[QUADRINHOS] Deslocamento – Um diário de viagem, de Lucy Knisley (resenha)

Demorei para notar que mais do que uma HQ divertida, para mim, Deslocamento era uma História em quadrinhos extremamente necessária.

Mas, ninguém inicia uma viagem pelo meio. Vamos ao início. 

Deslocamento trata da experiência não exatamente corriqueira da jovem semi-balzaquiana de 27 anos (naquela época), que sai em um cruzeiro de Férias com seus avós.

A ideia parece maravilhosa: passar mais tempo com seus familiares, aprender algo sobre seu passado, estar em um cruzeiro tropical, ver pessoas diferentes, etc.

Parece realmente formidável que alguém possa fazer isso.

Ok, pessoas idosas podem representar alguns contratempos, mas nada demais, certo?
É aqui que começa nossa viagem.

Quando Lucy se torna responsável por seu velho avô veterano de Guerra, e pela sua avó já esquecida de todas as coisas que fora um dia, toda sua percepção sobre a vida começa a ser modificada.

Bem… não exatamente.

Pessoas idosas são, em grande parte, pessoas que já não possuem mais as mesmas forças, as mesmas capacidades físicas, a mesma acuidade mental e a mesma visão.

Assim, claramente, pessoas de idade mais avançada precisam de mais atenção, mais dedicação, mais cuidado.

Para ser mais clara: cuidar de pessoas mais velhas (ou que sofram de qualquer limitação) é um ato de amor. Não tenha dúvidas.

Mas não é nem perto de ser fácil.

Em algum momento você se vê às voltas com remédios para os quais você precisa descobrir a utilidade e os riscos, afinal, você está no comando. A pessoa de quem você está cuidando irá tomar os remédios com atraso se você não estiver atento aos detalhes; Ou irá mesmo deixar de tomá-los.

Existe ainda a hipótese (tipo 90 por cento de chance) de o idoso que está sob seus cuidados acabar teimando com você quanto ao uso deste ou daquele remédio, quanto ao fato de realmente precisar de ajuda (mesmo que tenha dificuldade extrema até mesmo para coisas pequenas). Pode ocorrer de você esquecer um momento de uma ou outra necessidade, e pode ter certeza de que seus velhos protegidos não irão reclamar, pois eles não querem incomodar ninguém. Mas, por não quererem incomodar ninguém, eles podem causar um problema de não te lembrar, por exemplo, que eles precisam tomar água – afinal, se você não lembra a essa altura que até você precisa de água, como lembrará da sede alheia?

Dormir? Esqueça…

Talvez um cochilo ou outro quando tudo estiver mais calmo. Mas, se você cuida de um casal de idosos, dificilmente você encontrará qualquer momento de “calma”.

(E enquanto eu escrevo aqui, minha mãe quase perdeu o horário de UM dos remédios dela).

Deixe-me explicar porque essa HQ foi importante para mim e talvez – apenas talvez – seja importante para você, que está aí de “boas” lendo essa resenha: Quando nasci, meus pais já estavam beirando uma idade mais avançada.

Hoje eu tenho a mesma idade que Lucy tinha quando fez o cruzeiro com o avós.

As dificuldades que Lucy passou ao ver a limitação progressiva dos pais de seu genitor são como as minhas, pois Phillys e Allen têm idade muito mais avançada. Mas eu nem cheguei a ter avós – explicando grosseiramente – em razão da larga experiência de vida de meus pais, medida em rugas acentuadas e dores que só o tempo traz, mesmo quando eu era muito jovem.

Meus pais são velhos. Meu pai sofre de Mal de Parkinson e tem problemas no coração. Minha mãe, por outro lado, carrega a carga de haver fumado compulsivamente, e dormido menos do que qualquer ser humano normal por muitos e muitos anos. Atualmente seus pulmões não valem o que ela gasta no tratamento deles e, claro, a pressão arterial e a locomoção estão comprometidos.

Muitas das situações que Lucy viveu com os avós, eu senti e sinto com meus pais. Em uma escala menor, é claro. Mas entenda: se você têm idosos de 78 e 66 anos dentro de casa, sua vida não é como as vidas de outras pessoas. Seus 27 anos não são aproveitados plenamente – a menos que você realmente ligue o “fuck off way of life” e deixe aqueles que cuidaram de você mofando sem nenhum tipo de ajuda.

Para quem assiste de perto, por outro lado, a saga é complicada. Ir vendo a deterioração das possibilidades de vida e de vivência das pessoas que um dia foram todo seu porto seguro é assustador de muitas formas. Por razões existenciais e emocionais, é uma pancada muito grande.

E é essa a graça toda de Deslocamento.

Bom… graça para nós que não estamos no lugar dela.



Nada como ir para em um cruzeiro de pessoas aposentadas e ter que lutar para garantir cada minuto de tranquilidade graças a seus avós, que já estão bastante experimentados no tempo, e mal se dão conta do que fazem. Prestar atenção em remédios o tempo inteiro, nas roupas limpas de seus avós, no que estão comendo, SE estão comendo, se não estão comendo coisas absurdas (como comida cenográfica, por exemplo)…

Isso tudo sem falar na maneira imbecil com que as outras pessoas lidam com as limitações das pessoas a quem você ama. Talvez essa seja a parte mais irritante e mais desgastante.
É mais complicado do que parece.
É pela sensibilidade de cada quadrinho, retratando com leveza esses problemas tão complicados, tão duros, tão delicados, que Deslocamento é uma HQ necessária.

É através da leitura de Deslocamento que conseguimos encontrar, talvez, alguma reflexão mais profunda sobre essa ideia, por vezes tão avassaladora, que é a inevitabilidade do término das capacidades e da vida com o passar do tempo.

E claro… Tem o Dave. 

Mas prefiro não dar spoiler sobre algo tão PROFUNDO. 

Oo


Editora Nemo

Brochura

23,8 x 16,6 x 1 cm

144 páginas

Disponível nas livrarias:

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