[QUADRINHOS] Aâma – Volume 2: A Multidão Invisível (resenha)

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Verloc, Conrad e Churchill continuam sua investigação em Ona (Ji), a fim de descobrirem como o planeta foi afetado pelo misterioso Aâma neste segundo volume da premiada ficção científica de Frederik Peeters.

Apesar de encerrar o volume 1 (já resenhado aqui), e iniciar o 2º indicando que lidará com os conflitos internos entre grupo de cientistas colonizadores de Ona (Ji) e Verloc, Peeters logo muda o foco da história para explorar a paisagem alienígena do planeta que concebeu, e as consequências dos experimentos da Dra. Woland com o Aâma. É interessante como o autor usa essa exploração para criar uma rima temática, ao desvendar um pouco mais do passado de Verloc com sua esposa, e as consequências da concepção de Lilja, sua filha, mote da separação do casal.

aama-volume-2-editora-nemo-preview1Um dos temas centrais de Aâma, que é mais desenvolvido neste volume, é o contraste entre a criação natural e a criação artificial da vida. A primeira é exemplificada pelos flashbacks de Verloc, que revelam sua culpa indireta pela condição da filha – claramente portadora de Asperger, uma doença que, no futuro, parece rara por ser uma das que foram supostamente eliminadas com uso da gestação controlada por “fecundação assistida” e “nivelamento genético.” Uma das ironias do futuro imaginado por Peeters é que doenças de origem genética são tratadas como aberrações desconhecidas, com tratamentos dos mais variados, devido ao pouco conhecimento que ainda têm a respeito delas, devido à eliminação de problemas de nascença através de concepção assistida. É um mérito de Peeters usar o conflito de Verloc e sua esposa para apresentar o antigo e o novo método de concepção, assim como os problemas de interpretação e diagnóstico de doenças não mais existentes na realidade por ele imaginada. E também uma ótima a sacada que teve de contrapor o drama familiar de Verloc à mutação planetária de Ona (Ji).

aama-volume-2-editora-nemo-preview2Paralelo aos flashbacks de Verloc, vamos acompanhando sua missão exploratória em Ona (Ji), que representa as consequências de experimentos para gerar vida artificialmente, e acelerar sua evolução através da inoculação do Aâma em seu meio ambiente, constituindo um complexo ecossistema no planeta que, ironicamente, parece ter gerado um clone de Lilja a partir das memórias de Verloc – fato que não é confirmado neste volume, mas vem sendo sutilmente sugerido desde o volume anterior, o que incluiria o filme Solaris, de Andrei Tarkovsky, como uma das possíveis referências usadas por Peeters na elaboração de sua obra (do qual já escrevi uma crítica, que pode ser lida aqui, e que em 2016 terá o livro que o inspirou publicado no Brasil pela editora Aleph).

Importante também reparar em como Peeters vai sugerindo, a partir de pequenas pistas, que a própria atmosfera de Ona (Ji) está afetando o funcionamento do corpo de Verloc, que deixa de ser míope, tem sua agilidade aumentada, e seu processo de cicatrização acelerado e aperfeiçoado ao ponto de impedir que ferimentos deixem cicatrizes. Também é notável a mudança de personalidade de Myo, que de tímida e reprimida, passa a ser mais confiante e expansiva conforme avançam na exploração da nova fauna e flora de Ona (Ji). Tudo isto aumenta ainda mais a curiosidade do leitor a respeito da natureza do Aâma.

aama-volume-2-editora-nemo-preview3Além dessas pistas intrigantes que vai liberando aos poucos, Peeters causa fascínio nos personagens e no leitor ao apresentar cenários delirantes que, mais do que meramente exibirem seu talento como ilustrador, revelam um cuidadoso estudo do autor a respeito da evolução da vida em escala planetária. Toda a história é como uma excursão através dos vários estágios evolutivos da fauna e flora de Ona (Ji).

Tal fascínio e deslumbramento deve muito ao detalhismo da arte de Peeters, que segue provando que não tem preguiça de desenhar cenários, e faz isto sem permitir que seu detalhamento polua visualmente as cenas. É tudo muito preciso no traço do artista, e pensado em prol da ambientação e de dar credibilidade aos panoramas futuristas e paisagens alienígenas. Seu cuidado em elaborá-los é tamanho, que tudo parece ter uma função, mesmo que não saibamos qual é. Isto faz o mundo de Aâma parecer que possui uma vida independente do leitor e do autor/artista, tornando crível o universo da obra. E ajuda muito que a arte de Peeters tenha um aspecto visual muito táctil, capaz de sugerir texturas, pesos, aromas e sons para seu mundo, com poucas palavras e imagens, e que o autor tenha sensibilidade o bastante pra dar espaço a cada um deles, por exemplo, deixando muitas vezes que as imagens contem a história sem o auxílio do texto, e vice-versa. É um mestre em sua arte, em todos os aspectos, como pode ser constatado nas imagens abaixo:

E por mais que seja um recurso narrativo batido, o fato de Verloc e Churchill terem lacunas em suas memórias de acontecimentos recentes, tal artifício cumpre muito bem a função de aumentar o suspense e a imprevisibilidade da história.

aama-volume-2-editora-nemo-preview4Nas mãos de Peeters, o tempo adquire elasticidade. O autor monta a cronologia conforme a ordem que melhor impacte no leitor e o impulsione na leitura, movido pelo interesse em descobrir o que levou os personagens a um estado que vem revelando aos poucos desde o volume 1, porém sem revelar inteiramente a cadeia de eventos que conduziram a eles. Assim, Peeters brinca com a necessidade de nos recompensar pela atenção a sua obra, ao mesmo tempo que nos tornando reféns de sua história, atiçando nosso apetite por mais respostas. Tudo isto é feito de maneira muito equilibrada, não passando, em nenhum momento, a sensação de que Peeters está ganhando tempo e nos enrolando com mistérios vazios.

aama-volume-2-editora-nemo-preview5Se na edição anterior Peeters demonstrou sua habilidade para criar sequências de ação empolgantes, nesta ele dá outra aula de narrativa em quadrinhos na sequência carregada de suspense e tensão em que joga seus personagens no meio de um nevoeiro, cercando-os com uma “multidão invisível” de seres hostis. Sem dúvida um dos grandes momentos dos quadrinhos recentes.

E na última de suas decisões acertadas, Peeters conduz o leitor do fascínio e espanto provocados pela descoberta de um novo mundo, ao horror puro na conclusão de mais este capítulo, que por si só já tornou Aâma uma das melhores HQs de ficção científica desta década, e merecedora de todos os prêmios que já recebeu até aqui.

Que fique aqui registrados meu grande respeito e admiração pela obra, e meu desejo de ter em mãos logo os volumes 3 e 4, já lançados na França. Acelera aí, Nemo, que tá difícil conter a ansiedade!

aama-volume-2-a-multidao-invisivel-frederik-peeters-editora-nemoAâma – Volume 2: A multidão invisível

Título original: Aâma 2 – La multitude invisible
Roteiro e arte: Frederik Peeters
Tradução: Fernando Scheibe
Número de páginas: 88
Formato: 20 x 28 cm
Acabamento: brochura
Editora: Nemo
Data de publicação: 24/07/2014

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nota-5