boa parte do que citei no parágrafo acima pode ser relevado levando em conta a maneira como Hickman lida com suas histórias. Muito do que ficou fora de Infinity têm grandes chances de voltar à tona nas próximas temporadas do autor em Avengers e New Avengers, que ainda não finalizou S.H.I.E.L.D. Volume 2, minissérie que muitos apostam que é outro vasto repositório de possíveis encrencas cósmicas e espaço-temporais que os Vingadores e todo o Universo Marvel enfrentarão nos próximos anos.

Voltando a Infinity, falemos das consequências. A principal delas foi a destruição de Attilan, a cidade flutuante dos Inumanos, fato que espalhou por toda a Terra as névoas terrígenas, fonte de poder desta civilização de super-seres cuja origem remonta aos Krees e aos Celestiais (só daí já dá pra deduzir que em algum momento eles podem voltar como um problema para os heróis da Terra). Com isto, como toda a saga da Marvel dos últimos anos, Infinity serviu para desencadear o evento seguinte, Inhumanity, que marcará o surgimento de uma nova raça de super-seres no planeta. Muito já foi especulado sobre isto ser uma estratégia da Marvel para ter uma segunda alternativa para usar “mutantes” no cinema sem a necessidade de classificá-los como tais, enquanto os direitos de uso de seus “verdadeiros mutantes” são da Fox (leia-se X-Men e todos os seres dotados do gene X no Universo Marvel). Independente dos motivos, nos quadrinhos isto representou o fim de uma era para os Inumanos comandados por Raio Negro, responsável pela detonação de Attilan (é sugerido em vários momentos de Infinity que era a intenção do monarca espalhar as névoas terrígenas pela Terra, e aumentar a população de sua raça no planeta).

Outra consequência foi o surgimento de Thane, filho de Thanos, que no final da história dá a entender que assumirá o papel do pai enquanto o Titã Louco passa uma temporada preso no cubo de âmbar criado por Thane, prisão esta que foi levada para o quartel secreto dos Illuminati na Necrópolis de Wakanda (onde provavelmente ele ficará até as vésperas do filme dos Guardiões da Galáxia, quando espera-se que o vilão ganhará mais algum destaque, embora a Marvel já tenha dito que o vilão só voltará “pra valer” em Vingadores 3).

E, claro, o respeito ganho pelos Vingadores por seu papel fundamental na derrota dos Construtores. Infinity funcionou como um épico conto cuja moral foi a velha “a união faz a força” (ou, se você era fissurado em Lost como eu, “live together, die alone”). Durante toda a saga foram os Vingadores os responsáveis por unir e coordenar impérios galácticos rivais em prol de uma causa comum: vencer a ameaça dos Construtores. Milhares de mundos foram salvos por esta iniciativa da equipe, comandada pelo Capitão América (o que já rendeu muitos comentários sobre o fato ser uma extrapolação alegórica do imperialismo americano – como fica sugerido pelas imagens abaixo). Esta foi a ideia central da saga, e a premissa que norteará o segundo ano de Hickman em Avengers e New Avengers, além de gerar Avengers World, a série “irmã caçula” das duas primeiras, que será escrita por Nick Spencer (saiba mais sobre ela aqui).

Tudo isto posto, na média final Infinity foi um entretenimento muito bom, que não chegou a superar as expectativas geradas, mas serviu para espalhar mais um bocado de tramas interessantes a serem desenvolvidas nos próximos meses por Hickman, Spencer e Matt Fraction, este último o responsável pelo evento Inhumanity e a nova série dos Inumanos.

Infelizmente não foi desta vez que descobrimos que fim levou a Jóia do Tempo depois de seu sumiço em New Avengers #3, nem se há uma entidade cósmica por trás das Incursões, e não ganhamos nem uma nova dica sobre o “endgame” dos Locais de Origem gerados pelas bombas de criação de Ex Nihilo, entre outras perguntas sem resposta. Mas já sabemos que Hickman está preparando altas confusões para os Vingadores. Nos últimos meses teve entidade cósmica sendo encontrada morta na Lua (confira abaixo), e já rolou um teaser que indica que o Vigia, outro velho conhecido dos marvelnautas, será a próxima vítima de seja lá quem/o que for que está matando seres poderosos do universo.

O que é certo é que Infinity provou que Hickman está preparado para comandar grandes eventos multisséries, algo que ele já vinha indicando em menor escala conduzindo Avengers e New Avengers. A maneira como o autor coordenou Infinity, tornando as séries onde sua premissa foi gerada tão essenciais para o seu entendimento quanto a minissérie principal do evento, é um ótimo exemplo recente de como conduzir uma saga sem perder o fio da meada. Há aqueles que consideram o autor focado demais nas histórias que quer contar, e não muito interessado em aprofundar-se nos personagens que as protagonizam, mas é inegável sua capacidade de mover estrategicamente, e com desenvoltura invejável, as dezenas de engrenagens que compõem seu maquinário narrativo.

Também merece uma atenção especial, como na maioria dos títulos escritos por Jonathan Hickman, o design gráfico das edições de Infinity, Avengers e New Avengers. A cada mês da saga havia uma cor predominante na capa de Infinity, um padrão que se repetiu nas capas das outras duas séries diretamente ligadas ao evento. Efeito semelhante foi usado nos demais tie-ins da saga, cujas ilustrações das capas não foram totalmente dominadas pela cor referente à edição de Infinity daquele mês, mas envoltas por uma moldura, esta sim trazendo a cor, que sutilmente ajudava o leitor a saber com qual ponto da saga principal aquele tie-in se relacionava (além de informar que a história não era essencial para a compreensão de Infinity, já que não estava totalmente mergulhada na cor dominante daquele mês). Muito elegante esta decisão, que ganha ainda mais alguns pontos por cada uma das cores corresponder às cores das Jóias do Infinito (a única exceção é a Jóia da Realidade), como pode ser constatado no infográfico abaixo:

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A mesma elegância pode ser encontrada na própria estrutura elaborada por Hickman para traçar a rota do crossover, sempre recapitulada e atualizada no final das edições diretamente relacionadas ao evento, além do quadro informativo dos personagens que aparecem nas mesmas:

Pra quem aprecia histórias bem estruturadas, o trabalho de Hickman nos quadrinhos ainda é uma das opções mais indicadas. Vale a pena esperar pra ver qual será a próxima grande história que ele reserva para o futuro. A tendência continua sendo crescer, uma ideia que Hickman plantou lá na primeira edição de Avengers. Que cresça, portanto, e nos surpreenda positiva e infinitamente.

Pra encerrar, selecionei algumas das passagens mais marcantes da saga na galeria abaixo, além de alguns extras que achei bacanas:

MELHORES MOMENTOS DE INFINITY

Os Vingadores partindo para o primeiro confronto contra os Construtores (desenho de Leinil Francis Yu)

Avengers #18

Avengers #18

Pantera Negra partindo pra cima do Anão Negro em Wakanda (créditos a Mike Deodato pela cena animal!)

New Avengers #9

New Avengers #9

A Rebelião dos Ex Nihili contra os Construtores (desenhos de Leinil Francis Yu)

Avengers #20

Avengers #20

O Conselho Galáctico forçosamente liberando a Onda de Aniquilação para derrotar os Construtores (mais uma página do Leinil Yu)

Avengers #21

Avengers #21

O quebra-pau entre Raio Negro e Thanos (desenhos de Dustin Weaver)

Infinity #4

Infinity #4

Thor matando um Construtor… e comemorando a vitória com os Acusadores de Hala (desenhos de Jerome Opeña)

Thor descendo o Mjolnir em Thanos (desenhos de Jim Cheung)

Infinity #6

Infinity #6

CAPAS ALTERNATIVAS DE INFINITY FEITAS POR SCOTTIE YOUNG

PAINEL FORMADO PELAS CAPAS ALTERNATIVAS DE INFINITY ESTRELADAS PELOS OBSIDIANOS DE THANOS E O PRÓPRIO

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PÁGINAS DE INFINITY A LÁPIS, ANTES DE SEREM ARTE-FINALIZADAS, E ESTUDOS DE ALGUNS DOS OBSIDIANOS DE THANOS

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