[QUADRINHOS] “Afrodite: Quadrinhos Eróticos” de Alice Ruiz e Paulo Leminski (resenha)

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Da união do casal de poetas e escritores Alice Ruiz e Paulo Leminski com um time de quadrinistas nasceram diversos contos eróticos em quadrinhos publicados no final dos anos 1970 em plena ditadura militar, como uma forma de expressar suas liberdades criativas e sexuais. Tais contos, mais de 30 anos depois, foram resgatados e reunidos no livro Afrodite: Quadrinhos Eróticos, lançado pela Editora Veneta.

Antes de continuar, vou esclarecer um detalhe importante antes que alguns de vocês tirem conclusões precipitadas sobre a obra resenhada: erotismo é diferente de pornografia. Enquanto o primeiro trabalha a sexualidade de maneira mais sugestiva, a segunda aborda o sexo de forma mais explícita. Dito isto, se você quer histórias em que o ato sexual é mostrado de maneira invasiva, Afrodite não servirá para os seus propósitos. Há nudez, tanto masculina como feminina, em todas as HQs curtas presentes no álbum, mas tudo foi desenhado de forma mais artista, embora não menos provocante e excitante. Dito isto, prossigamos!

Como nasci em 1982, alguns anos depois da publicação das histórias reunidas em Afrodite, não vivi aqueles anos tensos em que a criatividade dos artistas brasileiros tinha que passar pelo crivo da censura moralista. Como muitos da minha geração, sei de tal período através de relatos de terceiros, e tenho apenas uma noção bem superficial de como era difícil para escritores, quadrinistas, diretores de cinema e teatro produzir e levar sua arte para um grande público. Por isto, acho importante elogiar o prefácio espirituoso escrito por Alice Ruiz, que contextualiza a obra, descrevendo brevemente o cenário artístico da época em que suas histórias e as de Paulo Leminski foram escritas. Isto me ajudou muito a compreender a importância e significado de boa parte delas.

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Falando sobre as HQs em si, lendo-as com a mentalidade de hoje, muitas parecem até bobinhas e um tanto ingênuas. Como disse acima, personagens masculinos e femininos aparecem nus e fazendo sexo, mas tudo isto é mostrado por um viés mais poético, onírico ou mitológico. É quase como uma brincadeira de adultos escrevendo e desenhando histórias eróticas, mas com uma ingenuidade juvenil. Pelo menos esta foi a impressão geral que a maioria das histórias me passou, e creio – levando em conta o prefácio de Alice – que em parte era mesmo esta a intenção.

afrodite quadrinhos eroticos alice ruiz paulo leminski veneta resenha 2Mas alguns temas presentes em parte das histórias se destacam mais do que outros. Um deles é o feminismo, evocado tanto em histórias que procuram reforçar o valor das mulheres numa sociedade machista (“Ele precisa de mim até quando?“, “Uma carta para Rose“), como naquelas onde homens abusivos são punidos por desrespeitarem esse valor, muitas vezes pelas mãos da própria vítima do abuso (“Papel Principal“, “Fuga“, “Cobra com mulher” e “Eu sei o que ela está precisando…“). Por serem narrativas bem curtas, há nelas um esforço de levar o leitor a refletir a respeito do que leu, muitas vezes concluindo-as com uma pouco discreta lição de moral.

Essa valorização das mulheres também se faz presente em outras histórias menos cotidianas e mais fantasiosas. Na grande maioria delas há um cuidado notável de enfocar a figura feminina salientando a beleza de suas formas, sem apelar para o vulgar ou pornográfico. E tanto Alice como Paulo se beneficiaram de seus parceiros criativos, contando com a colaboração de alguns nomes respeitáveis dos quadrinhos nacionais, como Claudio Seto, Mozart Couto e Rodval Matias, os quais destaco por usarem um traço mais “renascentista”, muito adequado à tarefa de destacar as formas sensuais das mulheres que desenham. Não foi mero acaso a escolha deles. Todos desenham homens e mulheres com físicos mais idealizados, o que certamente influenciou a decisão de entregar aos três a missão de adaptar, com um toque de erotismo, a maioria dos mitos gregos recontados por Alice e Paulo.

afrodite quadrinhos eroticos alice ruiz paulo leminski veneta resenha 2Destaco ainda o trabalho de Júlio Shimamoto, que desenhou a maioria dos contos de terror do livro. Seu estilo mais solto, agressivo e carregado de nanquim combinou muito bem com eles. E o belíssimo trabalho de diagramação de Claudio Seto em “Sinal Verde para o Prazer“, que me lembrou o Guido Crepax de Valentina e o Steve Bissette de Monstro do Pântano, também merece menção honrosa.

Em seu conjunto, Afrodite cumpre seu objetivo: resgatar um período dos quadrinhos nacionais que merece ter sua importância reconhecida. Lamento apenas que os scans de algumas histórias não façam jus à qualidade da arte original, o que não atribuo a uma falha da Veneta, mas à resolução com que foram impressas originalmente (as tecnologias de impressão dos anos 70 não eram tão boas e precisas quanto as atuais). Ainda assim, a maioria das HQs foi impressa numa resolução em que é possível apreciar o detalhismo e capricho das artes mais elaboradas.

Pra quem gosta de conhecer um pouco da trajetória dos quadrinhos nacionais, e tem curiosidade em saber como nossos pais retratavam alguns tabus de seus tempos em forma de quadrinhos, Afrodite é uma leitura que certamente satisfará tais desejos. Mas, se você gosta de fantasia, terror, ou crônicas do cotidiano com um toque de erotismo, Afrodite também é uma leitura pra você, que talvez não satisfaça alguns de seus desejos, mas que sem dúvida despertará outros. Saciá-los é por sua conta. 😉


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afrodite quadrinhos eroticos alice ruiz paulo leminski veneta capaEditora Veneta

Capa dura

23 x 15,5 cm

112 páginas

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