[QUADRINHOS] ALENA – Um limite em um corte seco (resenha).

Tive um professor na faculdade chamado Paulo Bezerra. O homem era um gênio. Basta saber que ele é o tradutor oficial de Fiódor Dostoiévski no Brasil, chegou a ser premiado pela ABL e, claro, falava russo fluente, e recitava poesias enormes em sala de aula. Ailás, que aulas!

Esse professor, ao tratar de contos (chamados pelos americanos de short-story) falou uma frase da qual jamais pude me esquecer: “Se uma espingarda aparece em um conto, ela tem que atirar“.

Isso! Esse é o melhor conceito de conto que eu já vi, li ou ouvi.

Alena, de Kim W. Andersson, é uma HQ, não um conto.

Mas os aspectos do enredo, feito de elementos necessários e objetivos, faz da história aquilo que meu velho professor de Teoria Literária teria chamado do perfeito exemplo de conto, só quem em uma plataforma não apenas verbal.
Aliás, abro aqui um parênteses para as artes de Andersson, que conseguem deixar até os dias de sol sombrios demais para serem realmente ensolarados. Nada parece belo e calmo.

O mais fantástico é pensar que, qualquer pessoa que sofra de ansiedade, e que já tenha passado por uma crise nervosa, acaba tendo momentos em que a visão (por mais acurada que seja) torna-se estranha, como se nosso cérebro ligasse o botão de “saturar” cor, e todas as coisas fossem perturbadoras fizessem sofrer a percepção, e que tudo fosse mais cheio do negrume. É exatamente assim que temos a experiência literária de Alena. As cores, variando do azul ao vermelho e laranja, magistralmente usadas em tons sobrepostos, dando formas aos corpos desenhados de forma quase voluptuosa, fazem com que estejamos nas situações desgraçadas (e até mesmo, por que não dizer, picantes?) com a protagonista e a antagonista.
Não há como dar muitas voltas com Alena. É uma HQ que tem seus cortes secos como os de uma navalha bem afiada.

Alena tem a medida certa da maldade e da crueza para fazer qualquer leitor entender que, havendo vítimas ou não, todas as coisas que fazemos ou sentimos reverberam pelo mundo e atingem as pessoas ao nosso redor. Sendo assim, não fica muito complicado entender que o resultado da equação de cada movimento ou pensamento que leva a uma atitude ou uma volição acabe gerando uma consequência.
Não é como se todos fossem ter consequências graves de tudo e em tudo o que fazem. Mas quando o destino já parece ter sido manchado com qualquer coisa negra, como betume ou sangue podre, talvez qualquer ação não seja o suficiente para fazer sanar todas as coisas que podem vir no futuro.

Cheguei a ver um site geek dizendo que Alena seria uma história de “Amor e terror”. Eu posso assegurar que não é uma história de amor. Os leitores mais atentos, ou mais pensantes, terão certeza disso. Por mais que o amor apareça como uma capa opaca e bem presa, é só uma capa que encobre outra coisa.

Alena faz lembrar muito, em muitos aspectos Carrie, a Estranha“, do nosso tão famoso e desgraçado escritor nerd Stephen King. Alguns desses elementos que fazem lembrar o citado romance são bem básicos: Alena é uma garota que acaba sendo excluída de se grupo social, ou seja, não é uma aluna bem quista dentre seus colegas de colégio. Os motivos parecem banais, tanto para os que desprezam quanto para a desprezada: A menina sofre bullying porque não tem dinheiro como seus colegas.
Pode parecer uma bobagem, mas para adolescentes, o status social (não importa se isso acarretará em alguma coisa concretamente diferente na vida dele) faz toda diferença; assim como aparência e outras “escolhas”. Alena está constantemente sendo ridicularizada, sofrendo com situações vergonhosas, sendo ofendida e até mesmo chega a sofrer agressões mais sérias – que eu não vou falar aqui, claro.

Mas existe um ponto muito interessante que destaca esse enredo de qualquer outro enredo. Alena não está sozinha.

Ao seu lado, fiel como ninguém seria, está sua melhor amiga Josephine. É com ela que Alena conversa, desabafa; a ela Alena pede ajuda e consegue! Josephine ajuda sua amiga Alena; Ah, sua amada amiga Alena.

Só tem um problema nisso tudo, que talvez seja realmente o grande início de todas as maldições que se dão nesses quadrinhos tão belamente manchados de sangue, violência, terror e até lascívia nos pontos corretos: Josephine não poderia estar ajudando a menina atordoada, pois já morreu há um ano.

O desenrolar dos fatos é um misto de O Sexto Sentido com Clube da Luta (já que fizemos comparações com filmes): Alena está louca, é capaz de ver fantasmas, ou está morta como Josephine, presa em algum purgatório em que eventos novos se passam em um plano alternativo?

Se Josephine existe, existe como fantasma. E fantasmas têm poderes físicos de fato?

No Fim da história, seu senso de justiça vai ficar muito abalado por conta desses mistérios, da noção de mérito ou desmérito, bondade e maldade, presunção de inocência ou culpabilidade…
Além dos arrepios causados não só pela história, mas por toda arte arrepiante de Andersoon.

A AVEC Editora vem se superando, mas desta vez, chegou dando tapas na cara…

Ou tesouradas.


AVEC Editora

Brochura

27,8 x 18,6 x 0,6 cm

120 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

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Cultura