[QUADRINHOS] DC e Marvel Comics: como a sensibilidade indie está invadindo os quadrinhos das duas editoras

Batgirl #35 by Babs Tarr fragment

Os Novos 52 podem ter reiniciado e redefinido os principais super-heróis da DC Comics, mas um grupo de criadores e de títulos futuros estão fazendo algo ainda mais radical: abalando o estilo da DC.

Pin-up da Batgirl por Babs Tarr

Pin-up da Batgirl por Babs Tarr

Recentemente, a DC anunciou a estréia de duas novas Bat-séries: Gotham AcademyArkham Manor, ambas comandadas por uma nova geração de superstars. Na semana retrasada a internet recebeu com louvores a nova equipe criativa do título da Batgirl, que inclui Babs Tarr, artista indie que já trabalhou no passado para a BOOM! e a Hasbro, e que está fazendo agora sua grande estréia no mainstream. Embora façam parte da continuidade, o anúncio destas duas novas séries rompeu com os costumeiros títulos voltados pra jovens adultos. No lugar disto, eles estão oferecendo algo novo para o público adolescente que pode rejeitar títulos que considerem muito infantis. E quer saber? Já estava na hora.

Character design do novo uniforme da Batgirl feito por Cameron Stewart

Character design do novo uniforme da Batgirl feito por Cameron Stewart

Desde o relançamento do Universo DC com os Novos 52, os fãs vinham condenando a estética anos 90, e a presença maior de “histórias sombrias” do que de “tramas heroicas e divertidas.” Porém, com a chega destes títulos, a DC parece estar dando um tempo pro seu estilo atual. É o que estão sugerindo, especialmente com Tarr declarando o quando ela gostaria de trazer um pouco de “paquera, diversão e moda” para o mundo da Batgirl. Sejamos francos, estas são coisas que Barbara Gordon vem precisando desesperadamente. Fora Ed Benes, não dá pra diferenciar qualquer outro artista que trabalhou na série, porque os demais são clones de Benes, visualmente falando – embora capazes, eles não eram muito diferentes de outros artistas da DC. Com a DC botando fé em Tarr, espera-se que a editora esteja pronta para dar a alguns de seus títulos um toque distintivo. Até mesmo o redesign do uniforme parece falar com a audiência contemporânea. Foi como se Cameron StewartBrenden Fletcher tivessem entrado na DC e dito, “Sabe aquele novo som que vocês estavam procurando? Escutem só isto!” Daí entrou Tarr fazendo um solo de guitarra monstruoso, derrubando o microfone, e deixando alguns da DC com os queixos caídos de assombro. Soou como novo e revitalizante a este ponto.

Página de All-New Ghost Rider #2 (desenhos de Tradd Moore)

Página de All-New Ghost Rider #2 (desenhos de Tradd Moore)

Ainda assim, é bem estranho a DC usar talentos tradicionalmente “indie” em seus títulos principais, quando seus artistas digitais já vinham fazendo isto há anos com antologias lançadas primeiro no formato digital, como Legends of the Dark Knight, Adventures of Superman, e a futura Sensational Wonder Woman. Ainda mais interessante é que a Marvel vem dando destaque a este tipo de criadores. Tradd Moore é um bom exemplo disto; ele se destacou com a série Luther Strode da Image Comics há quase quatro anos atrás, depois desenhou uma história de Batman Legends of the Dark Knight escrita por Paul Tobin, e logo foi promovido pra sua primeira série mensal, All-New Ghost Rider, além de desenhar as capas de Vingadores Secretos.

E por falar em Vingadores Secretos, o tom da Marvel atual passou por mudanças significativas. Com títulos como Superior Foes of Spider-Man, Gavião Arqueiro, o próprio Vingadores Secretos, e o recentemente estreado Rocket Raccoon (leia uma resenha da primeira edição aqui), que são brilhantemente escritos, têm uma equipe artística de algo nível, e são aclamados como divertidos e acessíveis, o foco mudou de “manter o interesse de pessoas que leem quadrinhos há 50 anos” para “deixar os criadores criarem,” que em troca expandiram os horizontes dos novos e dos velhos leitores. Isto é o que editoras menores que publicam séries autorais, como a Image Comics, Dark Horse, Valiant, e BOOM! vêm pregando (e praticando) há anos. Até títulos mais “adultos” como Elektra e Viúva Negra são artisticamente impulsionados; quase como se pudessem trazer em suas capas o logo da Image. Este é um passo na direção correta, pois permitir mais criatividade deve tornar as histórias mais variadas e verdadeiramente melhores. Parece haver uma tendência de sensibilidades indie invadindo a Duas Grandes (Marvel e DC), dando a personagens com décadas de idade um novo fôlego, e este que vos escreve [assim como este que vos traduz] dá as boas vindas a estes novos peculiares e visionários senhores [e senhoras].

Gotham Academy #1 (capa de Karl Kerschl)

Gotham Academy #1 (capa de Karl Kerschl)

Voltando a Gotham Academy, um título que provavelmente não sairia na primeira leva dos Novos 52, o que é decepcionante de certa forma. Algo feito com uma audiência jovem em mente sem pensar nela afetou a DC e levou às criticas que diziam que os Novos 52 eram mais do mesmo. Até mesmo títulos como Batgirl, que tinham um elenco jovem e histórias progressistas, não tinham nada que os separasse visualmente dos demais da Bat-família. Do que já foi mostrado, Gotham Academy definitivamente é algo que a DC ainda não tinha em seu repertório, algo em que fãs de Harry Potter ou da nova Ms. Marvel da Marvel Comics podem se interessar, ao contrário de outros títulos da DC. A arte já mostrada é empolgante, apenas por ser diferente e divertida.

Sailor Moon Punk (arte de Babs Tarr)

Sailor Moon Punk (arte de Babs Tarr)

Os títulos que estrearam com os Novos 52 em sua maioria eram histórias sombrias de fantasiados. Três anos depois, parece que a DC está mirando na “geração Tumblr” de leitores de quadrinhos ao contratar artistas como Tarr (cuja versão punk da Sailor Moon tornou-se um fenômeno do cosplay, e agora sua Batgirl já virou tema de inúmeras fan arts e cosplays postados no Facebook, Twitter e Tumblr – veja algumas aqui) que não se parecem em nada com o restante do que a DC está oferecendo agora. Com propostas para jovens adultos sendo recusadas pela DC no passado (um exemplo é Lois Lane, Girl Reporter, de Dean Trippe – leia uma entrevista dele aqui), será que agora eles começarão a aceitar algumas? Seria este o começo de algo novo que revitalizará a DC para uma geração mais jovem? Quadrinhos devem ser divertidos, mas eles também precisam evoluir e a indústria deve preparar-se para novos leitores frequentemente.

(o texto original de Lan Pitts para o Newsarama foi traduzido, adaptado e editado por Rodrigo F.S. Souza)