[QUADRINHOS] Grandes Astros Superman: os 10 anos da obra-prima de Grant Morrison e Frank Quitely.

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Começou bem simples: o Superman sentado serenamente numa nuvem, nos dizendo com os olhos: “Relaxe! Tudo ficará bem no final.” Seu olhar é o de um ser benevolente e angelical. Não apenas do protetor de Metrópolis, que vemos no fundo da cena, mas de toda a Terra.

Em seguida veio a primeira página, com sua brilhante síntese da origem do primeiro super-herói…

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… e sua coroação como um novo deus solar.

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Seguida de páginas onde o vemos testar seus limites, se aproximando demais da fonte de seus poderes, condenando-se como o Ícaro mitológico. Mas isto apenas o motivou a entregar-se com mais amor à sua missão: salvar-nos, não importa de quais formas, enquanto tenta nos elevar até ele.

Seria muito fácil comparar o Superman a Jesus Cristo, como muitos já o fizeram. Ele é mais do que uma releitura de uma história que a maior parte do planeta já conhece. É um modelo para o Homem do Amanhã. Ele representa o melhor que podemos ser, caso nos dediquemos ao bem. Em essência é disto que trata Grandes Astros Superman, que também funciona como uma das mais belas homenagens feitas à rica mitologia do último filho de Krypton.

Grant Morrison fez um exemplar exercício arqueológico ao reunir ideias, conceitos, cenários e personagens das mais de sete décadas de existência do Superman, saídos dos quadrinhos, dos filmes, dos desenhos animados, e costurá-las numa nova história, que encapsulou em suas quase 300 páginas a quintessência do Homem de Aço.

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Para isto ele contou com o não menos exemplar, e igualmente talentoso Frank Quitely. É preciso observar atentamente as escolhas do artista. Seu virtuosismo técnico é mais contido aqui do que em trabalhos anteriores e posteriores, mas, ainda assim, muito presente em cada página. É importante reparar nos quadros horizontais e amplos sempre que o Superman pratica seus atos de heroísmo; nos quadros inclinados durante o ataque terrorista à expedição espacial ao Sol; e atentar para como eles se estabilizam quando o herói os socorre, retomando o controle da situação. São de sutilezas como estas que a narrativa visual de Quitely é composta. Aqui ele realizou o que ainda é um de seus melhores trabalhos.

Grandes Astros Superman parece o resultado de uma inspiração divina. Sua leitura encanta os olhos e ilumina a mente. É como um evangelho em quadrinhos. E aqui eu me dou ao direito de render-me ao clichê, e novamente citar Cristo. O Superman não deixa de ser um representante fictício do Filho de Deus. Uma ideia cujo poder é maior que o de uma bomba (que é uma ideia menor concretizada por mentes humanas, uma ideia destrutiva). Como defende Morrison em seu livro Superdeuses, o Superman é uma ideia tão poderosa que sobreviveu à morte de seus criadores. Ideia que talvez seja anterior a Jerry Siegel e Joe Shuster, como Morrison sugere no 10º capítulo de Grandes Astros Superman:

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Nele, testemunhamos o milagre da criação pelas mãos do novo deus solar da Terra, quando esta ganha uma “irmã” mais nova, onde o Superman é “apenas” um personagem fictício criado por uma dupla de amigos descendentes de judeus, talvez inspirados pelo Übermensch, o Além-Homem de Nietzsche (que também marca presença na HQ). Não é à toa que este é um dos meus capítulos favoritos, pela ousadia de Morrison em inverter causa e efeito, em defesa de suas crenças sobre a natureza das ideias e dos seres bidimensionais “criados” por nós.

Mais do que uma história do personagem-título, Grandes Astros Superman é um ensaio sobre o poder de um mito moderno, sobre quão inspirador ele pode ser, ao ponto de influenciar culturas inteiras, levar homens maus à redenção, dar superpoderes a seres mortais, curar doenças do corpo e da alma. É também a mais bela carta de amor ao herói, e a todos aqueles apaixonados por histórias de homens e mulheres com poderes sobre-humanos, ou mesmo por outras mitologias.

Desde 1938, o Superman vem tentando nos ensinar a ser mais do que somos, seja elevando nossas consciências ou fazendo o bem ao próximo, independente de termos super-poderes como ele. Se uma obra de 300 páginas conseguiu levar pras vidas de seus leitores mensagens tão edificantes, mesmo sob a forma de aventuras super-heroicas, ela não pode ser classificada como menos que uma obra-prima. Grandes Astros Superman é tudo isto e muito mais. Só que o resto eu deixarei pra você descobrir enquanto a lê e relê. Porque outra qualidade das obras-primas é jamais se esgotarem, sempre oferecendo novas descobertas, novas fontes de reflexões, enquanto crescem a cada leitura. Então, que cresçamos com ela! Que a cada nova leitura de Grandes Astros Superman nos aproximemos mais do Homem do Amanhã, para ocuparmos, um dia, nosso lugar no Sol, ao lado dele, espalhando luz pelo Universo.

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grandes astros supermanPanini Comics

Capa dura

28 x 19,2 x 2 cm

306 páginas

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