[QUADRINHOS] Hitomi, de Ricardo Hirsch e George Schall (resenha)

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Uma menina tímida vive uma existência solidária na escola e em casa. Um dia ela encontra no sótão uma máquina fotográfica com propriedades mágicas, que lhe permite enxergar o mundo por uma nova perspectiva. Enquanto explora sua cidade, Hitomi espera um novo encontro com seu atarefado pai, que percorre o país realizando seu misterioso ofício.

Antes de dividir com vocês minha impressão sobre esse quadrinho escrito por Ricardo Hirsch, ilustrado por George Schall e publicado pela Balão Editorial, peço licença para citar um trecho de uma matéria do Ramon Vitor Alves sobre a HQ A Última Bailarina (cuja continuação está no Catarse):

Eu venho dizendo há um bom tempo, que possuímos grandes talentos no Brasil que não são devidamente explorados (No bom sentido, claro). Um dos caras que cito é o Felipe Nunes, que tem traço e histórias cartunescas que poderiam muito bem se encaixar na industria da animação, você percebe isto por Klaus e Dodô. Nos EUA, grandes quadrinistas ou cartunistas saíram da industria do nanquim e passaram a comandar grandes shows na TV, alguns exemplos são o Matt Groening (Os Simpsons) e Seth MacFarlane (Family Guy, American Dad! e The Cleveland Show), que escreveram Life In Hell e Walter Crouton respectivamente, antes de criarem estas séries.

Concordo com a opinião dele. E posso dizer, sem medo de errar, que George Schall é um desses nossos artistas talentosos que poderiam assumir a direção de qualquer projeto de animação. Hitomi pode ser uma história com roteiro de Ricardo Hirsch, mas seu maior mérito é a arte de Schall, que torna cada uma das 80 páginas da HQ um deleite visual.

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Na trama simples sobre solidão infantil e a relação entre pais e filhos, ocorre a inclusão de elementos fantásticos que remetem às animações do Estúdio Ghibli. O que não é uma surpresa, pois tanto Hirsch como Schall citam o trabalho de Hayao Miyasaki como influência de suas obras. Há claras homenagens a Meu Vizinho TotoroServiço de Entregas da Kiki e A Viagem de Chihiro. Mas todas ocorrem sem alarde, surgindo orgânicas na trama.

Claro que ajuda ainda mais o fato da história ambientar-se numa pequena cidade do Japão, podendo, assim, referenciar livremente algumas de suas fontes de inspiração. 

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O belo traço de Schall, digitalmente pintado numa simulação de cores aquareladas, transmite na maior parte da trama uma atmosfera onírica e lúdica, que permite ao leitor enxergar tudo através dos olhos de Hitomi. A paleta de cores usadas pelo artista poderia ser chamada de “aurora da vida”, tamanha é a leveza e o encantamento que ela transmite.

Hirsch foi sábio em usar poucos textos, deixando que a arte de Schall se desdobrasse, percorrendo as páginas enquanto nos conduz pela história, que é mais composta de silêncios contemplativos, sendo muito econômica no emprego dos diálogos, que surgem pontuais. É um ritmo bem oriental, mas que em nenhum momento soa monótono ou desinteressante.

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Embora toda a obra seja rica em artes de grande beleza plástica, me agradaram particularmente as que Schall mostra o efeito do uso da máquina mágica sobre o mundo de Hitomi, quando o tempo interrompe-se para todos, exceto pra ela.

Por ser protagonizada por uma menina, há uma sensibilidade maior no retrato de seu mundo, seus sentimentos e relações. E também uma lição a ser aprendida, para que Hitomi amadureça. Este aprendizado é uma progressão natural dos acontecimentos narrados, sendo num só tempo duro e rico em significados, decorrentes da poesia temática presente na obra.

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Hitomi é mais um belíssimo exemplo da variedade de quadrinhos excepcionais produzidos por nossos artistas. Não apenas Schall, mas muitos de seus colegas de profissão merecem nosso reconhecimento, e a chance de crescerem neste e em outros ramos. Certamente o Brasil se beneficiará muito quando tais talentos forem incentivados a produzirem obras de arte como esta HQ, que traz um pouco de leveza e encantamento enquanto é lida. Num mundo tão turbulento como este onde vivemos, quadrinhos como Hitomi não são apenas bem vindos, mas urgentes.


nota 5 jornada do escritor


hitomi ricardo hirsch george schaal balao capaBalão Editorial

Brochura

25 x 18 cm

80 páginas

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