[QUADRINHOS] Astronauta – Singularidade: Buracos Negros, Traições e Paixões no Espaço

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Depois do sucesso de Astronauta: Magnetar, reformulação do personagem de Maurício de Sousa pelas mãos de Danilo Beyruth, o escritor e desenhista foi convidado para produzir sua continuação. Desta proposta nasceu Astronauta: Singularidade, a mais recente Graphic MSP, que analisarei nesta resenha.

As Novas Facetas do Astronauta

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Logo no início, um dos aspectos que mais chama atenção em Singularidade é o contraste entre ela e Magnetar. Se na graphic novel anterior o Astronauta teve que lidar com a solidão, lutar por sua sanidade mental e sua sobrevivência enquanto estava à deriva no espaço, nesta ele tem que conviver com uma tripulação em sua nave e enfrentar riscos ainda maiores, que conferem à trama mais dinamismo e um ritmo mais urgente.

Aliás, sobre os novos personagens apresentados em Singularidade, chama atenção a curiosa escolha que Beyruth fez de não revelar seus nomes verdadeiros, referindo-se a eles apenas por suas respectivas funções (Doutora, Chefe e Major, no caso). Não sei bem qual foi a intenção do autor nisto. Arrisco dizer que pode ser uma crítica discreta à “impessoalização” da vida humana pela ciência e instituições governamentais, mas pode ser que eu esteja apenas forçando uma interpretação aqui. Além disto, há também o detalhe de que ele não especifica de qual país é o antagonista do Astronauta – informação que é apenas sutilmente sugerida no emblema do traje espacial usado pelo Major – talvez para evitar possíveis inimizades internacionais, e permitir a publicação da graphic novel em outros países.

Outro contraste entre Singularidade e Magnetar é que, ao contrário da história anterior, que foi narrada em primeira pessoa, nesta a narração é feita pela Doutora. Assim, vemos as ações do Astronauta de um ponto de vista externo, além de serem interpretadas psicologicamente. É a presença dela que obriga o Astronauta a lidar com seu desejo sexual, que desafia seu já conhecido amor por Ritinha.

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Semelhante a Magnetar, a trama de Singularidade também se apóia numa “corrida contra o tempo”, mas Beyruth foi cuidadoso em desenvolvê-la sob outro contexto, confrontando o protagonista com novos desafios, tanto para sua tripulação, como para a Terra, que desta vez também é ameaçada, como consequência das descobertas feitas pela missão exploratória da trama.

Referências bem utilizadas

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Para definir a natureza da ameaça enfrentada pelo Astronauta, desta vez Beyruth aparentemente buscou inspiração, em parte, no livro Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke, ao estabelecer como peça central da trama seu contato com um imenso e misterioso artefato alienígena, que paira misteriosamente à beira do horizonte de eventos de um buraco negro. E forçando um pouco mais a interpretação, dá pra dizer que o octaedro alienígena é uma referência ao Trapezoedro Reluzente, artefato capaz de abrir portais para outras dimensões, encontrado pelo protagonista do conto O Assombro das Trevas, de H.P. Lovecraft (falei um pouco sobre ele aqui).

A paisagem espacial em torno do buraco negro também se assemelha – especialmente pelas cores usadas por Cris Peter – ao oceano do planeta Solaris, que dá nome a um longa de ficção científica dirigido por Andrei Tarkovsky (do qual falei  aqui).

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Outra referência bem clara ocorre no clímax, durante o embate físico entre o Astronauta e o Major, que é claramente inspirado na clássica luta entre a Tenente Ripley e a Rainha Alien no filme Aliens – O Resgate. Observem como as cores da armadura do Astronauta remete às do exoesqueleto usado por Ripley, assim como o usado pelo Major tem um aspecto que remete ao corpo da criatura alienígena do longa dirigido por James Cameron.

A relação simbiótica de Beyruth e Peter

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Danilo Beyruth não tem um traço que podemos classificar como detalhista na maioria das páginas, o que não o impede de ser muito expressivo, e valorizar o movimento e o dinamismo que sua trama pede, no lugar de exibir um virtuosismo técnico despropositado. Isto não quer dizer que ele não possa alcançá-lo, pois quando julga importante para a trama, Beyruth cria cenários detalhados, como o interior da plataforma de lançamento da nave de Astro, e o vertiginoso interior do Octaedro.

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E a arte de Beyruth ganha mais vida, presença e texturas complementada pelas cores de Cris Peter, que repete em Singularidade a competência que exibiu em Magnetar. Aliás, a paleta de cores de Peter também cria um contraste entre Singularidade e Magnetar. Enquanto lá imperava o azul melancólico do Magnetar, que acabou funcionando como um reflexo da depressão causada ao Astronauta por sua solidão, aqui o amarelo, laranja, vermelho e púrpura da singularidade gerada pelo buraco negro refletem o calor humano presente na trama, na relação do Astronauta com a Doutora, e na urgência maior da resolução do desafio apresentado.

A parte 2 de uma trilogia, ou a conclusão de uma bilogia?

astronauta-singularidade-danilo-beyruth-teaserCom o lançamento de Astronauta: Singularidade, e o anúncio de Turma da Mônica 2, sequência da Graphic MSP dos irmãos Vitor e Lu Caffagi, a MSP, através do editor Sidney Gusman, idealizador do projeto, mostrou que está disposta a explorar mais estas versões alternativas do universo criado por Maurício de Sousa, que vêm sendo algumas das responsáveis por aumentar o interesse dos brasileiros por produções de artistas e escritores de quadrinhos nacionais. Singularidade é a confirmação de que há público interessado em ficção científica produzida por nossos conterrâneos.

Dito isto, esta graphic novel pode ser vista tanto como a parte 2 de Magnetar, como o meio de uma trilogia, pois ela deixa aberta a possibilidade de uma continuação, sem necessariamente deixar um gancho. A cena final também pode ser interpretada como o encerramento de mais este capítulo desta versão do Astronauta imaginada por Beyruth.

Mas fica a pergunta: será que em apenas duas graphic novels este Astronauta esgotou suas possibilidades criativas? Particularmente acho que seu potencial apenas começou a ser explorado. 

Testemunhamos em anos recentes George Lucas vender os direitos de uso do universo de Star Wars para a Disney, criando, com isto, a chance para uma nova geração de roteiristas, diretores e atores expandir as fronteiras de sua criação. Maurício de Sousa fez algo semelhante ao “emprestar [seus] brinquedos” a outros escritores e artistas brasileiros, o que deu origem às Graphic MSP’s. Talvez o próximo passo seja o que foi dado agora: deixar que alguns destes artistas deem prosseguimento ao novo capítulo que começaram em suas releituras e reinterpretações da Turma da Mônica, Piteco, Chico Bento e Bidu.

Não sei pra vocês, mas pra mim é significativo que tudo isto tenha começado com a graphic novel do Astronauta, justamente o personagem que melhor representa este desejo tão ancestral da espécie humana de explorar o universo onde vive, expandir seus conhecimentos, ao ponto de, com eles, criar seus próprios universos. Esta é a essência da criatividade humana. Por isto, deixo aqui meu desejo de que ela se manifeste em novos capítulos dessas versões alternativas dos personagens de Maurício de Sousa. Eu, no lugar dele, ficaria orgulhoso em vê-las evoluir e tomar novos rumos, e ansioso para conferir o que vêm a seguir, como já estou para ler a próxima Graphic MSP. Que venha logo!

astronauta-singularidade-danilo-beyruth-graphic-mspAstronauta: Singularidade

História e desenhos: Danilo Beyruth
Cores: Cris Peter
Selo: Graphic MSP
Editora: Maurício de Sousa Produções
Produção editorial: Panini Comics
Editor chefe: Sidney Gusman
Número de páginas: 82
Formato: encadernado (disponível em capa cartonada e capa dura)

Nota: 9,0