[QUADRINHOS] Como falar com garotas em festas, de Gaiman, Bá e Moon (resenha)

Acaso você seja uma pessoa que costuma se sentir desconfortável em festas que aquele seu amigo descolado (ou nem tanto) cisma em te chamar, vai entender exatamente como se sentia o jovem Enn, protagonista da nova graphic novel de Neil Gaiman, baseada no conto Como falar com garotas em festas. E se, em algumas dessas festas, conheceu alguém surpreendentemente estranho e interessante, quase fora da realidade, que te fez sentir vontade de viver uma noite sem fim, falando sobre assuntos que nunca mais saíram de sua cabeça, essa HQ foi feita para você.

Como falar com garotas em festas é um relato de Enn e passa-se em uma Londres no final dos anos 70. Depois de ceder à pressão de Vic e acompanhá-lo, ele logo se encontrou perdido em uma festa repleta de garotas. Eram muitas, e de todos os tipos que podia imaginar. Pareciam estar na cidade a fim de participar de um intercâmbio. Apesar da falta de jeito com o sexo oposto, Vic insiste que falar com uma garota é a coisa mais fácil do mundo. “É só falar e pronto”, ele insiste. Bebidas, música alta, garotas dançando. Tudo parece normal. Mas como é de praxe nas histórias de Gaiman, a situação começa a ficar estranha assim que conversa com a primeira moça. O assunto não eram coisas comuns, como o lugar onde viviam ou a comida e bebida favoritas. A moça versava tema estranho sobre sua existência imperfeita, deformada, e, de repente, ergue seu dedo contendo uma bifurcação na ponta. Duas unhas em um só dedo, entende? E ela não foi a única conversa estranha, que ia da existência em um corpo mortal ao intercâmbio de outros mundos dos quais Enn não tinha a menor ideia. E tudo ao som de músicas provavelmente nunca mais ouvidas em lugar algum.

Conforme a festa se estendeu pela noite, Enn se sentiu menos retraído, até que encontrou Triolet. Quanto a ela, aqui digo apenas que o rapaz teve uma revelação, aprendeu um segredo, e você terá que ver por si próprio lendo a HQ.

Acho que seria ingenuidade minha afirmar em absoluto do que se tratava a festa, ou quem eram aquelas garotas. Creio pertencerem a graus elevados de existência, que se estendiam para além do tempo e do espaço, sendo divindades, talvez. Talvez alienígenas mesmo. As brechas para interpretações são o ponto alto no texto de Gaiman.

A arte é de autoria dos premiados irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. O roteiro da HQ é bastante similar ao conto. Quanto à ambientação, em geral, achei que se dissociou um pouco da obra original. Tive a sensação de que a atmosfera do conto fosse mais obscura, tanto física quanto psicologicamente, o que não aconteceu com a HQ. Imagino que isso tenha acontecido pelo uso das cores vivas e vibrantes. Não obstante, apreciei muito tal interpretação mais clara. Eu me senti realmente à sombra de um encontro cósmico. Já o traço utilizado para as personagens não achei tão agradável. Apesar de compreender o papel da expressividade divina através dos olhos enormes das moças que Enn encontrou, eu esperava proporções mais realísticas. Fiquei com a leve impressão de estar lendo arte em mangá ou cartoon. Outro ponto que não me agradou muito foi a despeito da idade dos personagens. Tive a sensação de que aparentavam ser bem mais velhos do que no conto. Chutaria entre 17 a vinte e poucos anos.

Aqueles que desejarem ler o conto, ele situa-se na antologia Coisas Frágeis. Recomendo a leitura de todos (esperando que produzam mais adaptações como a de Moon e Bá!).


Quadrinhos na Cia

Brochura

26,8 x 17,4 x 0,2 cm

80 páginas

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