[QUADRINHOS] Deep, de Ruis Vargas (resenha)

Ela foi construída com o propósito de satisfazer seu dono. Para isto, deram-lhe a capacidade de aprender. Aprendendo, ela ganhou uma consciência, e desejou ser mais do que uma escrava sexual…

Deep parece uma versão hardcore de uma mistura dos filmes Her (2013) e Ex Machina (2014) e da série em quadrinhos Alex + Ada (2013-2015 – cujos volumes 1 e 2 resenhei aqui e aqui). Ruis Vargas criou um conto perturbador de ficção científica narrado do ponto de vista de uma androide criada para ser escrava sexual. Ela começa entregando-se total e inocentemente à sua função primária, mas logo cede espaço à sua curiosidade, mais pela necessidade de buscar novas formas de agradar seu dono. Para isto, ela conecta sua mente cibernética com a internet – única forma de acessar informações do mundo fora do apartamento onde é mantida encarcerada – onde busca mais conhecimento para ter conversas mais interessantes com aquele que a comprou.

O desenvolvimento da inteligência e do desejo da androide de livrar-se de sua condição de escrava sexual, e ascender ao papel de namorada ou mesmo esposa daquele que a comprou remeteu-me tanto ao filme Her quanto a Ex Machina. Mas em Deep a trama é mais centrada na androide, enquanto seu dono é retratado unidimensionalmente, como um indivíduo que não merece o que ela tem a oferecer. Encarei isto mais como proposital e menos como uma falha do roteiro, pois é uma história de poucas páginas, na qual a limitação do espaço falou mais alto na hora de optar por desenvolver mais um do que ou outro.

Não é nada difícil enxergar em Deep uma crítica severa às atitudes mais extremas do machismo. A androide sem nome sofre vários abusos sexuais, e é impedida de exercer um papel além daquele para o qual foi concebida, ou seja, manter-se sexualmente submissa ao dono de seu corpo. Optando por uma narrativa curta, Vargas carregou no peso emocional e sexual de algumas passagens, a fim de tornar sua mensagem mais impactante. Por isto algumas delas podem ser dolorosas para leitores mais sensíveis.

Dentro da roupagem escolhida, a ficção científica, Deep é um conto de advertência sobre o direito das mulheres exercerem sua feminilidade – pelo fato de ser uma androide com traços femininos, essa leitura é a mais óbvia – mas também sobre sobre o direito que todo ser humano tem de ser livre, expressar sua individualidade, e ir além dos rótulos que a sociedade nos impõe, nem que para isto precisemos nos reinventar.

Ruis Vargas soube cutucar as feridas certas, como o fez em Odor Vazio, e como vem fazendo nas tirinhas do Bobo da Corte (mais sobre estas obras do quadrinista nesta vídeo resenha). Deep penetra no que há de mal na alma humana, em busca da beleza da inocência do primeiro despertar da consciência.


Bacon Flutuante

Capa canoa

16 x 23 cm

32 páginas

Compre aqui