[QUADRINHOS] Coltrane, de Paolo Parisi (resenha)

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Em seus 40 anos de vida, John Coltrane gravou seu nome na história do jazz e da música americana e mundial, graças a uma carreira de intensa criatividade que durou pouco mais de 20 anos. Em 2008, Paolo Parisi incumbiu-se da tarefa de contar sua história numa graphic novel, publicada este mês no Brasil pela editora Veneta.

Antes de começar minha análise da obra, devo dizer que não conhecia John Coltrane, e que meu conhecimento sobre a história da música e do jazz é mínimo. Isto posto, posso afirmar que nada disto me impediu de apreciar a HQ, pelos motivos que vou expôr a seguir.

As 3 primeiras páginas de Coltrane foram o suficiente pra despertar meu interesse pelo restante do álbum. Elas funcionam como a abertura de um “concerto”, cujas reflexões, que acompanham as imagens de músicos da banda de Coltrene, veneram a natureza divina do Som e sua manifestação mais sublime, a Música, traçando um paralelo entre ela e a religião. Este aspecto religioso da música é retomado, direta ou sutilmente, ao longo da história.

Conforme a orelha da HQ adianta, ela inteira foi dividida em 4 capítulos, nomeados com os títulos das 4 músicas que compõem o álbum mais conhecido de Coltrane: A Love Supreme. Respeitarei essa divisão, e falarei sobre cada uma delas:

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Acknowledgment” oferece ao leitor uma visão geral e “desconexa” da vida do biografado. É quase como se lêssemos os “pensamentos musicais desconexos” de Coltrane a respeito de sua própria vida, sem respeitarem uma ordem cronológica. Essa escolha de Parisi acaba estimulando o leitor a participar da “reconstrução” da vida de Coltrane, seja acompanhando um trecho do início de sua carreira; uma entrevista quando já era famoso; ou passagens de sua infância pobre nos campos de algodão da Carolina do Norte. A maneira como Parisi intercalou diálogos, trechos “musicais” e passagens “silenciosas”, criou um “ritmo” ondulante que impediu a história de tornar-se monótona, comprovando o acerto na escolha da não-linearidade do capítulo inicial.

O traço de Parisi é bem econômico, mas muito eficaz na evocação de sentimentos, sons e feições. Sua diagramação não é inventiva, mas o quadrinista tem o dom de dizer e transmitir uma gama de sentimentos e sensações com poucas palavras e uma arte sucinta e quase minimalista.

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Resolution” utiliza a linearidade para acompanhar a ascensão da carreira e da fama de Coltrane, paralela à sua luta contra o vício em heroína (que é sutilmente apontada como um estimulante que ele adotou pra dar conta dos desafios criativos que se impunha). O passeio que faz pelos bastidores do jazz norte-americano, e pela vida íntima de Coltrane, me remeteu aos filmes mais antigos de Martin Scorsese, nos quais buscava capturar a essência da vida dos guetos italianos de Nova York.

Pursuance” fala do amadurecimento de Coltrane, que procurou ajustar mais o “foco” de seu talento, afinando-o com o intuito de gerar algum impacto positivo no mundo através de sua música, ou do que ganhou através dela. É também quando decide realizar sacrifícios, tentar novas parcerias, desafiar-se a fim de reinventar-se. E como todo processo de maturação, ele envolve transformações e dores.

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Psalm” fecha o álbum não somente cobrindo os últimos anos da vida de Coltrane, mas retomando “temas” já “tocados” em “Acknowledgment”, como em álbuns onde a última música remete à primeira, fechando um ciclo.

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É significativa a passagem na qual Coltrane exalta seu amor a Deus e à música, igualando-os, ao ler sua poesia num concerto que fez pouco mais de um ano antes de sua morte. É como se, já pressentindo sua partida, ele fizesse questão de agradecer à Fonte de seu talento musical. Neste sentido, Parisi fez um belo trabalho não apenas arquitetando a graphic novel com base na estrutura de A Love Supreme, mas permeando-o com essa “religiosidade artística” de Coltrane, ao abrir e fechar a história com cenas que remetem ao início da carreira do músico, cujo dom de criar sua própria música ele atribuía à origem de todas as coisas: O Som.


nota-5


coltrane paolo parisi veneta capaVeneta

Capa comum

23,6 x 16,2 x 1,4 cm

128 páginas

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