[QUADRINHOS] Demolidor: End of Days – O Diabo em Todos Nós

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“O Diabo em Todos Nós” – esta é uma frase que surge na mente de Ben Urich enquanto busca um título apropriado para seu último artigo nos dias finais do Clarim Diário, jornal o qual trabalhara por décadas, cobrindo todo tipo de loucura que Nova Iorque já passou.   O seu artigo, ora, é um obituário do seu melhor amigo o qual nunca foi tão próximo quando este não estava travestido como um demônio. Aquele homem em que ele acompanhara sua ascensão e queda. Urich tenta, sem muito sucesso, escrever sobre o fim de Matt Murdock – mais conhecido como o vigilante Demolidor – assassinado pelas mãos do seu arqui-inimigo Mercenário na frente de dezenas de pessoas que observavam desacreditadas no que presenciavam. A “Cozinha do Inferno” (Hell’s Kitchen, bairro de Manhattan onde Murdock crescera), enfim, perdera seu mais fiel e devotado protetor, o seu diabo da guarda agora está morto.

A questão sobre os demônios interiores é o que assombra todos os que já se envolveram com Murdock, e seu alter-ego, como uma terrível maldição nessa minissérie escrita por Brian Michael Bendis e David Mack, antigos escritores do personagem, que agora se encarregam de mostrar o que aconteceria num mundo sem mais sua presença. Primeiramente, o foco na narrativa está sob Ben Urich e sua pesarosa jornada para desvendar os últimos anos de Matt Murdock, a chave para essa descoberta está na última palavra que pronunciou antes de ser executado: “Mapone”; descoberta através duma filmagem feita por uma das pessoas que estavam no local. Mas esta palavra é apenas o macguffin criado pela dupla, ferramenta narrativa nomeada por Alfred Hitchcock, o elemento em que carrega toda a atenção do público como um fio condutor, mas o que está ao redor dele é o que interessa a história.  Essa história que Ben Urich deverá escrever é sobre a única coisa que uma pessoa pode deixar para toda a eternidade após sua morte: um legado.

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DAREDEVIL IS DEAD

E o legado de Murdock é tão maldito quanto sua própria vida fora. Quem conhece este personagem sabe que passar pela via-crúcis é uma constante em suas histórias, pois, de longe, é o mais trágico e sombrio personagem de sua editora ao lado do Justiceiro. E lógico que sua tormenta não terminaria com seu fim. A cada pessoa que ele conhecera visitada, Urich encontra fragmentos guardados em todas as memórias delas que como peças dum quebra-cabeça, complementam a visão de o “quê” Murdock representou enquanto vivo. Desvelam-se assim todos os seus segredos guardados, onde estão abrigados os temores daquele que carregou a alcunha de “O Homem Sem Medo” escondeu por anos debaixo de sua máscara. Amigo leal, amante fervoroso, esposo problemático, inimigo infernal, destemido vigilante e sábio mentor, muitas facetas que se conectam pela sua sina como Demolidor e que agora se materializa como um fantasma que persegue aqueles que o conheceu, em suas consciências.

O momento em que o jornalista entrevista uma série de transeuntes sobre o que viram no dia que Murdock caiu, encapsula todo o sentimento de abandono do que um dia foi herói, defensor do povo o qual conviveu por tanto tempo, agora é só uma mera lembrança de tempos que se foram. Como celebridades em decadência, a era dos super-heróis parece que chegou ao seu declínio nesse deprimente futuro e não mais fazem parte do dia-a-dia da cidade como antes. Parecem estarem ausentes, o que restou foram as suas identidades que carregavam em diversos anúncios e meios de entretenimento como marcas pertencentes a corporações com seus verdadeiros significados perdidos numa movimentada e reluzente Times Square. Esse é um mundo sombrio e desiludido onde seus guardiões se foram e a população está em crise, talvez se assemelhe com o aquele que tão bem conhecido de Watchmen, mas não há uma paranoia constante sobre o vindouro fim do mundo, na verdade, parece um purgatório onde todos pagam seus pecados enquanto perambulam sem rumo na desoladora metrópole que mais os oprime diariamente.

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Hipocrisia nova-iorquina

A forma como Bendis e Mack desenvolvem a trama é bem próxima dum romance noir, onde Ben Urich cumpre a função de ser o protagonista que nos guia por uma realidade que se desconstrói diante de seus olhos ao longo da história. O texto é carregado de recordatórios com um estilo próximo da narrativa literária, transitando entre primeira e terceira pessoa, que mantém uma boa conversa entre o leitor e a consciência de Urich. Bendis continua construindo diálogos com bastante desenvoltura e naturalidade, a maneira como destrincha cada personagem em suas falas demonstra o resultado da sua experiência em ter escrito o título mensal do personagem por tanto tempo, conhecendo o universo do Demolidor tão bem quanto quem habita nele. A arte rústica e “hachurada” de Klaus Janson, que combinada com o pincel sombreado de Bill Sienkiewicz e a colorização sóbria de Matt Hollingsworth, ganha o tom visual perfeito para a minissérie. E as páginas feitas apenas com pincel pelo próprio David Mack encaixam bem, expondo em suas belas e inventivas composições o que habita nos pensamentos de seus personagens em flashbacks. E Alex Maleev, o velho parceiro de Bendis, é a cereja do bolo, dividindo o trabalho como capista com Mack, seu trabalho em ilustra a morte doutras figuras notáveis da história de vida do Murdock é um show à parte.

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Ben Urich entre os sonhos e esperanças mortos na Times Square

Mais do que um testamento ao Demoldor, a dupla de escritores conseguiram entregar uma sincera carta de despedida ao conseguirem sintetizar tudo que o personagem significa para seus leitores de longa data e à seu próprio mundo particular. Por fim, ainda conseguem manter seu legado vivo por mais algumas eras, através do conveniente ciclo maldito de quem conhecera Murdock está preso, tão inquebrável que até seu maior inimigo enlouquece e suicida-se por perceber a tamanha força de seu símbolo que abriga o espírito imortal do que Murdock foi. E entre idas e vindas, a Cozinha do Inferno permanecerá a mesma, pois num lugar onde as pessoas vivem com uma duvidosa certeza de que seu deus os tem abandonado, apenas lhes restam conviver sob a eterna vigência do diabo que certamente permanece em suas vidas através de seus mais secretos e íntimos pecados, esperando que expurguem-os em seus leitos de morte.

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