[QUADRINHOS] Godzilla – The Half-Century War: 60 anos do lagartão comemorados em grande estilo

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Daqui a dois dias chega aos cinemas a nova versão americana de Godzilla, e nada melhor para nos preparar para a estréia do que dar uma conferida no que houve de melhor envolvendo o famoso kaiju, desde sua criação em 1954.

O Cilon já escreveu uma ótima crítica sobre o clássico que apresentou o monstro gigante mais famoso do Japão ao mundo, e agora vou falar um pouco sobre uma minissérie em quadrinhos, lançada ano passado, que é considerada por muitos uma das melhores HQs estreladas pelo nosso querido Gojira.

Não vou pagar de profundo entendedor do lagartão radioativo, pois o pouco que conheço dele é sua origem, sua importância e significado na cultura japonesa, e o execrado filme de 1998 –  que eu sei que é ruim, mas é um dos meus guilty pleasures, pois acho ele divertido – mas meramente compartilhar minhas impressões da minissérie em questão, cuja leitura foi muito recomendada por nosso ex-colaborador Nelson Silva.

Godzilla: The Half-Century War, como o subtítulo já indica, acompanha meio século de uma guerra contra o Godzilla. A trama, dividida em cinco capítulos, é narrada por Ota Muramaki, um militar que participou de todos os principais confrontos com o kaiju ao longo das últimas décadas, como integrante da Força Anti-Megalossauro, criada depois do primeiro ataque do monstro a Tokyo. Cada edição é ambientada numa década, e relata a evolução dos ataques do Godzilla, da força de combate criada para lidar como o kaiju, o surgimento de outros monstros, e o aperfeiçoamento das técnicas e armamentos de combate surgidos como consequência do despertar do bicho.

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O que de início salta aos olhos é a arte da história. Os traços detalhados de James Stokoe, e as cores de Heather Breckel, remetem aos trabalhos do igualmente detalhista Geoff Darrow – que, vale lembrar, já desenhou Big Guy & Rusty, O Menino Robô, história escrita por Frank Miller, que é uma grande homenagem aos filmes de kaijus – e traduzem visualmente toda a destruição causada pelos ataques do Godzilla, que por sua vez ganha uma presença titânica e palpável, com cada escama de sua pele impenetrável sendo minuciosamente desenhada por Stokoe. É um esforço artístico primoroso e claramente apaixonado.

E a paixão do autor pela história que está contando, e pelo legado dos monstros que dominam quase todas as páginas de Half-Century War, também se torna clara através do respeito crescente que Ota passa a nutrir por Godzilla, conforme suas décadas de dedicação à caça ao kaiju se acumulam, e o bicho se revela tão ameaçador quanto necessário para lidar com outras ameaças que surgem como consequência das medidas de combate empregadas contra o monstro.

Aliás, a relação que se forma entre Ota e Godzilla é comparável à do Capitão Ahab com Moby Dick, no clássico homônimo de Herman Melville. Semelhante a Ahab, Ota torna-se obcecado pelo monstro, e dedica sua vida a estudá-lo, a fim de entender seus hábitos, e tentar prever as reações e ataques do kaiju. Seu conhecimento relativo ao comportamento do Godzilla o torna, em dado momento, uma espécie de “monstrologista”, que é consultado sempre que precisam prever um novo ataque do lagartão. Isto é claramente uma referência ao fato de Godzilla ser considerado uma personificação das forças incontroláveis da natureza.

Apesar do personagem título ser a grande estrela da história, ela também reserva inúmeras homenagens aos fãs do gênero, com aparições de outros monstros que Godzilla enfrentou em toda a sua série de filmes. Estão lá Rodan, Mothra, Ebirah, Hedorah, Anguirus, Gigan e King Ghidorah, entre outros, para a alegria de quem curte um quebra-pau feroz entre monstruosidades demolidoras de prédios (e neste ponto, entre todos os capítulos, o que mais se destaca é o 3º, cujas páginas são de fazer qualquer marmanjo fã dos monstrões “suar os olhos”).

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Além da ameaça dos kaijus, Ota e a Força Anti-Megalossauro ainda precisam lidar com os contantes ataques terroristas de Deverich, um cientista que criou um transmissor psiônico capaz de atrair Godzilla e outros monstros para as cidades onde o aparelho é ativado. Uma das ótimas sacadas de Stokoe é que o nome do personagem é uma fusão dos nomes da dupla Dean Devlin e Roland Emmerich, respectivamente roteirista e diretor do odiado Godzilla de 1998.

Mas o grande embate, que é ensaiado ao longo de toda a minissérie, só ocorre na última edição, quando um já idoso Ota finalmente ganha sua chance de confrontar Godzilla de igual para igual usando o Mechagodzilla, a versão robótica do lagartão. O cenário do clímax não poderia ser mais adequado: o gélido e desolador continente antártico, que por sua vez representa o estado de desolação e devastação em que se encontra o resto do mundo, devido aos inconstáveis ataques de Godzilla e outros kaijus, que foram atraídos para a Terra graças aos aparelhos criados por Deverich.

Acima de um confronto entre um homem e uma força da natureza, The Half-Century War, como as melhores histórias envolvendo monstros gigantes, é também uma grande alegoria sobre as tentativas do homem em controlar a natureza, e se mostrar superior a ela, e das consequências destas interferências sobre o destino da espécie humana. Conforme Godzilla e outros kaijus se mostram mais irrefreáveis, maiores e mais poderosas tornam-se as armas de combate a eles, e maior é a onda de destruição gerada por ambos.

Ota, por sua vez, representa a obsessão do ser humano em mergulhar num ciclo vicioso de conflitos autodestrutivos. Na história o personagem não menciona nenhum detalhe a respeito de sua vida particular, indicando que dedicou sua vida inteira a uma caçada que o impediu de formar uma família, e ter uma existência além de sua guerra pessoal. Assim, é ao mesmo tempo glorioso e triste os momentos finais da história, quando vemos a culminância da obsessão de Ota.

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The Half-Century War é uma bela homenagem ao legado de Godzilla na cultura pop, que em novembro de 2014 completa 60 anos, desde o início servindo como um alerta em forma de lagarto gigante para que a humanidade aprenda o preço que pagamos quando a natureza é provocada: ela responde de formas imprevistas, e na maioria das vezes sua resposta é bem maior e mais destrutiva que nossas capacidades de lidar com o que ela tem a nos dizer. Enquanto andarmos sobre a superfície deste planeta, haverá um Godzilla devastando nossas cidades para mostrar que não somos tão poderosos quanto pensamos. Vida longa e próspera ao Rei dos Monstros!

GODZILLA: THE HALF-CENTURY WAR #1 a 5
[IDW, 124 páginas / 2012-2013]
Roteiro e desenhos de James Stokoe, cores de Heather Breckel

Nota: 9,0

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