[QUADRINHOS] Escolhas, de Felipe Cagno, Gustavo Borges e Cris Peter (resenha)

Toda decisão demanda uma perda. Se optamos por um caminho, abrimos mão de outros cujos resultados seriam diferentes, alguns totalmente opostos ao que tomamos. Desde pequeno, João Humberto sonha em ser um super-herói, e escolheu jamais desistir de realizar este desejo. Esta é sua história.

Se você cresceu entre o final dos anos 80 e o início dos 90, e gostava de super-heróis como eu, grandes são as chances de ter assistido e adorado Batman – A Série Animada. Se for este o caso, creio que seja uma boa aposta dizer que você será fisgado por Escolhas logo nas páginas iniciais, que são uma explícita homenagem à abertura do desenho animado que marcou época. Uma história que já começa assim tem tudo pra agradar, certo?

Mas, não se constrói uma boa história apenas com homenagens e referências espalhadas por sua trama – e já adianto que Escolhas tem diversas delas, que proporcionam parte da diversão que é lê-la. Felizmente, a equipe criativa soube dosar muito bem seu uso, e o resultado final é nada menos que apaixonante.

Nesta altura é possível que você já tenha feito essa conexão, mas, se não fez, farei agora: em 2008, Mark Millar e John Romita Jr. se uniram para criar Kick Ass, a série em quadrinhos cuja premissa não é muito diferente da de Escolhas. Na HQ de quase 10 anos atrás, Millar e Romitinha começaram a contar a história de Dave Lizewski usando uma abordagem bastante realista, mas, conforme a trama se desenrolava, ela adquiriu ares de paródia cínica do universo de super-heróis, com forte carga de humor negro e violência, distanciando-se do início promissor.

Fechado este parêntese, outro grande acerto de Escolhas é ser uma história superior a Kick Ass, mesmo que parta da mesma premissa, e tenha bem menos páginas que o 1º dos 3 volumes da série de Millar e Romitinha. Aqui há uma equilibrada mistura de nostalgia com idealismo, um bocado de otimismo e realismo, e muito amor de Cagno, Borges e Peter pelos personagens e o universo que criaram.

Escolhas acompanha a vida do protagonista desde a infância até a maturidade, contando os desafios que ele tem que enfrentar pra realizar seu grande sonho, tentando, em paralelo, lidar com as pressões sociais, de seus pais e de sua amada, sem botar tudo a perder e arruinar o restante de sua vida, enquanto abre mão de alguns caminhos promissores para concretizar seu maior desejo.

Esta não é uma HQ de super-herói tradicional. Vemos João realizar alguns atos heroicos, mas eles não são o foco da trama. Cagno e sua equipe artística usaram a roupagem para falar sobre questões universais, entre elas até que ponto vale a pena lutar por um sonho, e o quanto devemos sacrificar pra atingi-los.

A jornada de João é tocante e inspiradora, sem soar piegas ou forçada. O tom de fábula moderna, criado pela combinação do ótimo texto de Cagno, da arte lúdica de Borges, e das atmosféricas cores de Peter, casou perfeitamente com a trama, que nos cativa desde o início, e nos conduz até o fim sem tropeços. A leitura nos remete a passagens de nossa vida, e nos estimula a pensar sobre as nossas escolhas, enquanto acompanhamos os resultados das que João faz no decorrer de sua epopeia. Você consegue se importar com o destino do rapaz, e torce para que ele consiga coordenar tudo de forma que termine sem sofrer demais.

Digo, sem medo de errar, que este é o melhor trabalho de Felipe Cagno como autor de quadrinhos. Escolhas é sua obra mais madura, o que é muito significativo, pois estou falando de uma história que parte de algo tão lúdico quanto o desejo de uma criança virar um super-herói quando crescer. A maneira como o Felipe desenvolveu esta ideia inicial, combinando o amadurecimento do protagonista com o aperfeiçoamento do plano de João, e as implicações decorrentes dele em sua vida profissional, pessoal e amorosa, rende momentos que vão do dramático ao cômico, sem abrir mão de trechos mais fabulosos e heroicos, que emocionam e empolgam em igual medida.

Gustavo Borges foi muito feliz na escolha da diagramação de diversos trechos, com destaque para aquele onde mostra vários encontros de João e Nina num mesmo cenário (foto abaixo); e as belas páginas duplas, que retratam momentos marcantes da narrativa, com destaque para outro encontro do casal, que fecha lindamente um “capítulo” da história.

Cris Peter e suas cores enriqueceram ainda mais a experiência contagiante que é ler Escolhas, e o mesmo vale para as participações pontuais de Maurício Dias, Will Leite (foto abaixo) e Rogério Coelho.

Escolhas é uma obra que merece a atenção não apenas de leitores de quadrinhos, mas também de quem gosta de histórias com personagens carismáticos, bem narradas, e belamente desenhadas. Tudo isto numa edição caprichada, em capa dura, lançada pela Geektopia (selo de quadrinhos da Novo Século), cuja produção foi financiada através do Catarse.

Momento nerd ostentação: como um dos apoiadores da campanha de Escolhas no Catarse, meu exemplar veio acompanhado de mimos como marca-páginas, aviso de maçaneta, um print, um imã de geladeira do Lobo Cinzento, e essa excelente sobrecapa, que brinca de faz de conta, e ainda “profetiza” a adaptação da obra pela Netflix (o que eu adoraria ver acontecendo):

E já que esta é uma história sobre a realizar sonhos, divido com vocês um que ela me despertou: se Escolhas não for transformada em série de TV, seria lindo assistir uma adaptação dela para os cinemas, se possível dirigida pelo Felipe, que além de um ótimo escritor de quadrinhos, também é cineasta. Fica a dica pra quem estiver disposto a financiar a concretização de mais este sonho. Enquanto isto não acontece, leia Escolhas, e presenteie amigos e amados com essa preciosidade em quadrinhos. Parte de nosso mundinho se beneficiará disto.

Nota 5 de 5

 


Novo Século (Geektopia)

Capa dura

26,4 x 17,2 x 0,8 cm

96 páginas

Onde encontrar:

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Saraiva