[QUADRINHOS] “Dois Irmãos” de Fábio Moon e Gabriel Bá (resenha)

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Os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá uniram-se para adaptar para os quadrinhos o livro Dois Irmãos, de Milton Hatoum, que conta a história de Omar e Yaqub, gêmeos como eles, mas que, ao contrário deles, jamais alcançaram uma união que gerasse bons frutos.

“Os gêmeos eram dois opostos, habitando o mesmo corpo e dormindo sob o mesmo teto.”

Da mesma forma que Omar e Yaqub são “água e óleo”, eles são o contrário de Bá e Moon. Enquanto os irmãos fictícios jamais conseguiram cooperar num projeto, os irmãos quadrinistas construíram uma carreira sólida e respeitável no meio dos quadrinhos, justamente por serem parceiros criativos em obras como O Girassol e a Lua, Daytripper e este lançamento da Quadrinhos na Cia. Essa ironia é óbvia e significativa demais pra não ser comentada, por isto estou tirando-a do caminho logo no início, assim como a constatação de que ela certamente foi uma das motivações da dupla para transformar a obra de Milton Hatoum em uma graphic novel.

deux freres fabio moon gabriel ba preview 11Omar é cabeça quente, impulsivo, entregue às paixões imediatas, ao passo que Yaqub é calmo, calado, introspectivo, estudioso. Esses grandes contrastes entre eles são o que move grande parte do drama familiar de que trata a obra.

Dois Irmãos fala muito da importância da criação e da vivência para a formação do caráter e da personalidade de indivíduos. Independente da semelhança física entre eles, e do fato de serem da mesma família, as vidas de Omar e Yaqub já começam com uma diferenciação e uma separação: a superproteção que Zana dedica ao caçula, negligenciando o primogênito, é apenas o primeiro de uma cadeia de erros, que vão se revelando e se acumulando no decorrer da obra e das décadas que ela cobre. Tal erro Zana carregará consigo até o fim.

deux freres fabio moon gabriel ba preview 13A história é marcada pela inveja, ciúmes, orgulhos feridos, disputas pelo amor de uma só mulher, rebeldia, desejo e ambição de crescer além do berço, de superar seu inimigo. Yaqub enxerga em Omar seu “outro lado”, eu diria até que sua versão alternativa. Omar é quem Yaqub seria se permanecesse intocado pela experiência de ser afastado de casa após ter seu rosto marcado por uma cicatriz física, que é uma lembrança constante da profunda cicatriz emocional que carrega na alma.

Apesar dos irmãos serem a origem da maioria dos conflitos mostrados pela graphic novel, é preciso reconhecer o cuidado que a obra teve de não negligenciar o desenvolvimento de nenhum dos demais personagens, o que é feito muito bem. Mesmo que alguns tenham participações menores, nota-se a preocupação de evitar que os coadjuvantes passem pela trama como meros figurantes.

A arte

deux freres fabio moon gabriel ba preview 09Como não li a obra original, não saberia dizer se ela possui a mesma objetividade, pausas e vírgulas bem colocadas, que na graphic novel aumentaram o impacto dos fatos narrados. O que posso afirmar é que a combinação do texto com a arte de Gabriel Bá – que tem um traço bem solto, caricato e estilizado – deu dá à narrativa gráfica um aspecto geral de memórias reconstruídas a partir das impressões subjetivas dos fatos narrados.

O ponto forte de Bá é seu domínio sobre luz e sombra. Mesmo na arte preta e branca, é possível ver a diferença entre manhã, tarde e noite, entre o nascer e o pôr-do-sol, entre um dia chuvoso e um ensolarado. Com poucos e precisos traços, ele diz muito sobre cenários, personagens, clima e atmosfera emocional. Isto permite ao artista brincar um pouco com o gênero da obra em si, por exemplo, quando desenha a passagem onde um “detetive” contratado por Zana persegue Omar como uma sequência que remete ao filme Um Corpo Que Cai de Alfred Hitchcock.

deux freres fabio moon gabriel ba preview 12Por ser uma história de tragédias alimentadas por paixões carnais, há muitas ocorrências de atos sexuais, mas que jamais soam gratuitos, vulgares ou pornográficos, pois são tratados pelo texto e pela arte de Bá com muita naturalidade.

Mas talvez o ponto mais elogiável dos desenhos de Bá seja a forma eficiente e econômica como retrata o envelhecimento de todo o elenco. Com um traço a mais no rosto deles, Bá já demarca com precisão as rugas de expressão e velhice, e convence o leitor da fraqueza e flacidez do corpo, da aproximação da morte. Penso que o trabalho dele com o irmão em Daytripper o ajudou muito a obter o know how pra retratar o gradual envelhecimento deles com sua arte minimalista e muito estilizada.

ATENÇÃO: daqui pra baixo tratarei de alguns acontecimentos da obra que podem estragar algumas surpresas, portanto considere-se avisado(a) da presença de SPOILERS.

As influências literárias

deux freres fabio moon gabriel ba preview 05Embora eu não tenha um profundo conhecimento da literatura portuguesa e latino americana, enxerguei alguns pontos em comum entre Dois Irmãos e pelo menos duas outras obras literárias muito conhecidas.

Em seu início, a graphic novel já despertou minha lembrança d’Os Maias de Eça de Queiroz, quando o narrador nos apresenta os arredores de Manaus, e por fim a casa vazia da família de que contará a história, palco das tragédias familiares que narrará nas páginas seguintes. Isto já imprime à narrativa um clima fatalista, de mau agouro e inevitabilidade dos dramas que se desenrolarão.

Mas é o lado latino-americano que fala mais alto em Dois Irmãos. Toda a “volúpia” exibida pelos personagens lembra as obras de Gabriel García Márquez, que também são povoadas de homens e mulheres cujo desejo carnal é descrito muito explicitamente. Bá optou por investir mais na sensualidade, erotismo e, quando adequada, na comicidade do ato sexual, no lugar de tornar tais cenas muito explícitas e pouco artísticas.

deux freres fabio moon gabriel ba preview 07A decadência e abandono da casa, paralela à diminuição da família pela morte de seus membros, é outra semelhança que há entre Dois Irmãos e Cem Anos de Solidão. Aquela sensação do inescapável fim de uma família…

E voltando ao velho continente, Dois Irmãos também assemelha-se à série britânica Downton Abbey, ao contar parte da história “filtrada” pela perspectiva dos empregados da família, que também fazem parte dela, embora de maneira ilegítima. Domingas e Nael são testemunhas dos dramas e das intimidades deles, sofrem com suas dores, e compartilham alguns de seus prazeres. Estão juntos nas alegrias e tristezas de Halim, Zana e seus três filhos.

A Memória Viva e a Morte

deux freres fabio moon gabriel ba preview 06Dois Irmãos já começa com um mistério: a identidade do narrador, que só se revela no capítulo 3, e cujo nome só descobrimos perto do final, conforme desvendamos de que forma ele tomou conhecimento de alguns eventos, o que só é esclarecido ao longo da obra.

É graças ao relacionamento do narrador com Halim que o envelhecimento do patriarca é muito bem retratado pelo texto e a arte. Sente-se em ambos o isolamento e a solidão progressivos de Halim, sua saudade de dias mais felizes e apaixonados, e menos cheios de preocupações e responsabilidades.

Ainda sobre a trajetória de Halim, vale reparar em sua posição simbólica: “esquecido” pela família no andar de cima de sua loja, o patriarca tem uma visão superior e um tanto distanciada de todos os acontecimentos, com os quais se envolve cada vez menos.

deux freres fabio moon gabriel ba preview 02Também é significativa a morte de Halim, que ocorre após a filha desfazer-se das quinquilharias que o pai guardava no sótão da loja. Mas o que parece ser o golpe definitivo, além de todos os problemas causados pelos gêmeos, é a demolição da Cidade Flutuante de Manaus, palco de muitos de seus encontros confessionais com os amigos e o neto. Ele morre após este episódio, sentindo que passou adiante suas memórias, e deixou de ser útil para a família. Ninguém o vê morrendo. Halim deixa pra trás apenas sua casca vazia e cansada.

Sendo o confidente do suposto pai, de seus avôs e da mãe no fim de suas vidas, o narrador de Dois Irmãos termina provando que, muitas vezes, o legado que deixamos no mundo nem sempre é o desejado. Nael, o neto ilegítimo, termina a obra como a memória viva daqueles que se foram.



dois irmaos fabio moon gabriel ba quadrinhos na ciaDois Irmãos
Fábio Moon e Gabriel Bá
(adaptando a obra de Milton Hatoum)

Número de páginas: 232
Formato: 18.00 x 24.50 cm
Acabamento: Brochura
Lançamento: 06/03/2015
Selo: Quadrinhos na Cia
Editora: Companhia das Letras

Disponível nas seguintes livrarias: