[QUADRINHOS] Estranhos no Paraíso – Volume 1, de Terry Moore (resenha)

David tem uma queda por Katchoo, que ama (não tão) secretamente Francine, que (acha que) ama Freddie, que não ama ninguém.

Os relacionamentos amorosos são o cerne do primeiro volume de Estranhos no Paraíso, a aclamada e premiada série de Terry Moore. No Brasil ela teve algumas de suas edições lançadas por diversas editoras, mas jamais foi publicada até o final. Este ano, durante a CCXP Tour, o pessoal da Social Comics prometeu cumprir aquilo que nenhuma editora conseguiu: publicar em português todas as edições de Estranhos no Paraíso, além de outros trabalhos de Terry Moore, como Echo e Motor Girl.

Antes de qualquer coisa, sinto-me no dever de esclarecer que esta foi a primeira vez que li Estranhos no Paraíso. Admito que nas vezes anteriores em que a série foi parcialmente publicada no país ela não despertou meu interesse. Talvez porque eu não era o público-alvo dela (na época eu estava mais interessado em super-heróis e em quadrinhos de fantasia, ficção científica ou terror).

Com o relançamento da minissérie em três edições pela Social Comics, resolvi dar uma chance pra ela. Afinal, são só três capítulos com pouco menos de 30 páginas.

Terry Moore tem um traço bem bonito e agradável de se ver. Tanto Katchoo quanto Francine são mulheres atraentes sem a necessidade de usarem roupas decotadas, microssaias, ou quaisquer artifícios que apelem pra vulgaridade (embora Francine apareça nua ou seminua algumas vezes durante as 3 edições, por motivos de “surtou legal depois de levar um pé na bunda do ex-namorado cafajeste”).

Aliás, já que mencionei o Freddie, aqui é um bom momento pra dizer que a maior parte desse arco inicial gira em torno de Francine tentando lidar com o fim de seu namoro com Freddie, e da vingança perpetrada por Katchoo contra o dito cujo pela honra da amiga (por quem é claramente apaixonada).

Nesta altura você pode estar se perguntando: então a Katchoo é lésbica? Não necessariamente. Há pistas de que ela já se envolveu com homens antes de dividir o apê com Francine, além do fato de ela “dar bola” pro David depois que ele demonstra interesse por ela quando se conhecem num museu de artes.

David, por sua vez, tem um visual um tanto andrógeno e delicado, que pode (ou não) indicar uma bem possível bissexualidade. Aliás, pelo menos nessas três edições iniciais, Terry Moore parece estabelecer que os homens “decentes” do universo de Estranhos no Paraíso serão retratados fisicamente com um físico franzino ou atlético, e traços mais delicados:

Enquanto os homens mais machistas serão desenhados com traços mais caricatos, agindo como brucutus trogloditas fumantes cuspidores de palavrões. Dois exemplos:

Particularmente achei essa abordagem um tanto decepcionante, justamente por recorrer a um recurso tão pobre e pouco sutil. Vilanizar exageradamente uma parcela da sociedade, seja ela do sexo masculino ou feminino, é um recurso pouco inteligente e muito clichê.

Também há o fato de Katchoo ser claramente uma feminista militante que enxerga a maioria dos homens como inimigos que devem ser sacaneados e desmoralizados, como ela faz com Freddie na edição 2, o que gera as confusões nas quais se mete no capítulo 3. Tudo isto é retratado de uma forma mais exagerada do que séria, tendendo mais pro humor do que pro drama, mas achei que também mais sutileza neste ponto da trama.

Já Francine é uma mulher atraente, um tanto ingênua, muito carente e submissa ao namorado, além de ser sérios problemas de autoestima, mesmo sendo até mais bonita que Katchoo. Promete ser uma personagem que amadurecerá no decorrer da série, dando a volta por cima, e se tornando mais confiante e consciente do poder que ela já possui de assumir as rédeas de sua vida e de seus relacionamentos (algo que já demonstra no final deste primeiro arco).

Após a leitura deste primeiro arco de Estranhos no Paraíso, creio que seja seguro dizer que eles não representam o brilhantismo que levou Terry Moore a ganhar vários prêmios por seu trabalho na série. Ficou claro pra mim que nas 3 primeiras edições o autor estava testando sua narrativa visual, e definindo os temas centrais da série, para desenvolvê-los melhor nos arcos seguintes. Aqui ele não me impressionou. Mas, acho cedo demais pra desistir da série.

O fato é que Terry Moore é um desenhista talentoso, que demonstra potencial pra tornar-se ainda melhor nas próximas edições. E, como creio que grandes artistas se aperfeiçoam com o tempo, acho bem possível que o aprecie ainda mais acompanhando a evolução de seu traço e narrativa através da série. Este parece ser o caso de Terry Moore.

Conclusão: vou conferir as próximas edições Estranhos no Paraíso na esperança de sua qualidade aumentar.

Nota 3 de 5

Leia Estranhos no Paraíso assinando a Social Comics.

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