[QUADRINHOS] “Ciranda da Solidão” de Mário Cesar (áudio resenha)

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Não vou mentir aqui. Ciranda da Solidão me fisgou com a beleza poética da capa e do título. Quando procurei saber sobre os temas de que tratava em seus 5 contos, fiquei mais interessado ainda em conhecer a obra de Mário César publicada pela Balão Editorial. Felizmente não me arrependi.

Como a HQ é dividida em 5 histórias fechadas, vou comentá-las separadamente, sem dar spoilers, nem entrar em detalhes:

ciranda-da-solidao-mario-cesar-balao-editorial-resenha-01No primeiro conto, “O Clube das Pessoas Normais“, Mário César criou um bem elaborado paralelo entre as mudanças físicas e comportamentais decorrentes da chegada da puberdade, e o mito do lobisomem. Mário explorou, em poucas páginas, a autopiedade de um rapaz que ainda tem que lidar com o afloramento de sua inclinação sexual. Tudo isto em combinação com um ambiente permeado de referências pop culturais dos anos 90, que longe de soarem gratuitas, integram-se organicamente na trama, por serem parte da realidade do protagonista.

ciranda-da-solidao-mario-cesar-balao-editorial-resenha-03Já em “Ciranda da Solidão,” que nomeia o álbum, o autor engendrou uma cadeia de relacionamentos amorosos cujo denominador comum são os desentendimentos que levam a rompimentos que conduzem a novas relações, num fluir de uma para outra que metaforiza o título da obra. Explorando ao máximo a narrativa gráfica, Mário construiu um conto de aspecto “mosaico” que brinca com as conexões e os graus de separação entre um indivíduo e outro.

O autobiográfico “A Primeira Vista” é uma excelente e bem narrada reflexão sobre as sincronicidades que ocorrem antes de alguns amantes se conhecerem. Fãs do filme Magnólia ou da série Lost apreciarão a brincadeira.

ciranda-da-solidao-mario-cesar-balao-editorial-resenha-02Esperando a Cera Secar” é mais movido pelo drama em si, do que por algum artifício narrativo do quadrinista, o que combinou muito bem com a história sobre o fim de um relacionamento, que pedia uma abordagem mais direta e intimista. Mas devo elogiar a sensibilidade com que Mário retratou breves intimidades e singelezas cotidianas, com destaque para a sequência de abertura, que literalmente contrapõe o despertar de ambos os lados do casal.

A Escrita no Muro” é quase uma síntese de tudo que o restante do álbum abordou. É a vida sob a óptica de quem encontra-se próximo de seu fim. Gostei muito de como ele conversa sutilmente com as histórias anteriores, e está num ponto diametralmente oposto ao de “Clube das Pessoas Normais“, agindo como o fechamento da “ciranda de contos” iniciada por ele.

Ciranda da Solidão é um álbum bem estruturado, composto de histórias narradas com precisão técnica, mas, acima de tudo, com humanidade e sentimentos, conceitos que transcendem outros, como identidade de gênero. Creio que esta é a maior lição que o álbum passa adiante. Tanto que não senti necessidade de citar tais temas nesta resenha, pois julgo que isto iria contra a ideia da obra, que buscou, com muita sensibilidade, levar o leitor a refletir sobre o significado do amor, e suas ocorrências na vida humana, que independem dos sexos dos amantes. Torço para que outros leitores levem consigo esta mesma visão, pois vivemos num mundo cuja aceitação do diferente é um caso de urgência. Nosso futuro depende disto.


nota-4


ciranda-da-solidao-mario-cesar-balao-editorial-capaCiranda da Solidão
Mário César

16 x 23 cm
96 páginas
2 cores

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