[QUADRINHOS] Hellblazer: Por que John Constantine Teme Morrer?

Hellblazer

John Constantine não é herói, nem vilão. Não possui uma caracterização simples com base em linhas morais diretas de integridade e corrupção, sendo um dos ícones da categoria-mor do quadrinho adulto norte-americano: O anti-herói. Figura geralmente relegada ao nicho mais underground do público, o anti-herói vem aos poucos ganhando assimilação no cenário mainstream. Isto pode ser percebido com a centralidade de John Constantine em eventos atuais da DC Comics, além da adaptação cinematográfica de histórias do personagem feita em 2005 com Keanu Reeves, e da série de televisão que se iniciará este ano com Matt Ryan. Esta última teve seu piloto recentemente vazado para download nos cantos e recombros da internet. [nota do editor: leia uma resenha do piloto aqui]

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Diante dessa super-exposição do personagem, a editora Panini, responsável por suas publicações no Brasil, continua o trabalho de republicação de suas histórias com o encadernado “John Constantine: Hellblazer – Infernal vol. 1: Hábitos Perigosos”. Neste, temos o início da fase do personagem escrita por Garth Ennis, conhecido por seus roteiros cheios de violência escarrada, e desenhada por William Simpson, que faz um trabalho interessante junto aos coloristas na percepção emotiva dos quadros. Perpassa o arco “Hábitos Perigosos”, em que John tenta lidar com o choque de sua própria mortalidade, e um segundo arco mais simples sobre amor, ódio e vingança. Trataremos aqui nesse review do primeiro arco.

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O quadrinho abre com uma sequência colorida que ao se aproximar do protagonista vai se acinzentando, enquanto ele reflete acerca de sua condição díspar: Está morrendo, em plena primavera. Reflete sobre seus orgulhos e triunfos, e a desgraça de ter de morrer como qualquer um. Parece uma digressão vaga, até a revelação íntegra e visceral do mal que assola o personagem: Câncer de pulmão, depois de anos fumando cigarro atrás de cigarro. E assim segue a primeira história do encadernado, com John tendo pesadelos vívidos com todos aqueles que matou ou feriu, vomitando pedaços de si mesmo na pia, e conhecendo o melhor personagem de todo este encadernado: Matt, um senhor com câncer pronto pra entregar os pontos, mas de forma alguma triste por isso. Seu humor irônico motiva e acomoda John, que acaba contando somente com ele para conversar de forma sincera sobre sua doença.

storylines64dA partir daí a história começa a ganhar ritmo, com John buscando se despedir de velhos amigos. Conhecemos Brendan, um colecionador de bebidas fascinado que abriga um poço milagroso que transforma água benta em qualquer bebida desejada. Nisto passam a noite bebendo e se divertindo, até que o primeiro dos caídos, Satã, vem reivindicar a alma de Brendan já finado e comprado. Constantine joga o demônio numa de suas falcatruas e assim, salva a alma de seu amigo, condenando assim sua própria. A terceira história abre com uma cena pesada de pesadelo em que John vê tumores domando e dando nova forma a seu corpo, que se mantém posicionado como que crucificado. E mais um novo objetivo é dado ao personagem pelo rumo da narrativa: Salvar sua alma, pois depois da ofensa que provocou a Satã, não haveria como o demônio não reivindicá-la e tortura-la sem nenhum limite.

Para isso, recorre a contatos perigosos, e entre um demônio e outro, nunca cessa suas visitas a Matt, suas bebedeiras e cigarros. Chega à conclusão de sua jogada final, arriscada e muito complicada: Vender sua alma aos dois irmãos de Satã, com quem este último divide os domínios infernais como referido em diversos livros de demonologia desde a Idade Média, e causar um impasse tamanho entre os três demônios para que eles só enxerguem duas soluções: Guerrear entre si pela posse de John podendo assim perder a totalidade de seus domínios para os anjos, ou salvarem John da morte e do câncer para impedir esta guerra inevitável de acontecer. Antes da jogada aqui mencionada iniciar-se, vemos John visitando e se despedindo de seus últimos amigos em histórias de sensibilidade surpreendente, vindo de um escritor tão reconhecido por sua super-violência asquerosa em trabalhos como Crossed e The Boys. De qualquer forma, toda essa sensibilidade com cenas do cotidiano e histórias de despedida são pequena parte perto do grande momento de encadernado, quando a narração feita pelo protagonista dá um discurso acerca de suas motivações punks e libertárias contra qualquer tipo de autoridade. Toda a longa pesquisa que Ennis fez acerca de demônios, todas as suas descrições pesadas de cenas de vômito, morte e pesadelos, toda a emotividade da despedida, todas as referências a canções punk e todo o tom da canção My Way na versão do Sid Vicious que foi dado a história, tudo isso tem sua expressão máxima num belíssimo discurso dado por Constantine minutos antes dele iniciar sua grande jogada final. E esta jogada vem em cenas permeadas de um horror visceral recheado de referências cristãs com serpentes, fogo, sombra e tortura muito comuns às nossas representações coletivas ocidentais do que é o sinistro. Páginas realmente tortuosas, muito bem escritas, que finalizam num majestoso dedão na cara dos demônios que acabaram de cair na lábia do mago Constantine. E então, vem os epílogos.

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John percebe seu próprio egoísmo hipócrita lembrando-se que quase causou uma guerra entre demônios que levaria todas as almas à escravidão eterna dos anjos. Desesperado, percebe que salvou a si mesmo, mas pouco fez por aquele outro amigo moribundo que tanto lhe ajudou quando precisara. John corre para despedir-se de Matt, eles mantêm uma última conversa, e Matt morre em painéis que desolam a alma de John e do leitor. O pequeno detalhe é: Matt havia comentado com John, lá pelo meio da história, na página 94 do encadernado, sobre o surto de sangue e desespero que seriam seus momentos finais, e deu risada acerca disso tudo, longas risadas. Matt morreu como esperava, mas John não poderia deixar de se culpar, pois este é o drama principal do personagem: Ele mente, ele trai, passa por cima do que for preciso em sua guerra pessoal contra anjos, demônios e autoridades, mas sempre se arrepende porque não levou em conta o que devia, e sempre é tarde demais. E por que um personagem com tantos motivos para odiar a si mesmo temeria tanto a morte? Por que, sabendo do que fez no passado e das punições que acredita que merece, John não simplesmente se entrega? Porque apesar de todo percalço no caminho, ele fez do seu próprio jeito.