[QUADRINHOS] Diastrofismo Humano, de Gilbert Hernandez (resenha)

A editora Veneta lançou a segunda edição da clássica saga de Palomar. A graphic novel Diastrofismo Humano é a continuação de Sopa de Lágrimas, obra escrita e desenhada por Gilbert Hernandez. Desde sua publicação ela coleciona elogios de nomes de peso, como Alan Moore e Neil Gaiman. Seu enredo reúne antigos e novos habitantes da cidade fictícia de Palomar, arrematando alguns fios soltos do primeiro volume, sem perder a consistência notável característica do autor.

Aviso de antemão que, apesar de fluida, Diastrofismo Humano consegue ser, ao mesmo tempo, profunda e densa, como as águas dos pântanos da própria Palomar. A princípio o leitor pode ter de recorrer ao catálogo de inúmeros personagens disposto pelo autor, e os temas, que vão de conflitos internos de um artista ao purismo cultural versus a necessidade de progresso material da cidade, podem descer com um gosto agridoce, devido à abordagem crua de Hernandez.

 

Não é muito fácil definir um protagonista para a trama, já que Hernandez equilibra o foco narrativo entre as dezenas de personagens aproveitando o formato de capítulos não muito longos (lembrando que originalmente foi publicada na revista periódica Love & Rockets). O leitor vai perceber que a dinâmica da história se parece bastante com o formato de novelas mexicanas, mas em um nível de originalidade do qual pouco podemos nos queixar. Trato aqui do exemplo de Luba, arquétipo de mulher forte que ao longo da vida teve vários filhos com cada homem com quem dormiu, mas se apaixonou justamente pelo belo indígena Khamo, homem que a troca pela indígena Tonantizin.

Por sua vez, Tonantizin começa a ficar paranoica com o conteúdo ideológico das cartas de Geraldo Mejia, que está na prisão por ter atacado-a. Na verdade, as cartas eram falsificadas pelas amantes Maricela e Riri, que, ao lerem para a indígena analfabeta, inserem informações radicais e apocalípticas provenientes de discursos politizados que aprenderam na escola. Tonantizin decide viver nos EUA para militar contra as mazelas do mundo moderno, terminando de modo trágico com sua vida.

Esses são apenas alguns dos exemplos entre tantos de histórias que se cruzam dando forma e conteúdo ao grande tecido que é a cidade meso-americana chamada Palomar. A metade final da HQ tem sua atmosfera bastante modificada, sobressaindo a vida dos personagens que foram tentar vida nos Estados Unidos e, também, seu passado. A habilidosa Pipo enriquece vendendo roupas esportivas e produzindo um programa de TV, no qual Doralis, a terceira filha de Luba, se torna um ícone sexual. E ficamos a par da origem de Luba, cuja mãe se envolve com a máfia. Conhecemos também as meias irmãs Fritz e Petra, e o interessantíssimo assassino Gorgo. Nessa parte Hernandez demonstra destreza em lidar com uma ambientação bastante distinta do início de Diastrofismo Humano.

A sensualidade latina crudelíssima percorre a trama carregando a narrativa de certo naturalismo. É um dos pontos mais interessantes, pois Hernandez também apresenta algum grau de decoro por parte dos personagens, pondo em evidência a complexidade de certos aspectos morais necessários para a convivência humana e, consequentemente, para a ordem social. Em Luba e xerife Chelo tal contraste é evidente, pois ambas têm vida sexual bastante ativa, ao mesmo tempo em que possuem decoro exacerbado. (Chelo decide, por exemplo, que mulheres não podem usar saias muito curtas, mas antes de ter o cargo de xerife, banhava qualquer homem que pudesse pagar em sua casa).

Creio que o leitor se deleitará com a abordagem sutil de temas universais que variam de nascimento à morte, perfídia à reconciliação, da vida na opulência à sobrevivência na miséria. Mas tenho que confessar que esperava um pouco mais de uma atmosfera mágica, assim como pude experimentar em Sopa de Lágrimas. Eu aguardava algo como o absurdo maravilhoso de deuses de pedra que se movem pelo rio, e assombrações sob a árvore da bruxa presentes no primeiro volume. Mas, juro, posso me contentar com uma inexplicável praga de macacos, e um pássaro que arranca olhos para sua coleção particular em um ninho no meio do nada.


Editora Veneta

Tradução: Cris Siqueira

Brochura

24,8 x 19,4 x 2 cm

256 páginas

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