[QUADRINHOS] “Cumbe” de Marcelo D’Salete (resenha)

Dos inúmeros crimes cometidos durante os mais de três séculos de escravidão no Brasil, a tentativa de destruição da cultura e identidade dos povos africanos foi um dos mais significativos. Apesar da exploração dos seus corpos e da omissão de suas vozes, não se enfraqueceram, e sim se fortaleceram e lutaram.

Em Cumbe, Marcelo D’Salete procura revelar as faces daqueles que resistiram ao sistema escravocrata, mas foram “esquecidos” pela história que nos é contada por aí. O próprio significado do título deixa evidente a intenção do autor. Apesar de significar “quilombo” em alguns países americanos, a palavra representa signos como o sol, o dia, a luz e o fogo. Simbolizando a força dos que lutaram por suas vidas na ânsia de conseguirem reivindicar suas liberdades.

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Através da sua vasta pesquisa histórica, enquanto professor e historiador de arte, D’Salete traz uma gama cultural significativa para compor a obra, procurando não só expressar, como também ressignificar, símbolos e palavras da cultura banta. Partindo a princípio de “Calunga”, no primeiro dos quatro contos da HQ, que refere-se a elementos de grandeza e imensidão, seja o mar, deus ou a própria morte. Sua utilização dentro da história de um escravo desesperado para fugir com sua amada de seu cotidiano opressor ganha um tom de fábula, engrandecendo-a com uma riqueza fascinante.

Com poucos diálogos, a grande força narrativa do quadrinho reside no poder imagético das expressões e ações dos seus personagens. D’Salete compõe longos momentos de silêncio e tensão, antes da brutalidade, enfim, explodir na carne e na alma. O leitor não é poupado na exposição das crueldades cometidas durante esses tempos de horrores, onde a carne era marcada por inúmeras cicatrizes e filhos “bastardos” surgiam, frutos da violência e do abuso.

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E mesmo carregado de tantos atos desumanos de crueldade, ainda há espaço para a abordagem do fantástico através duma espécie de “realismo mágico”, materializando o imaginário místico dos escravos. Todos os elementos pertencentes à nossa realidade tomam forma em algo de natureza surreal, ao refletir as percepções dos personagens sobre eles, como o mar libertador, a criança-estrela e o perturbador monstro da floresta, por exemplo.

Como uma das personagens diz, em determinado momento: “Cumbe é força… ele sempre retorna“, o caráter de luta e perseverança marca a obra, que nas suas páginas finais o autor reserva espaço para uma dança como símbolo do prevalecimento da cultura africana. E há de comentar o quanto a HQ reforça o peso social da história, ao deixar claro o passado que ainda ecoa na nossa realidade contemporânea, assim como um meio de fomentar a discussão sobre a situação do negro no Brasil. Séculos se passaram, mas as cicatrizes ainda permanecem, e a nossa memória é uma forma de resistência.

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cumbe marcelo d salete editora venetaEditora: Veneta

24 x 17,2 x 1,2 cm

176 páginas

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One thought on “[QUADRINHOS] “Cumbe” de Marcelo D’Salete (resenha)

  1. Parabéns pela resenha!
    Apesar de conter poucos balões (o que eu vejo como uma vantagem) o D’Salete consegue transmitir de forma magistral nos seu traços muito da cultura negra presente na época. As situações apresentadas na obra apesar de fictícias, não é difícil imaginar que não raro acontecia com os negros no período do Brasil colonia.

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