[QUADRINHOS] Combo Rangers – Somos Heróis

Combo-Rangers-Somos-Herois-Capa

Quase dez verões depois os Combo Rangers voltaram para alegria de seus antigos fãs, e a apreciação de uma nova geração de leitores de quadrinhos. Numa mistura de reboot e continuação, o álbum Somos Heróis renova o Yabuverso (o universo ficcional criado por Fábio Yabu) ao mesmo tempo em que trás de volta personagens e elementos clássicos da série em quadrinhos que fez sucesso na internet no início da década passada. Saiba abaixo porque você deveria dar uma chance pra essa nova fase dos pupilos de quatro dedos e olhos de amêndoas do Poderoso Combo.

Antes de começar a falar da obra em si, devo dizer que este texto, mais do que um review, é também um relato sobre a dívida de gratidão que tenho com Fábio Yabu e seus Combo Rangers.

Meu primeiro contato com os Combo Rangers ocorreu em meados de 2001, quando já rolava aquela que pode ser encarada como a 3ª temporada da série, a Fase Revolution. Na época o site disponibilizava um arquivo com todas as histórias em quadrinhos de todas as temporadas anteriores, as quais li em pouquíssimo tempo. Foi amor à primeira vista. Os personagens eram cativantes, as histórias engraçadas, e os desenhos, apesar de MUITO toscos, combinavam perfeitamente com o clima descontraído que Yabu imprimia em cada capítulo, especialmente os da Fase Bolinha (1ª temporada), e em boa parte da Fase Zero (2ª temporada). Depois delas veio a Fase Revolution, que, como o próprio nome sugere, trouxe grandes mudanças para a estrutura da série, a começar pela mais evidente: a qualidade dos desenhos, que estavam mais caprichados e profissionais. Adorei de paixão a primeira, achei a segunda uma evolução muito bem arquitetada da anterior e tão divertida quanto, e curti algumas histórias da terceira, embora não seja a minha preferida (nela Yabu optou por fazer episódios auto-contidos, sacrificando a continuidade e a sensação de amadurecimento e evolução dos personagens, algo que ele só retomou na inacabada saga Colapso, que fecharia a Fase Revolution).

A evolução visual dos Combo Rangers nas fases Bolinha, Zero, Revolution e a atual, batizada de Universe.

A evolução visual dos Combo Rangers nas fases Bolinha, Zero, Revolution e a atual, batizada de Universe.

Mas o que de fato importa aqui é que as histórias e os personagens de Fábio Yabu despertaram-me a vontade de conversar com outras pessoas sobre suas criações, e discutir teorias a respeito dos mistérios que ele plantava em suas tramas, e espalhava por uma bem sacada linha temporal que existia no site dos Combo Rangers na época (nela o autor chegou até mesmo a revelar informações sobre o futuro longínquo dos heróis). Isto fez com que eu começasse a participar do fórum oficial da série, onde conheci muitos amigos, entre eles, pasmem!, o Cilon (sim, eu conheço o maluco há mais de uma década!).

Outro desejo que as histórias de Fábio Yabu despertaram foi o de explorar minhas capacidades como escritor. Na época comecei a elaborar todo um complexo projeto de fanfic que expandiria o Yabuverso, inspirado não apenas em suas criações mas em fanfics de outros amigos meus. O projeto acabou engavetado, e os conceitos que eu havia criado pra ele migraram para um livro de ficção científica e fantasia que um dia pretendo concluir e publicar. Não foi coincidência que meses depois de começar a participar do fórum, e acompanhar as aventuras dos Combo Rangers, eu criei um blog, para o qual escrevi contos e desenhei tirinhas. Esta é a extensão da influência de Yabu e seus heróis, que perdura até hoje em minha vida.

Foi com prazer que, desde então, comecei a acompanhar cada notícia a respeito dos personagens, a receber com alegria cada anúncio sobre uma nova série em quadrinhos impressos, e a comprar cada edição publicada pelas editoras JBC e Panini. E foi com tristeza que recebi o anúncio de cancelamento das duas séries anteriores dos Combo Rangers.

Daí dá pra vocês medirem o grau de empolgação com que recebi, no final do ano passado, a notícia de que finalmente veria aqueles personagens tão queridos de volta à ativa. E foi com muito gosto que dei minha contribuição para o renascer dos Combo Rangers, porque eu devo muito a eles, e amo o que Yabu acendeu em mim através de suas histórias.

Dito tudo isto, se você chegou até aqui é porque consegui atrair sua atenção com o amor e gratidão que sinto por estes jovens heróis multicoloridos e seu criador. Falemos, enfim, de COMBO RANGERS – SOMOS HERÓIS.

combo_rangers_team

Não vou detalhar toda a história por trás do processo que levou à materialização desta nova fase dos Combo Rangers. Ele está muito bem registrado em inúmeros sites sobre quadrinhos e cultura pop. Só gostaria de reforçar quão lindo, significativo e emocionante é ler uma história que nasceu graças ao apoio direto de fãs novos e antigos dos personagens e de seu autor. Assim, o primeiro aspecto que chama atenção em Somos Heróis é o próprio título, que é uma grande homenagem de Yabu a todos aqueles que contribuíram para o retorno de seus personagens.

DAQUI PRA BAIXO O TEXTO CONTÉM ALGUNS SPOILERS DA HISTÓRIA!!

Os indícios de que estamos diante de um Yabuverso rebootado surgem logo no início, quando descobrimos que super-poderes não são mais um privilégio de poucos, mas algo tão difundido entre a população de Cidade Nova quanto os celulares são em nosso mundo, ou seja, praticamente todo mundo tem um. Devido a essa banalização dos super-poderes o mundo não se importa mais com super-heróis, e não encoraja o surgimento deles. Isto até a chegada de Satan Boss e seu Império Domao à Terra.

deck_giluke

Todos os personagens principais são reapresentados para um novo público, a maioria deles preservando suas características originais, embora com aparência mais jovem que suas versões pré-reboot, e trazendo consigo pequenas novidades para a surpresa dos leitores antigos.

Fox, o Combo Ranger Vermelho, continua sendo o líder impulsivo e idealista da equipe, filho de pais pragmáticos que não vêem com bons olhos seu desejo de tornar-se um super-herói; Tati, a Combo Ranger Rosa, ainda é a eterna apaixonada por Fox, dona de uma personalidade explosiva, e órfã de pai e mãe criada pela tia; Kiko, o Combo Ranger Verde, permanece como o “gente boa” da turma, filho de pais divorciados, que procura sempre equilibrar os ânimos de seus colegas de equipe; Lisa, a Combo Ranger Amarelaé a nerd meiga e esforçada, filha de pais pobres; e Ken, o Combo Ranger Azulé o integrante mais sério e centrado da equipe, o segundo em liderança, e a mente estratégica dos Combo Rangers, filho de pais ricos que pouco convivem com ele.

Vale a pena observar como a ligação entre Fox e Ken ficou mais evidente nesta nova versão, como os problemas que ambos têm com seus pais, os quais servem para fortalecer a amizade e o respeito entre eles. Também é muito bem usada a idéia de equilibrar as personalidades dos Combo Rangers. Por exemplo, assim como as personalidades de Ken e Fox se complementam, o mesmo ocorre entre Lisa e Tati, com Kiko servindo de moderador de todo o grupo quando os ânimos se esquentam.

Outra ótima idéia é a dos uniformes e poderes refletirem a personalidade deles, dando prosseguimento à evolução do visual dos Combo Rangers ao longo dos anos: na Fase Bolinha eles usavam capacetes que não expunham nada de suas identidades, já da metade da Fase Zero pra frente eles passaram a vestir uniformes que mantinham parte de seus rostos descobertos, e agora usam trajes que preservam algumas peças de suas roupas civis.

O Poderoso Combo é outro personagem que felizmente não mudou muito. Ele continua divertido, idealista e antiquado, e mais “na pindaíba” do que jamais esteve, algo que é reforçado pelos ótimos desenhos de Michel Borges, que retrata em detalhes toda a miséria do Retiro dos Heróis, onde ele mora com outros dois heróis “das antigas”, o Pacificador e o Homem-Reflexo (constituindo mais um sinal de quão desvalorizados são os heróis neste novo Yabuverso).

Um típico "Momento Poderoso Combo"

Um típico “Momento Poderoso Combo”

Uma das maiores novidades do reboot é a reinterpretação do General Monteque não é mais o alien vilão da Fase Bolinha, e sim o diretor humano da escola que os personagens frequentam. É através dele que surge outra ótima sacada de Yabu: numa escola onde a maioria dos alunos tem super-poderes, o diretor deve agir como um militar, com direito a uma tropa de elite pra dar-lhe suporte quando é obrigado a interromper brigas entre crianças superpoderosas que podem destruir a escola a qualquer momento. E também é ótima a ironia de que Fox e seus amigos fazem parte dos poucos alunos que não têm super-poderes, ao contrário de seus colegas de escola, e, no caso de Fox e Ken, de seus pais.

Ao mesmo tempo que traz personagens de fases anteriores, como o vilão Deck, e faz menções a elementos das fases clássicas, como a idéia descartada de capacetes para o uniforme dos Combo Rangers, Yabu também os mistura com personagens e idéias das últimas histórias publicadas pela Panini, como a presença de Sara Moon, que havia se tornado a Combo Ranger Rosa após a saída de Tati da equipe, e que aqui, numa brincadeira do autor, têm seu lugar na equipe roubado por Tati; e a capa usada por Fox, que referencia sua fase como usuário da Estrela Defensora; fora o fato de Ken ter o Pacificador como seu treinador, outra idéia que só foi introduzida nas histórias que saíram pela Panini. Enfim, há muitas referências óbvias e sutis ao Yabuverso pré-reboot, e faz parte da diversão do fã antigo encontrá-las durante a leitura.

Ken mostrando o que aprendeu com o Pacificador.

Ken mostrando o que aprendeu com o Pacificador.

E como toda boa história dos Combo Rangers, também não faltam as referências e homenagens a animes, quadrinhos de super-heróis, e séries de super sentai, que vão desde a convocação estilo Lanternas Verdes dos Combo Rangers; passando por um vilão que é uma fusão de dois vilões dos Changeman (série que também é homenageada na abertura da história e num dos momentos mais – na falta de uma definição melhor – FODAS! da HQ); e a primeira onda de invasão do Império Domao, que lembra a invasão alienígena do filme d’Os Vingadores. E fiquem atentos pra outras homenagens a Cavaleiros dos Zodíaco, aos donos do site Jovem Nerd, uma aparição muito bem bolada dos Tijolinhos Mágicos (!), entre muitos outros easter-eggs, incluindo uma tal “Rede Machete” (sem o “n” mesmo) pra alegria dos saudosistas, e uma aparição relâmpago de Marty McFly!!! (tem como não amar uma história dessas?)

Mas não é só de celebrações ao passado que a história se sustenta. Há espaço para ótimas e divertidas interações entre os personagens, como as discussões constantes entre o Poderoso Combo e o Pacificador, ambos representando duas gerações arquetípicas de super-heróis (o primeiro, os super-heróis idealistas da Era de Ouro dos quadrinhos; o segundo, os anti-heróis violentos da década de 1980 e 1990); momentos dramáticos e emotivos (gosto particularmente da conversa entre o Tio Combo e Fox, e a discussão entre o Combo Ranger Vermelho e seu pai); cenas de ação muito bem desenhadas por Michel Borges; e um bocado de mistério pra prender a atenção dos leitores, e deixá-los loucos pra sair logo o volume 2.

ATENÇÃO! Os dois parágrafos seguintes são especialmente voltados pra quem acompanhou as histórias anteriores a Combo Rangers – Somos Heróis.

Já que mencionei o futuro desta nova fase, especulemos sobre o que ele pode nos reservar. Neste primeiro volume vemos Giluke, que é claramente a nova versão de Luke, o ex-Combo Ranger Branco, tendo flashbacks de histórias das temporadas anteriores, embora ninguém as mencione diretamente em Somos Heróis, pois estamos num Yabuverso em que nada do que veio antes realmente aconteceu (ou pelo menos é isto que a história indica numa primeira leitura). Daí eu pergunto: será que o personagem servirá de ponte entre a cronologia pré e pós-reboot? Podemos esperar para os próximos volumes o despertar de alguns personagens para o fato de que vivem num universo rebootado? (algo que também foi sugerido na história Não Tá Fácil pra Ninguém, que se passa antes de Somos Heróis, e pode ser lida aqui)

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Também vale mencionar a possibilidade de Satan Boss revelar-se como Cardman, ou como alguém que possui uma ligação com o vilão da Fase Revolution (pode ser uma figura acima dele), algo que é sugerido pela presença de Deck, capanga de Cardman naquela temporada. O reboot pode até mesmo ser um efeito de um plano parecido com o usado por Cardman no arco Um Sonho de Dez Verões, em que os Combo Rangers se viram vivendo numa realidade alternativa onde seus maiores sonhos se realizaram, mas às custas da capacidade humana de sonhar. Ou, mais surpreendente ainda, Satan Boss pode ser o Spectroseven!! (reparem na “barbatana” no topo do capuz do vilão, e comparem com o capacete do herói do planeta Yabusei)

Especulações à parte, Combo Rangers – Somos Heróis é uma síntese de todas as principais referências usadas por Yabu durante os anos em que se dedicou à saga de seus jovens heróis, desde as “longínquas” e clássicas histórias de 1998 até hoje. Há um pouco de tudo que ele ama nos quadrinhos, cinema e séries de TV. A história resgata o humor da Fase Bolinha, o drama, ação e suspense da Fase Zero, e o capricho visual da Fase Revolution. É uma declaração de amor à sua criação mais querida e aos fãs que reacenderam a chama, e os trouxeram de volta do limbo (e é por isto que é tão lindo e significativo o clímax que usa o já batido “momento Genki Dama” para simbolizar o renascer dos Combo Rangers através da energia reunida por aqueles que acreditaram que os heróis mereciam uma nova chance de iluminar o mundo com sua presença). Não é uma história genial, nem traz idéias revolucionárias para a nona arte, mas sim uma singela lufada de esperança e otimismo num meio tão marcado por mundos “fantásticos” a cada dia mais vitimados pela invasão do realismo e cinismo do mundo real. É revigorante ler uma história cheia de cores, humor, e mensagens positivas, em que crianças se dispõem a fazer do mundo um lugar melhor. Que elas sirvam de inspiração a pelo menos uma parcela de seus leitores mais jovens, como serviu para mim, que os conheceu já adulto (por fora, pois por dentro eu me divertia como um moleque lendo suas aventuras 12 anos atrás). AVANTE, COMBO RANGERS! \O/

9 thoughts on “[QUADRINHOS] Combo Rangers – Somos Heróis

    • Pô, que honra receber um comentário seu, Michel! 🙂

      Pode ficar tranquilo que já acrescentei uma nota sobre os spoilers no texto.

      E sobre o Marty, aquela combinação de “colete salva-vidas” com camisa xadrez é inconfundível, especialmente pra quem já perdeu a conta de quantas vezes assistiu De Volta Para o Futuro, que é minha trilogia preferida.

      Parabéns pelo trabalho! Curti muito!

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