[QUADRINHOS] Capitão América – O Soldado Invernal: a história em quadrinhos que inspirou o novo filme do herói da Marvel

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No início de 2005, como consequência da trágica saga Vingadores – A Queda, os Vingadores se desfizeram, obrigando o Capitão América a atuar sozinho e lidar com o impacto emocional causado pela morte de três de seus companheiros de equipe (Visão, Gavião Arqueiro e Homem-Formiga), a loucura que acometeu a Feiticeira Escarlate, e o desaparecimento de Thor. Aproveitando-se deste ponto de virada na vida do personagem, a Marvel resolveu reiniciar a série solo do personagem, e entregá-la para a dupla formada pelo escritor Ed Brubaker, recém saído da DC Comics, e o desenhista Steve Epting. Nas mãos deles teve início uma das fases mais elogiadas e aclamadas do personagem.

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Os prêmios que Brubaker ganhou por seu trabalho com o Capitão América não foram injustificados. Tanto seus roteiros quanto os desenhos de Epting inclinavam-se mais para o realismo fantástico, dando às histórias um aspecto cinematográfico. O escritor tirou o máximo de proveito do ponto de partida que ganhou, mudando, logo no início, a abordagem do personagem, ao ligar o comportamento mais violento e extremo do Capitão América ao fim dos Vingadores. Desta forma ele expôs as imperfeições e vulnerabilidades do herói, a fim de torná-lo mais humano, e mais próximo do leitor.

O longo arco Soldado Invernal – que durou da edição 1 até a 14 do 5º volume da série do herói – foi daqueles que confrontaram o Capitão América com a complexa politicagem dos dias atuais, na qual muitas vezes inimigos de seu país forjam alianças intermediadas por representantes de sua própria nação, impedindo-o de agir por interpretarem suas ações como contrárias aos interesses de sua pátria-mãe. Isto deu ao autor margem para retrabalhar o modo de atuação do Capitão, que em sua fase tornou-se um correspondente super-heroico do Jack Bauer, combatendo especialmente ameaças terroristas.

A operação da S.H.I.E.L.D. na sede da Kronas, na edição 9, com participação de Nick Fury e Sharon Carter, é um ótimo exemplo de como escrever histórias do Capitão América sem que elas sejam super-heroicas. Lembra, em seu retrato do mundo da espionagem, a Trilogia Bourne, na maneira crua como o roteiro procura tornar tudo muito verossímil a partir do modo como a operação é conduzida e coordenada por Fury.

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Além da mudança de abordagem, outro ponto que se destacou no trabalho de Brubaker foi a reformulação que ele fez da fase do Capitão América na 2ª Guerra Mundial. A reconstituição das lembranças que o herói tem do conflito é mais crua, contrastando com o maniqueísmo das primeiras histórias do Capitão nos quadrinhos na década de 1940. Brubaker fez uma integração exemplar entre a participação ficcional do herói no conflito e episódios reais da 2ª Guerra, que servem como uma rápida aula de história (que é complementada com as informativas notas do editor). E os flashbacks desenhados por Michael Lark, coloridos por Frank D’Armata num estilo que simula os tons de cinza de um filme em preto e branco, são compostos de forma a remeterem a documentários da época. Tais mudanças culminam mais adiante na elaborada origem do Soldado Invernal, que reutiliza elementos introduzidos gradativamente por Brubaker nas primeiras edições.

E o autor não se restringe apenas em mexer no período em que Steve Rogers atuou na 2ª Guerra Mundial. Brubaker também procurou amarrar pontas soltas da cronologia do Capitão América, explicando a presença do herói em histórias publicadas pela Marvel no período entre o fim da 2ª Guerra Mundial e o despertar de Rogers nos dias atuais na clássica Avengers #4, já na Era de Prata. Com isto o autor demonstrou um grande respeito pela importância de um período obscuro do personagem, e uma elogiável intenção de não descartar personagens e ideias que poderiam ser facilmente ignorados por “não se encaixarem”. É uma abordagem inteligente, que leva em conta toda a importância simbólica do Capitão América dentro do Universo Marvel, e remete à longa fase de Grant Morrison como escritor do Batman (mais sobre ela aqui).

Essa disposição de Brubaker em tirar proveito de cada elemento da extensa mitologia do Capitão América culmina na ótima “A Solitária Morte de Jack Monroe.” Nela o autor se dá ao luxo de interromper a trama principal – que vinha desenvolvendo nas 6 primeiras edições – para dar atenção a um personagem que poderia ser relegado ao esquecimento sem grandes prejuízos. Além disto, a história oferece uma pista sobre a identidade do assassino de Monroe, que se revelará o principal vilão deste longo arco.

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Mas a principal e mais significativa contribuição de Brubaker para a mitologia do Capitão América foi mesmo a criação do Soldado Invernal. Começa com um longo flashback de uma missão do Capitão América na Rússia durante a 2ª Guerra, no qual o autor reformula Bucky, que de parceiro mirim do herói revela-se um especialista em ataques furtivos e avançadas técnicas de combate armado e corporal. Novamente o que chama atenção neste seguimento da 5ª edição é o visual mais realista dos cenários e dos combates, que remetem à minissérie Band of Brothers.

Além de equiparar as habilidades de luta de Buck às de Steve Rogers, Brubaker também diminuiu a diferença de idade entre eles, estabelecendo que Bucky tinha 16 anos quando conheceu Rogers, então com 20 anos. Além disto, o autor tornou mais plausível a escolha dele como parceiro do Capitão, tornando-a uma estratégia dos militares estadunidenses para atrair jovens para o alistamento.

Foi a partir destes breves flashbacks – com participações cada vez mais importantes de Bucky – que Brubaker foi liberando pistas sobre a verdadeira identidade do Soldado Invernal. E a ideia por trás da origem do personagem é ao mesmo tempo simples, elegante e genial: um agente altamente treinado que passa anos em animação suspensa, e só é acordado para cumprir missões de elevada importância política e militar. Isto faz com que ele apareça apenas nas datas dos assassinatos que realizou, dificultando qualquer tentativa de ligá-los entre si no presente, algo que só tornou-se possível com as tecnologias atuais de reconhecimento facial e análise massiva de dados, que não existiam na maioria dos anos em que o Soldado Invernal atuou. Só este conceito por si mesmo rende uma baita premissa para um filme de ação e espionagem de primeira linha, que é o que os críticos já vem comentando a respeito de Capitão América 2.

Não satisfeito em elaborar um ótimo conceito para estruturar a transformação de Bucky no Soldado Invernal, Brubaker ainda testou sua própria versatilidade como roteirista na edição 11. Nela toda a história foi contada sob a forma de relatórios médicos e militares, que revelam em detalhes os experimentos que os russos realizaram para converter Bucky numa arma humana sob seu controle. A história é uma aula de como ressuscitar um personagem morto há décadas sem tornar as circunstâncias de sua ressurreição forçadas. E vale a pena notar o excelente trabalho de colorização de D’Armata nesta história, que remete à fotografia de filmes da década de 1970, a qual combina muito bem com histórias de espionagem.

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A partir da revelação de que o Soldado Invernal é Bucky, o que já vinha sendo um ótimo thriller de ação em quadrinhos, converte-se num embate do Capitão América contra os tormentos de novas lembranças da 2ª Guerra que vêm à tona estimuladas pela proximidade de novo inimigo, e numa batalha física com forte impacto psicológico contra um antigo aliado que tornou-se um terrorista e inimigo de seu país.

Outro aspecto da narrativa de Brubaker que merece elogios são seus diálogos, que soam muito naturais e condizentes com os personagens e situações retratadas. E Steve Epting, apesar de usar uma diagramação bem convencional em suas páginas, seguindo a tendência de quadrinhos widescreen, destaca-se pelo ótimo uso que faz de luz e sombras, e pelos cenários e anatomia realistas que desenha, os quais, somados às cores de D’Armata, dão à história um aspecto e ritmo de filme de ação.

O Soldado Invernal é um dos arcos mais importantes da história do Capitão América nos quadrinhos. Depois dele Bucky popularizou-se entre os leitores, chegando a assumir o papel do Capitão América quando Steve Rogers foi morto logo após a saga Guerra Civil (falei um pouco sobre ela aqui); ganhou uma série solo escrita por Brubaker; e atualmente estrela a minissérie Winter Soldier – The Bitter March, escrita por Rick Remender. Tudo isto torna o arco em que o personagem foi introduzido uma leitura obrigatória para os fãs do personagem, ou para quem simplesmente aprecia histórias de ação inteligentes e bem contadas. E, claro, é uma ótima pedida pra quem acabou de assistir Capitão América 2 nos cinemas, e está afim de conhecer a obra que serviu de inspiração para o filme.

Observação: A edição usada como base para este texto foi a lançada pela Panini em 2011, que foi relançada em janeiro deste ano pela Salvat como parte da Coleção Graphic Novels Marvel. Com sorte ainda é possível encontrar esta última em bancas e lojas especializadas.

CAPITÃO AMÉRICA: O SOLDADO INVERNAL
(Reunindo as edições 1 a 9, e 11 a 14 da série Captain America volume 5)
[Panini Books, 306 páginas / 2011]
Roteiros de Ed Brubaker, desenhos de Steve Epting, Michael Lark (flashbacks) e John Paul Leon (edição 7), cores de Frank D’Armata

Nota: 9,0

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One thought on “[QUADRINHOS] Capitão América – O Soldado Invernal: a história em quadrinhos que inspirou o novo filme do herói da Marvel

  1. Excelente sinopse deste ótimo HQ. Dissertativo e muito bem informado. Tao bom ler algo que realmente condiz com o fato.

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