[QUADRINHOS] “Burroughs” de João Pinheiro (Resenha)

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Estava ansioso para poder ler e tecer minhas impressões sobre essa obra, por vários motivos. Mas o principal deles era o ceticismo. “Uma história em quadrinhos sobre William Burroughs? Bah, duvido que vai sair coisa boa disso“. Esse era o meu pensamento, que durou algumas semanas até que o livro caísse em minhas mãos. João Pinheiro já tinha mostrado a que veio com sua obra anterior sobre o universo beatnik: Kerouac (Devir, 2011). Mas uma coisa era falar sobre a vida e sobre viagens e sobre êxtase e tudo o mais. Outra bem diferente é falar sobre William Seward Burroughs II, sua vida e obras. Peguei-me pensando: se fosse eu o autor, por onde começaria? Sobre o que falaria? O universo de Burroughs é tão vasto quanto complexo, surreal e experimental. E isso dificulta a criação de qualquer obra inspirada ou biográfica, pois falar sobre o autor através de uma narrativa linear, realista e “quadrada” seria entediante e não faria justiça. Portanto eu não tinha a mínima ideia do possível conteúdo da HQ.

Confiram as informações da contracapa, e sintam o climão do book trailer feito pela Editora Veneta:

Boa Noite! Sou Francis Bacon, falecido desde 28 de Abril de 1992. Mesmo assim, estou aqui para apresentar mais uma edição de nosso programa especial: Interzone Game!

Na edição de hoje vamos acompanhar a história de um fantasma à luz do dia, um homem vagando pelas ruas, alucinando, tentando manter o controle sobre sua identidade.

Ele é William Lee, precisa de heroína, precisa encontrar certas pessoas, descolar uma dose para que as coisas não fiquem mais complicadas.

Os rostos estão incompletos, os prédios derretem e os carros têm patas de cavalo, agora… O suor escorre… Portas fechadas, janelas lacradas, campos de concentração…”

Li em um fôlego só. Então li novamente e ainda mais uma vez,  para ter certeza do que estava acontecendo. E aqui vai um parêntese ao leitor que desconhece Burroughs: não tente entender, ou mesmo depois de algumas leituras vai se pegar pensando “que porra é essa, afinal?“. A palavra chave das obras do velho Bull Lee, em minha opinião, sempre foi (por mais incrível que possa parecer) Poesia. Ao pensar em algo lírico, sempre visualizamos aquela beleza puramente estética e padronizada, seja a literária ou a da arte visual. Mas Burroughs recorta todos esses conceitos, subverte e mistura perfeitamente em um amontoado de paus sendo chupados, cus falantes, insetos antropomórficos, realidades alternativas e muitas, muitas drogas mesmo.

A obra mistura trechos de livros, inspirações, influências e partes biográficas. Aliás, o ponto de partida é real: O primeiro capítulo mostra William Burroughs (um declarado aficionado por armas) brincando de acertar um copo na cabeça da esposa com uma pistola, no melhor estilo “Guilherme Tell”. Claro, tudo isso com os dois muito chapados. Resultado? Ela morre com um tiro na cabeça. Daí em diante o mundo gira: paranoia, alucinações e loucura atrás de loucura. Entre os momentos mais marcantes da HQ, estão as aparições de personagens recorrentes em algumas obras do autor, como os mugwumps, e o maior médico de todos os tempos: Dr. Benway. Outra parte que merece atenção são as páginas que João Pinheiro dedicou para mostrar a técnica utilizada por Burroughs em seus livros (e algumas gravações de áudio): o cut-up (que isso? LEIA AQUI). Além disso, detalhes como um quadro de Jack London aqui e outro de Rimbaud acolá enriquecem as referências da obra.

Criatura e criador: Um Mugwump e William Burroughs

E temos a Interzona: uma realidade alternativa, sombria e suja – também recorrente em algumas obra do autor – retratada na HQ com um belíssimo toque noir. Uma cidade repleta de criaturas bizarras, junkies, gays (sempre presentes na literatura – e na vida – de Burroughs) e onde tudo pode acontecer. Sempre drogado, penso que ele vivia com um pé aqui no mundo “real” e outro na interzona. Burroughs dizia que “a linguagem é um vírus vindo do espaço“. Ele passou a vida toda severamente infectado por este vírus. O tratamento? Escrever. Externalizar. Expelir. Para nossa sorte ele fez isso em mais de 50 obras ao longo de décadas, entre contos, novelas, colaborações, coleções de cartas e trilogias. E foi além: fez filmes, vídeo clipes, pinturas, lançou álbuns musicais e tudo o mais que se possa imaginar.

Na orelha do livro temos uma citação de Hunter S. Thompson: “William era um Atirador. Ele atirava como escrevia: com extrema precisão, sem medo“. A arte de J. Pinheiro é exatamente assim. Precisa onde tem que ser, mas também extremamente expressiva, abstrata e fragmentada, tomada pelo vírus da linguagem de Burroughs. O traço me lembrou um pouco o do argentino Francisco Solano López [nota do editor: de Eternauta, resenhada aqui], somado a um ar pulp.

A leitura pode ser considerada pesada pelas imagens e escritos por alguns leitores incautos, mas repito: é uma obra completamente poética, feita para ser lida e relida. É confortante ler algo criado por alguém que realmente sabe onde está se metendo, que usa muitas das referências possíveis de maneira concisa e consegue um resultado incrível. Burroughs, de João Pinheiro, não esmiúça toda a vida e obra do autor, mas faz vários recortes, os mistura e rearranja de um modo que, tenho certeza, deixaria o próprio William deveras satisfeito. Que J. Pinheiro continue nessa jornada beatnik e possa nos presentear com obras semelhantes. Espero que em um futuro próximo possamos topar com um “Ginsberg, por João Pinheiro”.

As últimas palavras escritas por William Burroughs: “Amor? O que é isso? Analgésico mais natural que existe. Amor.”

Ah, e como se não bastasse a HQ ser tudo isso e mais um pouco do que tentei dizer acima, há um extra que, por si só, já valeria a aquisição: o ensaio “Os Limites Do Controle“, por William S. Burroughs, traduzido por Débora Aquelarde de Assis e com fotografia (e que fotografia, meus caros, que fotografia!) de Guilherme Ziggy.

Sobre o autor: João Pinheiro é Ilustrador, artista plástico e autor de histórias em quadrinhos. O artista é detentor de uma longa produção e mantém uma relação estreita com a literatura e o cinema que se manifesta em obras como o curta MALÁRIA dirigido por Edson Oda e premiada nacional e internacionalmente e o documentário Há muitas noites na noite de Silvio Tendler.

Pinheiro tem contribuído para diversas revistas, jornais, editoras de livros, produtoras de vídeo e agências de publicidade. É autor de Kerouac, (Devir, 2011) e Burroughs (Veneta, 2015). Em parceria com o escritor Jeosafá Fernandes Gonçalves, lançou às HQs: O espelho de Machado de Assis e A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour (Mercuryo Jovem, 2012 e 2014). Também publicou quadrinhos nas revistas: Front, Graffiti, +Soma, Hipnorama (Argentina), Inkshot (EUA), Serafina (Folha de S.Paulo), Imaginários em Quadrinhos e revista Bill. É o criador e editor da revista virtual Projeto Bill: http://projetobill.com/

Atualmente trabalha junto a Sirlene Barbosa na criação da biografia em quadrinhos da escritora Carolina Maria de Jesus com o apoio do PROAC 2014. Página Carolina em HQ: http://carolinaemhq.tumblr.com/  (FONTE)


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Sobre a Obra: 

Autor: João Pinheiro

Editora: Veneta

Número de Páginas: 128

Formato: 16 x 24 cm / Brochura

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