[QUADRINHOS] Batman Ano Zero: Como Scott Snyder e Greg Capullo modernizaram o Cavaleiro das Trevas

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O CAVALEIRO DAS TREVAS SEGUNDO SCOTT SNYDER

A abordagem usada por Scott Snyder para escrever a série Batman tem um lance bacana que é algo que interpreto como influência do trabalho de Grant Morrison com o personagem: ele também gosta de puxar referências obscuras de histórias antigas do Homem Morcego e transformá-las em subtramas e elementos de seus roteiros, ou mesmo em personagens centrais de seus arcos. batman-the-black-mirrorNo arco Espelho Sombrio (Detective Comics #871 a 881), anterior aos Novos 52, Snyder trouxe um personagem pouco utilizado e citado dentro das histórias do Batman; em A Corte das Corujas (Batman #1 a 7, 2011-2012) e A Noite das Corujas (Batman #8 a 9, 2012), o autor tirou proveito de um elemento introduzido por Morrison durante a mini-série O Retorno de Bruce Wayne (mais detalhes sobre ela aqui), e transformou Gotham numa cidade cheia de segredos que o próprio Batman desconhecia, e ao final de seu embate com o grupo ainda trouxe à tona outro personagem obscuro proveniente da família Wayne; já em Morte da Família (Batman #13 a 17, 2013) houveram as referências aos primeiros confrontos do Batman com o Coringa, sob a forma de crimes que reproduziam os primeiros do Palhaço do Crime, mostrados em histórias da década de ‘40, a fim de chamar a atenção do Cavaleiro das Trevas.

Outro elemento notável nas histórias de Snyder é sua preocupação em criar ameaças que atinjam o Batman física e psicologicamente, porém numa proporção mais sufocante e concentrada do que megalomaníaca, como foi se tornando a natureza das ameaças criadas por Grant Morrison em suas passagens pelos títulos Batman, Batman e Robin e Corporação Batman. São abordagens distintas, mas que funcionam perfeitamente com um personagem tão flexível e adaptável como é o Batman e seu elenco de coadjuvantes.

Snyder tem uma tendência a construir histórias cuja força motriz é o suspense, que testam as capacidades investigativas do Batman, ao mesmo tempo em que põem à prova suas habilidades físicas e sua estabilidade psicológica, e lhe dão a oportunidade ideal para explorar a psique dos personagens envolvidos.

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Em Greg Capullo o autor encontrou seu parceiro artístico ideal. Um desenhista que tem um estilo ao mesmo tempo dinâmico, detalhista, e levemente caricato, que o torna tão flexível e adaptável quanto o herói retratado por seus traços. Graças a isto, sequências como a que o Batman se vê preso ao labirinto construído pela Corte das Corujas (em Batman #5, 2012), para deixá-lo no limite da insanidade; as aparições do Coringa com sua repugnante e putrefata máscara de pele, durante todo o arco Morte da Família; as contorções de dor, os golpes explosivos de punho contra carne, a flexão dos músculos do herói sob forte pressão, ganham no lápis de Capullo um peso a mais, e um impacto visual que leva o leitor a sentir o que os personagens estão sentindo.

Há uma preferência entre os fãs da dupla criativa pelo arco A Corte das Corujas, mas defendo que foi em Morte da Família que Snyder e Capullo atingiram o auge do controle sobre a narrativa. A trama, a cada edição, seguiu num crescendo de tensão em que cada página e quadrinho era como um virar de esquina numa rua mal iluminada e mal afamada. Snyder compôs um retrato profundo e, em alguns aspectos, inusitado da relação entre o Batman e o Coringa, como não se via desde A Piada Mortal, e a última reinvenção do Palhaço do Crime pelas mãos de Grant Morrison (Batman #663, 2007).

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Apostei, durante a leitura de Morte da Família, que Snyder e Capullo dificilmente superariam o trabalho que fizeram naquele arco. Mas a julgar pelo que eles vêm fazendo em Ano Zero, a dupla tem grandes chances de superar-se.

ANO ZERO – ATO 1: CIDADE SECRETA
(Batman #21 a 23)

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Talvez o trabalho mais ambicioso de Scott Snyder e Greg Capullo seja o que atualmente estão produzindo. Ano Zero, como o próprio nome sugere, é uma reformulação da origem do Batman, ou, como Snyder prefere defini-la, uma atualização do mito para nossos tempos. A história começa seis anos atrás, antes da formação da Liga da Justiça e das primeiras aparições públicas do Superman, que na cronologia dos Novos 52 ocorreram há cinco anos.

A cena de abertura da saga consegue fisgar de primeira a atenção do leitor. Nela vemos uma Gotham City pós-apocalíptica, que parece ter sido abandonada há décadas, toda tomada pela vegetação e com os túneis do metrô inundados. Só descobriremos as circunstâncias que levaram a este cenário catastrófico no terceiro ato de Ano Zero, que começou mês passado lá fora, em Batman #30. Mas antes de responder as questões que as quatro primeiras páginas da saga levantam, Snyder preparou muitas novidades interessantes ocorridas nos primeiros dias de Bruce Wayne como o Cavaleiro das Trevas.

Descobrimos em Ano Zero que Bruce Wayne foi legalmente declarado como morto, após sumir de Gotham por vários anos. Ele relutou em revelar sua volta à cidade nos primeiros dias após seu retorno. Mas seu tio, Philip Kane, logo deu um jeito de reverter isto contra sua vontade, algo que ocorre já em Batman #22, quando ele organiza uma reunião de vários amigos e conhecidos para reapresentar o sobrinho à sociedade gothamita.

Aliás, a presença de Philip Kane indica que Snyder incorporou à nova mitologia que está construindo mais elementos introduzidos por Grant Morrison na minissérie O Retorno de Bruce Wayne, como Martha Wayne ser da família Kane.

batman-zero-year-bruce-boy-traveling-in-gothamApesar de o primeiro capítulo de Ano Zero não ter tanta ação, ele é dinâmico, alternando entre três períodos distintos da vida de Bruce Wayne / Batman, e rico nos acréscimos que faz à mitologia do herói, já apontando para uma das versões mais elaboradas da origem do Cavaleiro das Trevas. Snyder investiga com minúcia o amadurecimento de Bruce, desde sua infância, passando pelas primeiras tentativas de tornar-se um vigilante de Gotham, até a prova de fogo que o tornará um mito moderno.

Uma das contribuições do autor foi revelar que Bruce era fascinado por Gotham quando criança, especialmente pela capacidade de a cidade permitir que qualquer um fosse o que quisesse em suas ruas.

batman-zero-year-bruce-and-alfred-having-a-argumentjpgTambém merece elogios a tensão que Snyder adicionou à relação entre Bruce e Alfred, após o primeiro retornar a Gotham. Enquanto Bruce está determinado a permanecer “morto” para sua cidade natal, recusando morar na mansão que é uma herança dos Wayne, e preferindo residir numa base de operações próxima ao local onde seus pais morreram (como uma forma clara de relembrar todos os dias do fato que mudou sua vida para sempre, e deu origem à sua missão), Alfred faz questão de expressar sua desaprovação quanto à atitude de seu jovem patrão. Snyder, com isto, levou em conta o ímpeto e o orgulho juvenil de Bruce, ainda no começo de sua carreira como vigilante, ignorante dos desafios que ainda enfrentaria, e cego diante dos erros que estava cometendo.

Um outro detalhe que demonstra o cuidado do autor na construção do aspecto psicológico de Bruce Wayne é visto em Batman #23, quando ele instintivamente foge para a Mansão Wayne após sofrer sua primeira grande derrota. A ideia funciona como uma excelente metáfora, que remete à parábola bíblica do filho pródigo, e também ao conceito psicanalítico do filho que deseja retornar ao conforto e à proteção do útero materno. A Mansão Wayne é onde Bruce se recompõe, recebendo os cuidados de Alfred, que de certa forma ocupou em sua vida o lugar do pai e da mãe que perdeu (pois há um elemento maternal na forma como o mordomo cuida do jovem patrão).

Também são muito bem conduzidas as histórias complementares, que acompanham os três primeiros capítulos de Ano Zero, escritas por Snyder em parceria com James Tynion IV (um dos principais roteiristas responsáveis pela série semanal Batman Eternal – leia mais sobre ela aqui). Cada uma conta um episódio da juventude de Bruce, e revela um pouco de seu treinamento ao redor do mundo. A primeira delas chama atenção por ser ambientada no Rio de Janeiro, e ser desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque – co-criador, ao lado de Snyder, da série Vampiro Americano. Nela Snyder tomou emprestada uma ideia da trilogia de Christopher Nolan, e mostrou Bruce tomando lições de um ladrão brasileiro especialista em grandes roubos, enquanto é perseguido por policiais, o que rende um racha que termina no Theatro Municipal carioca (!).

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A segunda é ainda melhor, e revela com quem Bruce aprendeu a criar novas tecnologias de maneira intuitiva para escapar de situações extremas. Com ela a dupla de roteiristas demonstrou todo o cuidado com que elaborou detalhes sobre a formação técnica do futuro Batman.

batman-zero-year-i-shall-become-a-batMas, mesmo diante da elogiável caracterização criada por Snyder, devo confessar que me decepcionei um pouco com sua versão para a cena em que Bruce tem o insight de “tornar-se um morcego.” Apesar ser visualmente bela, simbólica e poética, a sequência não tem o mesmo impacto da versão de Frank Miller David Mazzucchelli em Batman Ano Um, que era mais simples, direta e crua, além de conferir um toque de fatalidade ao surgimento da ideia do Batman na mente de Bruce. Sim, toda a orquestração do momento ao longo das três primeiras partes de Ano Zero torna a cena bem estruturada. Porém, sinto que faltou um pouco daquele efeito de uma grande ideia que vem subitamente, e muda tudo, algo que a imagem do morcego quebrando a janela e pousando sobre o busto de Thomas Wayne, na versão de Miller e Mazzucchelli, fazia admiravelmente bem.

Ascensão e Queda do Primeiro Capuz Vermelho

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No primeiro capítulo da saga, Snyder voltou a mostrar a luta do Batman contra a gangue do Capuz Vermelho, que ele havia apresentado rapidamente em Batman #0 (2012). O confronto ocorre apenas seis semanas depois de Bruce voltar para Gotham, e cinco meses antes de Gotham encontrar-se no estado apresentado no início da saga.

Capuz Vermelho e sua gangue – formada por pessoas de classe média e alta que foram obrigadas a tornarem-se criminosos após serem ameaçadas pelo vilão, o que é uma ótima sacada de Snyder – são os principais adversários do Batman no primeiro ato de Ano Zero, e ao longo de cada edição se revelam fundamentais para a formação do herói, e a criação do mais famoso vilão do Cavaleiro das Trevas. Quem já leu uma das histórias mais clássicas do Batman (que consta neste post sobre os melhores quadrinhos do herói), não será surpreendido quando descobrir o destino final do Capuz Vermelho, mas vale a pena observar as pistas que Snyder vai soltando conforme o primeiro ato de Ano Zero se aproxima de seu clímax.

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Pra começar, o Capuz Vermelho é o que podemos definir como o primeiro “criminoso performático” de Gotham. Seu ataque contra a máfia da cidade, mostrado em Batman #22, pode ser visto como o primeiro golpe deste novo tipo de criminoso contra os mafiosos tradicionais, encabeçados por Carmine Falcone (que, vale lembrar, é o principal vilão da série Batman Eternal). Na mesma ocasião descobrimos que o Pinguim é anterior a todos os demais, e se encaixa numa posição intermediária, entre os criminosos performáticos e os mafiosos tradicionais. Este ataque do Capuz Vermelho parece marcar o princípio do fim da era dos mafiosos, e o começo da era dos criminosos insanos e aberrantes.

Outras características do Capuz Vermelho que merecem atenção: seu modo caótico, fora de um padrão, e despropositado de agir, como se ele só quisesse que a cidade tivesse medo dele; o fato de ele parecer que está sempre se divertindo enquanto pratica seus crimes; ele revelar que foi a morte dos Wayne que o inspirou a tornar-se um criminoso, especialmente pela aleatoriedade do crime, e pelo medo que ele despertou na população de Gotham. Além disto, há o detalhe de que o grande plano do Capuz envolve produtos químicos.

Em Batman #24 começa Cidade das Sombras, o segundo ato de Ano Zero, e até o momento é um dos capítulos mais marcantes da saga. É nele que acompanhamos a primeira missão de Bruce Wayne como o Batman. As primeiras páginas já figuram entre as mais icônicas da história do personagem nos quadrinhos: Batman enfrenta a gangue do Capuz Vermelho, e termina reproduzindo a capa de Detective Comics #27, de 1939 (primeira aparição do herói nos quadrinhos). Tudo funciona magnificamente, com destaque para o modo como Greg Capullo retrata o herói como uma silhueta em forma de morcego, sempre que surge em cena.

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Outras cenas memoráveis: o discurso de Bruce sobre sua paixão por Gotham; o apagão em forma de morcego nos quarteirões ao redor da Químicos A.C.E.; e toda a luta do Batman contra a gangue do Capuz Vermelho na fábrica (sendo uma das minhas sequencias preferidas a que o herói luta contra os criminosos numa escada, que remete à fase em que o Batman se divertia enquanto combatia o crime ao lado do primeiro Robin). E, claro, a nova versão de Snyder e Capullo para o surgimento do maior vilão do Cavaleiro das Trevas. Sem dúvida um dos melhores momentos da dupla no título até aqui.

ANO ZERO – ATO 2: CIDADE DAS TREVAS
(Batman #24 a 27 e 29)

O Turbulento Início da Parceria entre Batman e Gordon

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O segundo ato de Ano Zero começa com a curiosa revelação de que Bruce Wayne desconfiava tanto do departamento de polícia de Gotham City que doou uma frota de dirigíveis pra ele como forma de mantê-lo sob vigilância (provavelmente após espalhar várias escutas e câmeras escondidas dentro deles).

É no arco Cidade das Trevas que Snyder passa a abordar com mais profundidade a relação entre Bruce Wayne e James Gordon, que é um dos principais motivos do primeiro desconfiar tanto da polícia de Gotham. Em Batman #25 descobrimos que o parceiro de Gordon, na época em que os Wayne foram assassinados, era um policial corrupto, de quem ele ganhou o sobretudo que usa até hoje. A cena ocorreu horas antes do crime que mudou para sempre a vida de Bruce, e foi testemunhada por ele, o que, em retrospecto, o fez nutrir uma inimizade por Gordon, e considerá-lo tão corrupto quanto seu parceiro.

Mais tarde, na edição 27, Gordon revela que fazia apenas três semanas que ele era policial em Gotham, transferido de Chicago, e que mais tarde naquele dia ele descobriu quão corrupta era a polícia de Gotham, minutos antes de ouvir os tiros que mataram os Wayne, e encontrar Bruce chorando sobre os corpos sem vida dos pais.

Na mesma edição Gordon ajuda o Batman a escapar de uma armadilha, e revela ao herói o motivo por ainda usar o sobretudo que ganhou de seu ex-parceiro corrupto. A conversa em que isto ocorre é um daqueles momentos definidores da relação que ambos terão dali pra frente. É o ponto crucial em que Batman passa a enxergar Gordon como um igual, e um potencial aliado dentro da polícia de Gotham.

batman-zero-year-alfred-about-why-become-batmanAlfred se revela fundamental pra dar o empurrão final que levará Bruce a aliar-se a Gordon, quando lhe apresenta o currículo do policial. O fiel mordomo, aliás, mais do que na maioria das histórias do Batman, tornou-se nas mãos de Snyder a consciência de Bruce. Alfred é seu melhor conselheiro, que faz o possível para evitar que Bruce ceda à tentação de transformar sua luta por justiça numa busca por vingança. Talvez um dos momentos mais emblemáticos, em que ele conscientiza e alerta Bruce sobre o modo como estava conduzindo sua atuação como vigilante de Gotham, seja a contundente conversa que ele tem com o patrão na edição 27, quando diz que sua performance como Batman soava muito como uma maneira de mostrar a toda a cidade o que ninguém foi capaz de fazer por ele na noite em que seus pais foram assassinados. É um dos grandes momentos do personagem em Ano Zero.

Surge o Charada
(ou “Como tornar Gotham mais esperta”)

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Uma das grandes surpresas da nova versão da origem do Batman de Snyder é a descoberta de que Edward Nygma, ninguém menos que o futuro vilão Charada, não apenas foi um funcionário das Empresas Wayne após sua fusão com a Químicos Kane, como um dos grandes responsáveis pela ascensão da empresa em Gotham.

batman-zero-year-bruce-and-nygma-spiralO primeiro encontro de Bruce com Nygma não poderia ser mais marcante. Uma conversa cheia de insinuações e indiretas enigmáticas numa página em forma de espiral, que também remete, e cita diretamente, a figura do oroboro, que por sua vez é tanto o nome de uma das principais armas da Leviatã de Talia al Ghul em Corporação Batman, como a estrutura narrativa que Morrison formou com todas as histórias que escreveu do Batman ao longo de sete anos. Grande tributo de Snyder e Capullo ao trabalho de Morrison com o herói, e uma baita reintrodução do Charada nesta nova mitologia em construção.

batman-zero-year-doctor-deathOutro vilão que ganha uma reinterpretação de Snyder no 2º ato de Ano Zero é o Dr. Morte, que descobrimos em Batman #25 que está matando cientistas das Empresas Wayne, incluindo um companheiro da Dra. Pamela Isley, a futura Hera Venenosa. Ele foi um dos primeiros vilões enfrentados pelo Batman em Detective Comics #29, de 1939.

Mas o grande vilão de Cidade das Trevas é o Charada, que se revela uma espécie de “Steve Jobs do mal.” Seu plano para tomar o controle de Gotham sustenta-se na ideia de “ligar os pontos,” e também tem relação com a história complementar de Batman #22, onde vemos Bruce Wayne livrar-se de uma situação limite aprendendo a estabelecer ligações entre os aparelhos que tinha em mãos para escapar de sua prisão. Talvez aquela história seja uma pista de Snyder para o modo como Batman encontrará uma solução para a crise desencadeada pelo Charada no final de Cidade das Trevas. De qualquer forma, só pela complexidade e engenhosidade do plano do vilão, já é um dos melhores confrontos dele com o herói.

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É preciso elogiar também o modo como Snyder compartimentou a tensão do capítulo final de Cidade das Trevas, tornando cada ação isolada em pontos distintos de Gotham essencial para impedir a realização do plano de Nygma, com cada crise encandeada de forma a prender a atenção do leitor ao desenrolar do desfecho. E intercalar o fatídico episódio do assassinato dos Wayne com “takes” da primeira grande derrota do Batman é um baita ponto final para o segundo ato de Ano Zero.

EASTER-EGGS “PREMONITÓRIOS” E FLASHFORWARDS ENIGMÁTICOS

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Snyder e Capullo não economizaram nas pequenas homenagens que fizeram à extensa e rica mitologia do Batman, e espalharam pelos dois primeiros atos de Ano Zero diversos easter-eggs para quem gosta de caçar referências a cenas, elementos e símbolos marcantes dos últimos 75 anos de histórias do herói.

Não vou citar todos, mas merecem menção: um símbolo muito parecido com o do Robin no boné que Bruce usa pra sair de casa em Batman #21; a famosa moeda gigante da Bat-caverna, que ganha uma nova origem em Ano Zero; e pelo menos duas cenas que reproduzem poses emblemáticas vistas n’O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, uma na edição 27, e outra na 29, entre muitas outras.

2013-06-12 07-27-36 - Batman (2011-) 021-005Além dos easter-eggs, os três primeiros capítulos de Ano Zero apresentam flashforwards desconexos em suas páginas de créditos, que dão breves pistas sobre eventos futuros, tanto do arco em questão, quanto da saga inteira, como dicas de uma “charada.” Os mostrados em Batman #21, por exemplo, apresentam cenas de cada um dos três atos de Ano Zero, que só começam a fazer sentido conforme avançamos na leitura da saga.

Outro recurso narrativo usado para atiçar a curiosidade do leitor, que Snyder toma emprestado da aclamada série de TV Breaking Bad, pode ser conferido em Batman #25, início do arco Cidade das Trevas: a história começa acompanhando um comboio de militares numa região desértica da Nigéria, sem ligação aparente com a história que é contada pelo restante da edição. Só começamos a entender a ligação entre a sequência e o restante do arco mais adiante, em Batman #27. É como se Snyder instigasse o leitor a tornar-se tão esperto quanto o Charada deseja que a população de Gotham seja como consequência de seus ataques terroristas contra a cidade.

UM JOVEM CLÁSSICO EM FORMAÇÃO

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A origem que Snyder e Capullo estão construindo é uma história contada com paixão, que celebra e sintetiza a já riquíssima mitologia do Batman. O grande mérito do trabalho da dupla em Ano Zero vem sendo o acréscimo de novos elementos e, especialmente, novas conexões entre personagens e eventos, com os quais estão criando uma mitologia ainda mais coesa e bem amarrada para o herói.

Cidade Selvagem, o terceiro e último ato de Ano Zero, começou mês passado em Batman #30, e terminará em julho, na edição 33. Voltarei a falar da saga quando for concluída, mas posso afirmar que Ano Zero já é uma das histórias obrigatórias para todos os fãs do personagem. É sólida e segura em sua execução, e à altura do legado que o Cavaleiro das Trevas já possui nos quadrinhos, e vem dando novo fôlego ao mito do Homem Morcego, para mais 75 anos de muito sucesso em sua eterna guerra ao crime.