[QUADRINHOS] Capitão Feio – Identidade, de Magno Costa e Marcelo Costa (resenha)

Vivendo totalmente à margem da sociedade, um homem que não sabe quem foi tenta sobreviver um dia de cada vez, enquanto aprende a usar seus poderes de origem desconhecida: controle sobre o lixo e tudo que foi descartado pela sociedade consumista em que vive.

Apelidado de Feio, após uma série de incidentes que causou enquanto usava seus poderes sem total controle sobre eles num centro urbano movimentado, ele perdeu o anonimato que vinha mantendo enquanto vivia na aparente paz de seu isolamento, nos esgotos da cidade.

Esse desejo de solidão do Feio me remeteu às histórias clássicas do Hulk, nas quais o Gigante Esmeralda comportava-se como um ser irracional que só queria ser deixado em paz, vivendo isolado dos grandes centros urbanos.

Outra referência bem evidente na abordagem dos irmãos Magno e Marcelo Costa é a evolução dos poderes telecinéticos do Feio, que lembra bastante a progressão dos poderes do Tetsuo em Akira. Isto culmina num confronto de grandes proporções (literalmente), no qual Feio tem que superar seus limites para solucionar a crise que ele próprio causou.

Não dá pra defini-lo como um vilão completo nesta reformulação do personagem pelos irmãos Costa. Feio é um homem perdido no mundo, tentando dar um rumo pra sua vida enquanto busca entender o que houve consigo mesmo, e como pode usar a seu favor o efeito das mudanças pelas quais passou. Nem sempre as respostas que encontra são positivas, e muitas cobram preços bem amargos e revoltantes.

A trama segue uma progressão de eventos em que Feio se complica mais perante a sociedade, que passa a marginalizá-lo ainda mais, mesmo após sua tentativa de ajudar alguns indivíduos, ainda que de maneira canhestra. 

Clique aqui se não ligar pra um spoiler leve da história.

Identidade atinge seu ápice no confronto final do protagonista com as autoridades e a população, já temerosa dos efeitos de sua atuação como uma espécie de Superman às avessas. Nele há um misto de busca por redenção e por alguma catarse para a revolta que Feio sente de sua condição social e mental.

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Capitão Feio – Identidade é sobre a busca por um propósito maior, mesmo que ele não seja muito claro no início, nem muito desejável por aquele que passa a persegui-lo quase sem realmente querer. Feio age mais por impulso, por revolta e pelo desejo de ter algum controle sobre sua vida, do que pela vontade de realizar algo grandioso. Parte disto podemos atribuir ao seu problema de memória, que parece envolta numa camada tão densa de poeira e lixo mental quanto ele próprio quando usa seus poderes para impulsionar seus voos, se defender e atacar.

ATENÇÃO: o texto após a imagem tem alguns spoilers do final da HQ.

O clímax também pode ser encarado como um “auto-exorcismo”, no qual Feio deve enfrentar as consequências do uso descontrolado de seus poderes. Sem dar muitos spoilers, a ameaça que ele combate pode ser vista como uma expressão física do que há de pior em sua mente cheia de sentimentos e desejos conflitantes. Isto o torna um personagem complexo e ambíguo, mesmo numa história que não busca aprofundar-se em sua psique. O texto de Magno é bem econômico, deixando muito espaço pra arte do Marcelo contar a história sem muitas interferências.

O inimigo final também não deixa de ser uma crítica ao desleixo com que lidamos com o subproduto de tudo que consumimos. As montanhas de lixo que acumulamos em aterros fora da zona urbana não seriam uma forma de “marginalização” dos produtos, sejam eles de qual categoria for, que nos serviram no passado? Sob esse prisma, o Feio seria a personificação desse problema social e sanitário. Embora não seja um ponto explorado na trama, seu controle sobre o lixo parece ter alguma ligação simbiótica com o chorume, fazendo dele uma espécie de arauto dessa “entidade” amorfa coletivamente formada pela somatória de rejeitos materiais.

Cientes da natureza ambígua do poder do Feio sobre o lixo, os Costa souberam expôr tanto seu lado destrutivo como o construtivo. Não é à toa que a história começa com Feio tentando dar vida a uma espécie de “golem” formado por lixo, mostrando, à sua maneira, o potencial criativo por trás do que a maioria julga como inútil, descartável e indesejável. No final vemos o lado oposto desse poder provocar destruição, poluição e espalhar possíveis focos de doenças pelo centro urbano. Mas isto não significa que tal quadro é irreversível, e que parte desses dejetos não possam encontrar outra utilidade assumindo novas formas, através da reciclagem.

À sua maneira, o Feio, que só no final adota a “patente” de capitão, ensina uma lição àqueles que tentaram varrê-lo das ruas como um monte de sujeira. O que Feio realiza é uma violenta lição de conscientização. Claro que nem todos são capazes de interpretá-la assim, pois uma das falhas morais da natureza humana é o seu apego a preconceitos profundamente enraizados. Mas a lição é dada, e cabe a cada um fazer bom uso dela (ou ignorá-la).

Além dessas possibilidades de interpretação, Capitão Feio – Identidade também merece atenção por sua ousadia de dar um novo passo rumo à integração, num só universo, das outras Graphic MSP que a antecederam. As presenças de alguns personagens que já protagonizaram as graphic novels anteriores, cada um com o visual que ganhou em suas respectivas releituras, funcionam como teasers que brincam com a possibilidade de ocorrer, no futuro, algum grande crossover que unirá alguns deles em torno de um evento. Vale lembrar que essa hipótese de todas as Graphic MSPs se passarem num mesmo universo já foi sugerida em Louco – Fuga, durante as viagens metalinguísticas do personagem título, nas quais ele se encontrou com a Turma da Mônica, e também teve vislumbres de outros personagens do universo de Mauricio de Sousa, que já protagonizaram outras Graphic MSP. Aqui isto ocorre de forma mais concreta, sendo o ponto mais relevante a cena final, em que vemos um personagem que já apareceu em duas graphic MSPs com a mesma aparência que teve em ambas.

E como uma boa história protagonizada por um ser com super-poderes, esta termina com um gancho para uma possível sequência. Levando em conta que o Capitão Feio é um dos vilões mais conhecidos do Mauricio de Sousa, e que esta HQ o estabeleceu como uma ameaça bem poderosa, não é nada difícil que vejamos um evento maior centrado nele, com a participação de outros personagens do Mauricio se unindo para enfrentá-lo no melhor estilo Os Vingadores. Fica a dica, Sidão! (se já não estiver planejando algo assim pros próximos anos)

Enquanto isto não se confirma, vale apreciar esse primeiro capítulo, bem escrito e belamente ilustrado, cheio de cenas impactantes de ação, cores atmosféricas usadas com um capricho poucas vezes visto, e um acabamento de primeira, que ironicamente contrasta com a miséria e sujeira impressas em boa parte das páginas. Apesar de ser uma história do Capitão Feio, o que temos aqui é mais uma bela obra dos quadrinhos nacionais.


Panini Comics e Mauricio de Sousa Editora

Nas versões capa dura e cartonada

28,2 x 19,6 x 1,2 cm

100 páginas

Onde comprar:

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