[QUADRINHOS] Desaplanar, de Nick Sousanis (resenha)

Um dia Nick Sousanis acordou disposto a desafiar seus leitores a pensarem além dos conceitos enlatados com que se alimentaram a vida inteira. Desse desejo de refletir sobre os limites de nosso pensamento nasceu Desaplanar.

Claro que estou brincando de imaginar a gênese dessa HQ fascinante e desafiadora, além de simplificá-la ao máximo. Desaplanar não merece uma simplificação, e sim uma leitura atenta, e algumas horas dedicadas ao estudo do que Sousanis tentou nos apresentar com o intuito de nos provocar fome por novos modos de enxergar o mundo e nós mesmos.

Desaplanar foi concebido como um estudo do potencial dos quadrinhos como forma de expandir nossas percepções. Ou, parafraseando Morpheus em Matrix, “abrir nossa mente” para outras formas de percepção da Realidade. Para isto, Sousanis usou boa parte da HQ para fazer apontamentos sobre os limites de nossas percepções, e sobre como o conformismo ajuda a perpetuar uma visão plana e superficial do Universo, que é dividida por grande parte da humanidade.

O que temos nesta obra é uma viagem através de vários conceitos filosóficos e científicos retratados em quadrinhos que, além de tornar sua compreensão mais clara, os enriquece por meio da combinação de texto e imagem. Muitas páginas de Sousanis se assemelham a sofisticados infográficos compostos por artes feitas em diferentes estilos, o que gera a ilusão de colagens em algumas páginas, e promove a interação de informações de fontes distintas num mesmo plano. Mas essa “planura” é mais material, pois, em seu nível conceitual, Desaplanar encadeia profundas reflexões que nos instigam a explorar a obra com atenção redobrada.

Ao mesmo tempo em que exalta o fato de que a ampliação de nossa visão e conhecimentos depende da combinação de dois ou mais pontos de vista, Sousanis aponta para a limitação que as ciências se impuseram ao criar especializações dentro de si mesmas, fragmentações, que muitas vezes não se combinam, expondo, assim, a falha do pensamento analítico cartesiano. Se desmontamos um sistema para entendê-lo, precisamos aprender como remontá-lo, e para isto é necessário compreender a relação de suas peças, o que implica em combinar pontos de vista distintos, diferentes especializações da ciência, pois nem todas as peças são o objeto de estudo de uma mesma ciência.

Em sua essência, o discurso de Sousanis em Desaplanar defende a integração de múltiplos pontos de vista, num sistema holístico capaz de organizar nossas experiências com mais eficácia, e formar novos pensamentos. Também afirma que os quadrinhos são um meio passível de “abarcar os modos desaplanados nos quais o pensamento se desdobra” (página 66), que ele descreve como uma “linguagem anfíbia de justaposições e fragmentos” (página 67), a qual, devido a sua natureza dual, permite retratar a complexidade de nossos pensamentos, de forma a torná-los mais compreensíveis, interativos e capazes de ampliar nossa percepção da Realidade.

O potencial dos quadrinhos como mídia de ampliação da consciência é exemplificado pela própria obra. Sousanis divide com o leitor suas crenças a respeito dos recursos que a nona arte possui, combinando texto e imagem para retratar conceitos que, se expostos de uma forma unicamente textual ou imagética, não seriam assimilados com a mesma clareza e profundidade.

Em suma, Sousanis demonstra quão mais rica pode ser a experiência de desvendar os segredos do Universo se pensamento e percepção, texto e imagem, são combinados de modo a permitir uma conscientização mais dinâmica das relações entre conceitos, ideias e medições. Daí decorre, segundo Sousanis, nossa capacidade de desenvolver uma visão multidimensional, extrapolando a partir de modos diversos de perceber o mundo, desaplanando nossa percepção da Realidade. O que me remeteu a Grant Morrison, quando descreveu em Superdeuses o funcionamento de sua “visão 5D” (mais sobre isto aqui). Em Desaplanar, Sousanis resumiu essa percepção pentadimensional ao definir a imaginação como o “agente de conexão”, a dimensão em que ideias distintas se combinam para formar novas ideias. Percebam aqui a recorrência da ideia de integrar, ligar pontos de vista distintos, com a finalidade de gerar uma nova visão, acessar uma nova dimensão.

Sousanis também alerta para o risco de nos tornarmos prisioneiros de rotinas que “engessam” nossa capacidade de refletir, questionar, e buscar novos pontos de vista, abrindo nossa mente para outros aspectos da Realidade, estimulando nossa imaginação, e expandindo nossa consciência. Muitos fracassam por não saber até onde nossos hábitos são salutares, e quando devemos romper com eles em busca de novas formas de interagir com o mundo, gerando novas visões e ideias.

Desaplanar é uma defesa à manutenção da flexibilidade e plasticidade da mente humana, um estímulo à busca por relações entre sistemas distintos, pois, diferente da visão analítica e cartesiana, à qual muitos ainda se apegam, o Mundo é constituí-lo por ecossistemas que se influenciam mutuamente, um Superorganismo que ainda estamos longe de compreender em sua totalidade. Ignorar isto é impedir-se de enxergar além das ilusórias divisões entre as partes que compõem o Todo. Nossos corpos são um exemplo disto, pois são formados pela combinação de diversos sistemas que conversam entre si. Manter isto em mente é importante para ampliar nossa visão, como aponta Sousanis em vários momentos da obra. Ou a própria natureza metamórfica da Vida trata de nos mostrar que, muitas vezes, uma quebra em nossa rotina é do que precisamos para nos libertar da prisão de mesmice na qual nos acomodamos. Um convite à descoberta de novas possibilidades, de novas dimensões.

Outro ponto salientado por Sousanis é que somos o produto da interação de forças em movimento. Se todos fazemos parte de um Todo, é óbvio que perder isto de vista é limitar nossa visão. É preciso levar em conta essas ligações que temos não somente com nossos pais, mas com todos com quem nos relacionamos. Vida é sinônimo de relações, e novas perspectivas surgem a partir da relação de ideias distintas. Aí reside o princípio da expansão de nossa visão e consciência. O início do despertar para novos horizontes, novas janelas.

Antes de encerrar essa resenha, é preciso elogiar o meticuloso trabalho de tradução feito por Érico Assis, e o letreiramento e diagramação de Lilian Mitsunaga. Ambos encararam de frente o desafio de traduzir para o português todos os textos de Sousanis, incluindo aqueles presentes em páginas de diagramação complexa, nas quais texto e imagem estão numa relação tão íntima que seria impossível separá-los. É um trabalho digno de prêmios, assim como a obra em si.


Desaplanar é o tipo de obra que não foi feita para entreter, mas para provocar. Se você gosta de leituras que te instigam a ir além da obra em si, em busca de novas fontes de informação, este quadrinho é pra você. Basta uma olhada na lista de obras usadas como referência bibliográfica por Sousanis nas páginas finais pra termos uma ideia do quanto podemos nos aprofundar nos conceitos citados por ele. Fica o convite para conhecer esse trabalho brilhante, e dar um upgrade em sua mente.

Editora Veneta

Tradução: Érico Assis

Letras e diagramação: Lilian Mitsunaga

Brochura

27,4 x 20,2 x 1,6 cm

208 páginas

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