[QUADRINHOS] East of West – Quando o Fim do Mundo Vem a Galope

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O que aconteceria num mundo em que Morte, um dos quatro Cavaleiros do Apocalipse, resolve seguir seu próprio caminho e não tomar parte do evento para o qual foi criado? O que faria Morte desistir de seu papel? Estas são algumas das perguntas que norteiam o primeiro arco da série East of West, criada por Jonathan Hickman e Nick Dragotta.

Morte é o protagonista da história, que percorre o mundo em busca de vingança por uma tragédia de seu passado. Enquanto isto Guerra, Fome e Conquista, seus três irmãos, recém-reencarnados em corpos infantis, buscam maneiras de atraí-lo para o lado deles para que cumpram seus destinos e desencadeiem o Apocalipse. Mas logo o cenário se revela mais complexo do que parece, pois há representantes das sete grandes nações do mundo interessados no desenrolar dessa desavença entre os quatro cavaleiros, profetizada n’A Mensagem, uma comunicação, aparentemente mediúnica, entregue em três partes para três indivíduos de países e épocas diferentes.

A Mensagem

A Mensagem

East of West começa bem enigmática, exigindo um bocado da paciência do leitor para desvendar os muitos mistérios que a história introduz. Esta é uma característica típica de um trabalho de Hickman, que gosta de construir suas tramas sem pressa. Por ser um autor que planeja suas séries a longo prazo, ele constantemente dá a seus trabalhos um tom profético e fatalista, passando ao leitor a sensação de que todos os personagens são prisioneiros de circunstâncias sobre as quais não têm controle, cegos para as fatalidades que os aguardam no porvir. Mas aos poucos as respostas surgem, e até a edição 5 muitos dos enigmas do início da história são esclarecidos, incentivando o leitor a fazer uma nova leitura das primeiras edições.

Um dos mistérios desvendados pelo primeiro arco é o que responde a pergunta do início desta resenha. O que faz a Morte desistir de tomar parte no Apocalipse é bem simples: o amor. Não é uma grande surpresa quando descobrimos que ele apaixonou-se por Xiaolian, uma assassina chinesa responsável pela morte de 100 homens num só dia.

Xiaolian, a mulher que conquistou a Morte.

Xiaolian, a mulher que conquistou a Morte.

E por tratar-se de um trabalho de Jonathan Hickman, todos os elementos que compõem East of West, não apenas o texto e a arte de Nick Dragotta, mas também o logomarca da série, os designs de capa, páginas de créditos, as frases aparentemente soltas e descontextualizadas que vez ou outra interrompem a história, merecem uma atenção especial.

Por exemplo, a logomarca da série faz referência aos quatro cavaleiros, com três deles indo numa mesma direção, e o quarto, Morte, seguindo o caminho oposto. Também representa graficamente o slogan da série, presente em todas as capas, lembrando que o mundo de East of West é um mundo fragmentado, em que não existem os Estados Unidos, mas as Seis Nações da América (e a cena em que o slogan finalmente surge, na fala de um personagem na edição 5, é bem marcante). E por fim, os quatro triângulos simbolizam os três profetas que captaram os três trechos que compõem A Mensagem, texto que revela através de parábolas as circunstâncias do fim do mundo, representado pelo triângulo de pé entre os outros três de cabeça pra baixo. Uma quarta interpretação de símbolo surge quando descobrimos mais sobre a história de amor de Morte e Xiaolian, e do significado do trecho da profecia que fala de algo que é “do terceiro, mas não dos três”, e de um “cálice” saído de outro “cálice.”

Vale observar também que além de Morte cavalgar um cavalo-robô sem cabeça, ele tem como arautos um casal de índios, respectivamente chamados de Corvo e Lobo, que, conforme apontado na resenha de Nelson Silva sobre a primeira 1ª edição da série, são “figuras relacionadas à morte no imaginário mitológico de certos povos.” A mulher transforma-se numa revoada de corvos, o homem numa matilha de lobos, e ambos são exímios assassinos. Levando tudo isto em conta, e a importância do número 3 na série, levanto aqui a hipótese dos dois serem mortais que ganharam uma porção dos poderes de Morte. O que também aponta para a possibilidade de ambos ocuparem papéis fundamentais num já esperado confronto entre Morte e seus três irmãos.

Morte e seus arautos, Lobo e Corvo

Morte e seus arautos, Lobo e Corvo

Outra ótima sacada de design é a aparência das próteses cibernéticas de Xiaolian, que por serem vermelhas passam a impressão de que ela está o tempo todo com as mãos sujas de sangue, numa referência visual ao seu passado como assassina.

E os Escolhidos, representantes das sete nações do mundo que arquitetam o Apocalipse, garantindo que a palavra d’A Mensagem se cumpra, lembram não apenas seitas de fanáticos religiosos que profetizam o fim do mundo, e mas também a organização Seele do anime Neon Genesis Evangelion, outro grupo de indivíduos poderosos que arquitetavam sua própria versão do Juízo Final, o Terceiro Impacto (outra coincidência, já que em East of West o local da queda de um meteoro é o epicentro do evento histórico que “fraturou” a América do Norte em sete nações distintas após a Guerra da Secessão).

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Os Escolhidos

A partir da 6ª edição Hickman começa a esmiuçar mais a politicagem que move as relações das sete nações, que ganham maior peso e profundidade no segundo arco. O autor dedica uma edição inteira para explorar a crise política, social e financeira da União, numa história que critica a maneira como o governo manipula a sociedade através da mídia, mas sem soar panfletária, e sim orgânica dentro do panorama global do mundo concebido por Hickman.

Outra edição que aborda a história política do mundo de East of West mordazmente é a 9ª, na qual Hickman, através de uma inversão de papéis muito bem arquitetada, comenta sobre a escravidão que mancha uma parte da história dos Estados Unidos. O final sem dúvida é um dos mais memoráveis da série até agora.

Além disto, a série apresenta críticas incisivas contra a corrupção de governos, que culmina em Hickman criando sua própria versão dos juízes que povoam o mundo do Juiz Dredd: os Rangers. A cena do nascimento do primeiro Ranger na 6ª edição é emblemática, e um dos grandes momentos da série, assim como a última da 10ª edição, que fecha de maneira retumbante e contundente o segundo arco de East of West.

De escravos a reis.

De escravos a reis.

Destaca-se também a maneira como Hickman analisa temas como religião, comentando-os rapidamente em recordatórios que acompanham flashbacks ou cenas de ação, os quais me fizeram lembrar das narrações filosóficas dos documentários do diretor alemão Werner Herzog, que viraram uma de suas marcas registradas.

east-of-west-armisticeE como todos os trabalhos de Hickman, aqui o autor novamente demonstra seu apreço pela estrutura através da metáfora visual que cria sobre a natureza d’A Mensagem. Fisicamente personificada na forma de quatro edifícios em forma de três triângulos de ponta cabeça que formam e contém o triângulo de pé ao centro, A Mensagem foi um evento tanto físico quanto simbólico que moldou o mapa político do mundo imaginado por Hickman. Ela contém em si a profecia do “Cálice” que derramará a “Chama” que incendiará todos os homens no Apocalipse vindouro, a “Grande Besta” do Apocalipse, um novo jogador que é apresentado na reta final do segundo arco, fruto da “árvore do caos”, e promessa de novas reviravoltas na trama.

Todas as edições de East of West são desenhadas por Nick Dragotta com um traço bem solto e caricato na medida certa. O desenhista vem se mostrando uma ótima escolha, contrapondo os personagens a paisagens e cenários a perder de vista, em enquadramentos que remetem aos faroestes de Sergio Leone. Mas, ao contrário do diretor de cinema, Dragotta explora a verticalidade dos quadros, evitando a tentação de emular o widescreen (prática que disseminou-se nos quadrinhos da década passada, virando um clichê das narrativas gráficas atuais). Complementando sua arte há as cores de Frank Martin, que capturam eficientemente a aridez dos cenários, o calor das cenas de ação, e a sufocante escuridão das claustrofóbicas sequências de horror que vez ou outra surgem na série.

Morte e Oráculo negociando um pacto úmido e claustrofóbico, graças ao domínio de Nick Dragotta sobre os enquadramentos e sombras e de Frank Martin sobre as cores e atmosfera opressiva.

Morte e Oráculo negociando um pacto úmido e claustrofóbico, graças ao domínio de Nick Dragotta sobre os enquadramentos e sombras e de Frank Martin sobre as cores e atmosfera opressiva.

Completando o ótimo conjunto formado por cada elemento gráfico de East of West, há o design limpo e estilizado das capas, coloridas apenas por uma cor chapada contra fundo branco, que contrastam com o visual mais “sujo”, tridimensional e texturizado da arte de Dragotta e Martin.

Com East of West ganhamos mais uma prova de que, nas mãos de bons autores, misturas de gêneros podem render mundos, personagens e tramas tão fascinantes quanto relevantes como plataformas ficcionais para discutir e refletir sobre problemáticas reais. A menos que você não goste de como soa a expressão “faroeste cyberpunk apocalíptico,” East of West é uma leitura que recomendo muito. Vale a pena importar os dois encadernados da série que já saíram (na verdade o segundo ainda está em pré-venda, mas compensa comprá-lo com o primeiro e esperar um pouco mais pra receber os dois).

EAST OF WEST #1-10
[Image Comics, média de 30 páginas por edição / 2013-2014]

Nota: 9,0

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