[QUADRINHOS] Homem-Aranha Superior – Nação Duende: O Fim de Uma Era

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Quando Dan Slott veio com a famigerada ideia de fazer o Doutor Octopus trocar de corpo com o Homem-Aranha (leia mais sobre isto aqui), muitos fãs do Amigão da Vizinhança odiaram o escritor a ponto de alguns ameaçá-lo de morte, e comparar a premissa com a odiada Saga do Clone, por soar tão absurda e sacrílega quanto ela. Pouco menos de um ano e meio e 31 edições depois, o Homem-Aranha Superior de Slott chegou ao fim esta semana com o capítulo final da saga Nação Duende (Goblin Nation, no original), e, na opinião deste que vos escreve, ao longo desta fase peculiar do nosso querido Cabeça de Teia, o autor explorou muito bem o potencial da premissa peculiar que imaginou, tornando a fase Superior uma das mais memoráveis da trajetória do Homem-Aranha e do Doutor Octopus nos quadrinhos.

É preciso elogiar a construção narrativa feita por Slott ao longo de todas as edições de Homem-Aranha Superior, que culminou na saga Nação Duende. Do metódico desmantelamento dos sindicatos criminosos de Nova York pelo herói, cujos remanescentes foram todos acolhidos pelo Duende Verde; à sabotagem deste sobre o sistema de vigilância instalado pelo Homem-Aranha em toda a cidade – um dos grandes trunfos do herói na fase Superior – que levou ao seu colapso completo. Apesar de uma falha aqui e outra ali, uma desacelerada no ritmo de algumas histórias, e da repetição de alguns temas que soaram pura encheção de linguiça, Slott soube posicionar muito bem cada peça para que elas formassem o cenário que encontramos no início da saga.

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Todas as subtramas que Slott introduziu ao longo da série, como a consciência de Peter Parker presa no cérebro de seu antigo corpo controlado por Octopus, tendo que se virar com os poucos fragmentos de suas memórias que restaram após o “exorcismo mental” perpetrado por Otto na memorável edição 9 (que será publicada este mês pela Panini, e cuja resenha você pode ler aqui); o programa de reconhecimento facial instalado nas aranhas-robôs de vigilância (na edição 5, analisada aqui); os Esmaga-Aranhas convertidos em Esmaga-Duendes encomendados por J. Jonah ameson à Alchemax; a descoberta do segredo do Homem-Aranha Superior pelo Duende Verde; e até mesmo a presença do Homem-Aranha 2099 no presente convergem para esta saga e desempenham papéis importantes no arco final da fase “Superior”. Tudo isto coordenado com desenvoltura por Slott. E ainda o acusam de ser apenas um marqueteiro que gosta de trollar os fãs do Aranha (o que ele é, mas também é um escritor competente, com boas idéias e um ótimo senso de coordenação narrativa).

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Como era de se esperar, nesta saga final os Duendes atacam o Homem-Aranha em todos os flancos possíveis, não apenas em sua base na Ilha-Aranha, como nas Indústrias Parker, que Otto criou como seu legado para o mundo, além de tornar alvos seus familiares e amigos. O ápice dos ataques ocorre na edição 29, em que o Duende destrói praticamente todos os lugares que fizeram parte da história do Doutor Octopus, culminando na ameaça à vida da adorável Anna Maria Marconi, que remete ao clássico O Dia em que Gwen Stacy Morreu. Apesar de não serem totalmente inesperadas, todas estas situações-limite aumentam ainda mais o senso de urgência de Nação Duende, que em nenhum momento entedia o leitor.

E semelhante às melhores histórias do Homem-Aranha, o mundo inteiro parece estar contra ele, botando o herói num beco sem saída, totalmente desamparado, e tendo que contar apenas com sua inteligência, habilidades, e recursos a cada minuto mais limitados, para vencer um inimigo aparentemente invencível.

Além da saga reservar momentos eletrizantes de confrontos físicos, como o cerco dos Duendes à Ilha-Aranha, ela também apresenta embates na arena mental, como a luta de Peter Parker contra as tentaculares e absorventes memórias do Doutor Octopus, um cenário perfeito para Giuseppe Camuncoli exibir seu talento elaborando diagramações criativas como as da edição 28 (veja abaixo), que tão bem ilustram os esforços de Peter para não deixar sua personalidade ser absorvida pelas lembranças de Octopus, e suas memórias sobrescritas pelas de seu inimigo. E o nível de compreensão da psique de Octopus que Peter atinge, ao fundir-se temporariamente com ela, é um dos pontos altos da saga, a ser lembrado futuramente como um dos momentos mais marcantes da relação do herói e do vilão.

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Como toda grande história meticulosamente preparada a longo prazo, Nação Duende também apresenta sua parcela de recapitulação dos eventos que a iniciaram. No penúltimo capítulo são relembrados os primeiros passos do Doutor Octopus rumo a seu momento de maior triunfo sobre o Homem-Aranha, que o levou também à sua mais retumbante e completa derrota nas mãos do Duende Verde. A consciência de Peter Parker renasce dos escombros de sua memória ao reviver sua “morte” no corpo degenerado de Octopus, que por sua vez finalmente reconhece e assume suas falhas, e o valor do herói cuja vida roubou por um tempo.

Mas Nação Duende não é livre de falhas. Algumas das reviravoltas do capítulo final envolvendo o Duende Verde e seu papel na criação da Alchemax soaram um tanto forçadas, e feitas às pressas. E pareceu-me conveniente demais a aceitação da verdade por trás do comportamento do Homem-Aranha nos últimos meses por alguns personagens, assim como o esquecimento de Slott sobre a intenção dos Vingadores de prenderem o herói na edição 30, que não dá em nada. Ainda assim, são detalhes que não comprometem o conjunto da obra, e que podem ser melhor desenvolvidos futuramente no reinício de Amazing Spider-Man, que ganha uma nova 1ª edição no final deste mês lá fora.

O Homem-Aranha Superior pode não ter agradado muitos fãs de Peter Parker, mas, particularmente, achei que funcionou como um ótimo entretenimento, que passou longe de ser medíocre e mal conduzido como muitos temiam e alguns acusaram. Slott fechou esta fase de maneira exemplar, e preparou o personagem para um reinício mercadologicamente necessário, tendo em vista o lançamento de O Espetacular Homem-Aranha 2 no início do mês que vem, e a oportunidade que o filme oferecerá de atrair novos leitores. E a julgar pelo que veremos em Spiderverse, saga que Slott está preparando para o início desta nova fase do Amigão da Vizinhança (saiba mais sobre ela aqui), ele tem grandes chances de alavancar as vendas, como fez quando a fase Superior foi lançada. É esperar pra ver. Slott já tem meu voto de confiança.

Melhores momentos de Nação Duende

● Peter entrando numa memória de Octopus, e revivendo a vida inteira do vilão desde o seu nascimento.
● O Homem-Aranha enganando o Duende Verde com um avatar holográfico.
Mary Jane usando o “presente que ganhou do ex” contra os Duendinhos que atacam sua casa, e tendo seu momento de heroína ao pensar rápido e levar a Tia May e Jay Jameson a um lugar seguro, afastando-os da ameaça dos Duendes.
● Octopus admitindo que Peter é superior a ele como Homem-Aranha.
● As duas páginas finais da edição 30:

GOBLIN NATION (SUPERIOR SPIDER-MAN #27-31)
Roteiros de Dan Slott, desenhos de Giuseppe Camuncoli, cores de Antonio Fabela
[Marvel Comics, média de 22 páginas por edição (a última tem mais páginas) / 2014]

Nota: 8,0