[QUADRINHOS] Hip Hop Genealogia, de Ed Piskor (resenha)

A Genealogia retorna com o Hip Hop

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O conhecimento e a afirmação da descendência sempre foram, das características existenciais, as mais importantes para se estabelecer uma consciência de si no mundo. A memória da origem talvez seja um dos elementos de maior gravidade no que tange a diferença entre a vida humana e as demais existentes no nosso planeta. Além de um sentido de si em relação aos outros homens e mulheres de um povo, um sentido de participação de uma linhagem, a genealogia nos assegura o autoconhecimento, mesmo em uma realidade tão hostil e desconhecida, assim como um navegante que nunca se perde no mar por reter a sabedoria das estrelas que sempre estiveram ali, – ainda que não faça a menor ideia da verdadeira natureza do mar ou do céu. Até culturas em que as relações de parentesco são flexíveis, é vital para o homem e a mulher uma orientação genealógica que conduza seguramente aos antigos, àqueles que são os alicerces dos valores fundamentais, senão sagrados. São imagens no espelho ancestral para a qual ambos, homem e mulher, olham e logo obtêm a resposta, antes mesmo de se perguntar o que eles mesmos são.

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É para mim no mínimo curioso em uma época dada à fé em progressos, abstrações, desconstruções, universalismos e ademais facetas do espírito contemporâneo, encontrar justamente uma expressão considerada tão arcaica como a genealogia para descrever a origem da cultura Hip Hop. Nesta belíssima HQ de luxo publicada pela Editora Veneta, Ed Piskor nos conta a história dos pioneiros que deram relevo e cor à arte de rua produzida pelos jovens dos bairros pobres de Nova Iorque, principalmente durante a década de setenta.

Fruto de uma cirúrgica pesquisa histórica, Hip Hop Genealogia, premiado inclusive com um Eisner Award, é uma obra que vai para além do caráter documental. Expõe de maneira dinâmica os anseios de toda uma geração. Destaco aqui um fenômeno que dá relevância quase épica à obra. Falo da influência que as gangues tiveram sobre a forma como emergiu a cultura Hip Hop. O combate de Mcs é a expressão mais óbvia do caráter litigioso, para não dizer mortal, dos conflitos entre grupos que constantemente se digladiavam na disputa de território. É a cultura de rua, segundo o livro, responsável por abrir as margens da vida daquela juventude para um universo inventivo das artes.

Não demorou para que os empresários notassem a crescente onda Hip Hop. O ambiente de livre mercado americano propiciou-lhes a oportunidade de transformar sua energia e expressão artística em consideráveis e crescentes montantes (grana, grana, grana), além de dar sentido à autoestima e importância própria dentro de sua comunidade. Alguns ficaram realmente ricos e tiveram um reconhecimento artístico internacional imenso. Os artistas Hip Hop contemporâneos desfrutam desta herança até os dias de hoje.

Agora, falando da arte gráfica, Piskor é impecável. Ele já havia trabalhado com o roteirista Harvey Pekar em American Splendor (se puderem, assistam ao filme) e aqui não deixa nada a desejar. Todas as páginas são coloridas e a folha é de material resistente. Um respeitável álbum, eu diria. E no final você poderá apreciar uma coletânea espetacular desenhada por artistas convidados. Para os mais interessados, fiquem atentos. A obra foi referência para a série The Get Down, na Netflix, e será lançada em breve a série própria Hip Hop Genealogia nos Estados Unidos.

P. s.: Pode-se ignorar do que é perene, mas, como já disse um velho sábio há eras, do essencial não se escapa.


Veneta

Capa dura

31,6 x 23 x 2 cm

128 páginas

Onde comprar:

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