[QUADRINHOS] Blacksad 1 e 2, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido (resenha)

John Blacksad é um detetive altruísta, durão, mas de bom coração, sempre disposto a fazer justiça, e empenhado em resolver seus casos, nem que, para isto, tenha que enfrentar a resistência das classes mais favorecidas, e a corrupção dos poderes que, teoricamente, deveriam proteger a sociedade.

Como as melhores histórias de detetive em estilo noir, Blacksad, série criada pelos espanhóis Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido, não é apenas sobre solucionar o mistério investigado, mas também sobre trazer à tona aquilo que muitos sabem existir, mas cuja existência poucos estão dispostos a admitir. É da necessidade de “expôr a sujeira” que surgem detetives como Blacksad.

Um dos diferenciais de Blacksad é uma ideia não totalmente original, mas que funciona muito bem dentro das tramas elaboradas por Canales e ilustradas por Guarnido: um mundo habitado por animais antropomórficos. Já vimos muitas histórias usando este conceito, algumas delas adultas – sendo a graphic novel Maus, de Art Spiegelman, um dos exemplos mais marcantes. Numa primeira leitura, Blacksad me lembrou uma versão adulta de Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988), com elementos de Chinatown (1974)E, embora seja posterior a Blacksad – o primeiro álbum da série foi lançado na França em 2000 – não pude evitar a lembrança de Zootopia (2016), a animação da Disney que, creio eu, inspirou-se um pouco em Blacksad para criar aquele clima de intriga que a permeia (no prefácio do primeiro álbum, escrito por Régis Loisel, é dito que Guarnido já trabalhou pra Disney, o que explica a expressividade de seu traço, que remete a animações do estúdio).

Mas Blacksad definitivamente não é uma leitura para toda a família. Tem violência gráfica, nudez, e cenas de sexo. O abuso de poder das classes mais privilegiadas, a hipocrisia das autoridades, a sedução da ganância, tudo isto são temas das histórias dos dois primeiros álbuns. No primeiro, “Algum Lugar em Meio às Sombras“, Blacksad tenta solucionar o assassinato de uma antiga paixão, enquanto no segundo, “Arctic Nation“, ele está atrás de uma menina desaparecida. Em ambos o protagonista ganha nossa simpatia, pois Blacksad investiga o primeiro crime motivado pelos bons momentos que viveu com a falecida, antes de se afastarem; enquanto tenta solucionar o segundo movido pela esperança de resgatar a inocência de uma menina, vítima de conflitos motivados por preconceitos raciais.

Aliás, a segregação racial, mais presente no segundo álbum, é um tema recorrente nos dois volumes já lançados, embora visto com menos destaque no primeiro. O leitor atento notará que alguns animais vivem em guetos ao lado de suas espécies. No volume 1, por exemplo, há um bar frequentado apenas por répteis, onde o assassino com rosto de lagarto entra pra despistar um rato que o persegue:

Podemos encontrar outras evidências mais sutis dessa segregação em fatos como: os policiais serem todos cães; os seguranças serem animais de grande porte, como ursos, rinocerontes e gorilas; e os malandros de rua serem roedores e macacos. Isto mostra o cuidado de Canales e Guarnido na exploração do conceito que serviu de base para sua série: um mundo muito parecido com o nosso, habitado por animais humanizados (ou seriam humanos animalizados?).

Os roteiros de Canales são dinâmicos, prendem a atenção do início ao fim, e tocam em temas pertinentes, especialmente o do segundo álbum, “Arctic-Nation“, que fala de racismo, e faz remissão tanto ao nazismo alemão quanto ao Ku Klux Klan norte americano, e outros movimentos segregadores que tentaram implantar a ideia de uma raça superior. Mas o grande destaque de Blacksad é, sem dúvida, a arte de Guarnido, que equilibra bem o aspecto cartunesco dos personagens com rostos animalescos e corpos humanos, os cenários realistas, a violência gráfica e a ambientação dos anos 50. Suas cores aquareladas deram beleza e um tom levemente envelhecido e “de época” para a história, além de ajudarem a criar a ilusão de sujeira em ambientes mais decadentes e envoltos em sombras. E a decisão da SESI-SP de publicar os álbuns em formato europeu, maior que o americano, valorizou ainda mais a arte de Guarnido, permitindo ao leitor apreciar os detalhes de seus traços e pinceladas. É um trabalho artístico primoroso, que merece atenção, e vale o investimento.

Este mês será lançado “Alma Vermelha“, o terceiro álbum de Blacksad, sendo, portanto, um ótimo momento pra conhecer a série, cujos primeiros volumes você já pode comprar com bons descontos (acesse os links abaixo).


SESI-SP Editora

Tradução: Miguel Del Castill

Brochura

30,8 x 23,2 x 1 cm

56 páginas

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SESI-SP Editora

Tradução: Estevão Azevedo

Brochura

30,8 x 23,2 x 1 cm

56 páginas

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