[QUADRINHOS] Coração das Trevas: A Bomba Sangrenta de Conrad (resenha)

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Creio que, se a leitura de Coração das Trevas se reduzir à mera questão de imoralidade das instituições econômicas, sociais ou políticas – decerto, desumanidades praticadas pelo imperialismo ocidental no século XIX, – como tende a maioria dos estudos sobre a obra, é provável que se necessite ir para além dos manuais de história convencionais, que se rompam os filtros de abstração crítica e se escancare a alma, não como a um espelho ou um lago, mas como um umbral de portas arrancadas. Depois de ler o último ponto final do livro de Joseph Conrad, afirmo que não há outro caminho senão abandonar os despojos discursivos para, no íntimo, sentir-se a pulsante vitalidade das palavras cortantes e nebulosas imagens. Beber do lodo e sufocar na névoa quente, ser rasgado pelo sol e mordido pela fome, – pois são todas matéria prima fundamental, tanto da obra original quanto da adaptação, a graphic novel publicada pela editora Veneta. Não acredito que haja outra forma.

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É para mim difícil submetê-los à leitura de mera resenha sobre uma hq ressaltando características e impressões pessoais. Apesar de necessário dizer que David Zane Mairowitz (roteirista) e Ludmila Harashimoto (desenhista) fizeram um trabalho precioso, de grandíssima qualidade, que se inicia na ilustração da capa dura, – um sujeito negro de olhar vazio e faminto sobressaindo-se feito borrão de cinzas, – e termina na última página – um sol se destilando em poros negros através do nevoeiro sobre o Tâmisa, – Coração das Trevas ultrapassa os limites de um road movie, escapa dos anseios da arte de denúncia, ou da pretensiosa literatura sobre viagens exóticas, histórias pitorescas acerca de povos bárbaros e suas práticas de sacrifício humano, canibalismo, etc. etc. bastante populares na época.

Foi navegando sobre as águas turvas do Tâmisa que Charlie Marlow me arrebatou pelo curso de seu relato. Com aparência idêntica à famosa foto de Conrad, diga-se de passagem, o protagonista conta que há tempos fora contratado por uma companhia Belga de exploração para comandar um barco a vapor através das entranhas de um território tão antigo que o tempo parecia não se importar em correr outro curso que não fosse através da vitalidade inerte e adormecida do rio.

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Ao longo do percurso da grande cobra, cuja cabeça encontrava-se com o mar, Coração das Trevas atravessou meus olhos e envolveu minha mente em uma bolha cinzenta de vapor. O obscura ar de Anyango, um traço contundente que me lembrou a um esboço em grafite e carvão cru, transmite a impossibilidade de reproduzir-se em linhas deliberadas e nítidas a fisionomia lúgubre da floresta. Você consegue perceber claramente que, através das órbitas cavadas, os pobres diabos acossados pela cobiça, fome e peste, fossem brancos ou negros, não encontrariam ali nada além da loucura. Entre todos os miseráveis, talvez Kurtz fosse exceção. Era um promissor empregado da companhia que decidira abandonar qualquer submissão impingida pelo cargo, para envolver-se intimamente com a selva, e afrontar o horror confidenciado pela mais negra luz advinda “do coração das trevas impenetráveis”.

Conrad, que também fora marítimo e explorara o âmago impiedoso do Congo, não se importa em desvelar, através da voz de Marlow, a experiência de sofrimento de um homem que não se encontra mais alienado diante da condição primitiva e cruel com que a natureza se exprime. Em meio a flechas e lanças, percalços e falhas do barco, a risco de ser devorado a qualquer instante pelos companheiros canibais, perseverou na missão de conduzir o vapor rio acima e trazer o misterioso Kurtz.

Kurtz. E o horror.

Ao fim do caminho. As cabeças dos traidores penduradas na estaca, a obediência irrestrita dos canibais que o veneravam como a um deus, o esvaziamento da consciência ordinária, afastando-o de todas as coordenadas do espírito civilizado, das pretensões de progresso e riqueza temporais, o abandono de si, a permitir-se que floresta, rios e raiva vestissem sua pele, bebessem seu sangue e vertessem a alma, a incendiar discórdia interior entre o imperativo desejo por grandeza e a angustiante voracidade pelo nada, a poesia mais longa e amarga em oposição ao grito mais iracundo e animalesco. Se é por morte e sofrimento trágico, heroico ou sádico que procura nessa história, atesto que seriam um alívio, porque não é isto que irá encontrar por lá.

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Ler Coração das Trevas é como olhar através de uma janela de marfim fossilizado, onde podermos reconhecer trevas esquecidas há eras irrestritas. Acredito que poucas obras tenham alcançado tal magnitude, e a interpretação de Anyango e Mairowitz, uma janela aberta diretamente para o coração de Conrad, provam a inesgotável fonte que ela é. Em minha opinião, assim como é em relação ao filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, a graphic novel não deixou nada a desejar. Estou certo de que voltarei a ela muitas e muitas vezes.

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Enfim.

Há circunstâncias na vida que abalam as mais sólidas convicções e nos desvelam verdades intoleráveis. Confesso que ver Marlow possuindo o rosto de Conrad pela arte de Anyango me fustigou certa lembrança de sob as camadas mais sonâmbulas da consciência. Não sei se você já teve uma arma apontada para a cabeça. Eu lembrei que já tive. Isso pode acontecer com certa frequência no período do alistamento militar, como aconteceu comigo. Não convém agora contar o fato, ele não é importante, o que importa é a mais sugestiva forma de consciência do horror daquele instante. A tinta de trevas a delinear o rosto de Conrad em Marlow me abriram um caminho para aquele instante. Os canos virados para mim. O nervosismo e o cansaço de um ano sem pregar as pálpebras, sem insônia perfurando a noite, a tempestade silenciosa na mente, silenciosa como um raio, os olhos sorrindo e ardendo, a mente espraiando uma sensação além da vida e da morte. O horror. O horror.

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2 thoughts on “[QUADRINHOS] Coração das Trevas: A Bomba Sangrenta de Conrad (resenha)

  1. A resenha está no mesmo nível que o quadrinho , que o filme de Coppola e ousaria dizer que no mesmo nível do maravilhoso livro de Conrad.

    • Concordo contigo, Bruno. Tanto que fizemos uma versão dramatizada do texto do Jonatas em áudio, que será incluída ainda hoje ao post. Fique de olho! 🙂

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