[QUADRINHOS] Black Science – Quando Uma Dimensão Não é o Bastante

Black Science Rick Remender Matteo Scalera Dean White

Grant McKay é um cientista orgulhoso e egocêntrico, criador do Pilar, uma máquina capaz de transportar pessoas para as infinitas dimensões que compõem o Eververse, uma estrutura em camadas apelidada de Cebola que contém em si todos os universos e dimensões imagináveis. Ao testar o Pilar pela primeira vez, Grant envolve seus filhos e sua Liga de Cientistas Anarquistas numa situação que lhe foge do controle. Uma culpa que o levará a perseguir soluções que parecem escapar a cada instante de suas mãos, conforme ele é jogado de uma dimensão para outra, no meio de situações ainda piores.

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Black Science, série de ficção científica criada por Rick Remender e Matteo Scalera, já começa bem movimentada, apresentando o protagonista fugindo de criaturas anfíbias, passando por uma floresta alienígena e templos lovecraftianos. Com isto, Remender conquista imediatamente atenção do leitor, e o deixa curioso pra descobrir quais circunstâncias o levaram até ali, e como ele se livrará daquele aperto.

Black Science Ward Chase Matteo Scalera Dean White

Os desenhos dinâmicos de Matteo Scalera e as cores luxuriantes de Dean White, que crepitam de energia e retratam com eficácia os ambientes alienígenas, dando texturas palpáveis aos perigos que cercam os personagens, se revelam fundamentais para o sucesso da imersão do leitor naquele mundo. As ilustrações e a colorização remetem a pinturas de cartazes de filmes e capas de revistas de terror e ficção científica antigos.

Já o texto de Remender, escrito em recordatórios usando a técnica do fluxo de consciência, insere o leitor no panorama mental e psicológico de Grant. Assim, o autor, ao mesmo tempo que transmite em “tempo real” as percepções sensoriais do personagem, expõe suas motivações, falhas de caráter e virtudes. É uma abordagem simultaneamente visceral na transmissão das sensações do personagem ao leitor, e sutil na liberação de informações sobre a vida pregressa de Grant, seus erros e seus vícios.

Black Science Grant McKay Beheaded Frog Monologue

E apesar de Grant ser o protagonista, Remender logo começa a explorar os demais membros da Liga, como na edição 2, que é narrada por Ward. Nela o autor contrasta o tom mais reflexivo e científico de Grant com o jeito mais direto, pragmático e menos prolífico de Ward falar. Os recordatórios levam em conta a formação militar do personagem, que, de sua maneira mais áspera, reflete sobre temas como guerra, honra, heroísmo, gratidão e promessas.

Uma das grandes ironias da trama é Grant, criador da Liga de Cientistas Anarquistas, cujo lema é “Não há autoridade além de si mesmo”, se ver diante de problemas que desafiam de maneira extrema sua ideologia, autocontrole e a autoconfiança. Ainda assim, mesmo sob perigo, Grant procura analisar fria, lógica e cientificamente o mundo onde foi arremessado com sua equipe e seus filhos. Ele deixa o cientista calar seu lado humano em vários momentos.

Como se o estresse de pular descontroladamente de uma dimensão para outra não fosse o bastante, ainda há o fato da máquina que usam para viajar entre as dimensões ter sido sabotada e, com isto, perdido as coordenadas necessárias para que voltem à sua dimensão de origem, e de ela ficar por períodos curtos em cada mundo, exigindo sempre que a equipe fique próxima dela para não perder o próximo salto. A premissa é parecida com a de Sliders (1995-2000), série de TV sobre um grupo de indivíduos que viajavam de uma Terra paralela a outra, sempre em busca de um meio de voltar para a Terra de onde vieram (que por sua vez lembra o principal objetivo dos heróis do desenho animado Caverna do Dragão).

Black Science Group Therapy

Como releitura moderna de histórias sobre a luta pela sobrevivência, Black Science é bem eficaz em explorar os extremos e as decisões moralmente reprováveis às quais nos dispomos a tomar para garantir o triunfo da vida sobre a morte. E ao começar a série já com um dos personagens morrendo, e o protagonista sob risco de morte, Remender criou no leitor a sensação de que qualquer um pode morrer a qualquer momento, potencializando o suspense a partir da incerteza do destino de todo o elenco. Além disto, o autor vem desenvolvendo muito bem os conflitos de personalidades da equipe de Grant, botando-os em situações-limite que os forçam a superar as diferenças e rusgas e se unirem para resolver cada crise. E as discussões entre eles são usadas para trazer à tona detalhes sobre suas relações anteriores ao momento em que passamos a acompanhar suas vidas, mas sem o uso de flashbacks, que entram apenas quando é necessário.

No quesito ação, conforme adiantei no início do texto, a série está muito bem servida pela dupla formada pelo desenhista Matteo Scallera e o colorista Dean White. Ambos aproveitam muito bem a oportunidade de desenhar cenas de violência gráfica – como a sequência da primeira edição em que Grant usa a cabeça decapitada de um anfíbio humanóide com língua bioelétrica para atacar seus adversários – e tornam a ação muito dinâmica e estilizada.

Black Science Auto Chase In Alien World

E diante das situações e mundos peculiares imaginados por Remender, o traço mais caricato e “elástico” de Scallera, um pouco diferente de seu estilo usual, cai como uma luva à necessidade de expressar visualmente o estresse dos personagens, e a perplexidade, assombro e confusão deles diante dos cenários inimagináveis que encontram. E as pinceladas digitais vibrantes de White realçam ainda mais a mutação constante dos cenários, a oscilação das emoções, e da inquietação gerada por cada novo salto entre as dimensões, que representam uma nova situação de risco em potencial. E o colorista faz um ótimo trabalho ao contrastar as cores do presente com as do passado, colorindo os flashbacks com cores mais “sóbrias”.

As possibilidades que Rick Remender abriu diante de si a partir da ideia simples de um grupo de homens, mulheres e crianças saltando entre dimensões alternativas são praticamente infinitas. Black Science pode perfeitamente durar muitos anos, e tornar-se um verdadeiro repositório das maiores extrapolações imaginativas de Remender, Scallera e White. Só pela sensação que ela passa de que pode acontecer qualquer coisa a qualquer instante, por mais louca que possa soar, já é uma série que vale a pena acompanhar. Até porque Remender é um ótimo escritor, e vem se revelando mais talentoso a cada novo trabalho. Que venham outros, e vida longa a Black Science!

BLACK SCIENCE #1-5
[Image Comics, média de 30 páginas por edição / 2013-2014]
Roteiros de Rick Remender, desenhos de Matteo Scalera, cores de Dean White

Nota: 9,0