[QUADRINHOS] Aâma – Volume 1: O Cheiro da Poeira Quente (resenha)

aama-volume-1-verloc-e-conrad-nave-bolha

No início de 2014 a editora Nemo publicou o 1º dos 4 volumes da minissérie de ficção científica suíça Aâma, com roteiro e arte de Frederik Peeters. A trama apresenta um misto de mistério, breves comentários sócio-econômicos, e uma realidade em que as viagens espaciais permitiram à humanidade colonizar outros planetas. É este volume que analisarei aqui.

Num primeiro momento, Aâma lembra uma mistura do universo de Star Wars com o de Blade Runner. Nas cenas ambientadas em Radiant, onde Verloc reencontra seu irmão Conrad, e conhece Churchill, um macaco-robô especializado em combate corpo-a-corpo, somos apresentados a um mundo em que seres humanos e aliens humanoides usando implantes tecno-orgânicos, nanorobôs e veículos espaciais fazem parte do mesmo contexto multicultural de decadência social, falta de saneamento básico e sobrecarga sensorial, resultante do caos sucateado e multicolorido por luzes que tentam distrair os transeuntes do ambiente opressivo do nível 1, o mais baixo e insalubre da metrópole.

Churchill entrando em ação

Churchill entrando em ação

Ainda sobre as tecnologias citadas em Aâma, chama atenção a escolha de Peeters em tornar tudo mais implícito, pouco mostrando dos aparatos em si, mencionando-os apenas em diálogos. É quase como se ele estivesse criando com a HQ um de storyboard para um filme sci-fi de baixo orçamento, mais calcado nos conceitos do que no aspecto visual deles.

Outro detalhe que o autor deixa mais subtendido do que claramente explicado são as circunstâncias que levaram à Grande Crise, acontecimento recente que afetou toda a economia do mundo natal de Verloc e Conrad. Peeters preferiu focar-se em seus personagens ao invés de aprofundar-se no contexto sócio-econômico do qual fazem parte.

A estrutura narrativa de Peeters usa o velho recurso de um protagonista amnésico, no caso Verloc, para apresentar o mundo e os demais personagens. Com isto ele já nos joga num mundo cheio de mistérios, que provocam nossa curiosidade. Como escritor, Peeter é muito hábil com as palavras, o mesmo podendo ser dito de sua narrativa gráfica. Um bom exemplo são as quatro páginas que ele usa para resumir os acontecimentos recentes na vida de Verloc, sem com isto entregar tudo a respeito do personagem, fazendo o leitor simpatizar-se com ele em pouco tempo, e interessar-se por seu passado e futuro. Usando flashbacks dentro de flashbacks para explorar a relação entre Verloc, Conrad e Churchill, Peeters faz isto com desenvoltura, usando a livre associação e o fluxo de consciência do narrador para dar dinamismo à trama.

Além de todos os mistérios estabelecidos no início, Peeters ainda levanta outros quando apresenta o grupo de colonos de Ona (Ji), planeta para o qual Verloc viaja com seu irmão Conrad e o simpático robô-macaco Churchil. Conforme nos inteiramos da situação, mais mistérios se acumulam, tornando impossível ao leitor conter a curiosidade para acompanhar os próximos volumes da série. Neste ponto da trama, Peeters novamente demonstra habilidade e economia no uso das palavras, ao traçar os perfis dos cientistas presos no planeta com base nas observações de Verloc. Isto também contribui para preservar a fluidez da narrativa e o interesse do leitor por seu desenrolar. 

aama-volume-1-chegando-em-ona-ji

Conrad e Verloc chegando em Ona (Ji)

Sua narrativa visual é tão competente quanto a verbal. Os desenhos de Frederick Peeters lembram os de Katsuhiro Otomo, tanto pelo detalhamento dos cenários, como pela expressividade dos personagens. A capacidade de Peeters dizer muito sobre o caráter deles através de sua arte, que é muito limpa e direta, é impressionante. Podemos enxergar nuances de expressões faciais e corporais neles, que tornam a experiência de leitura mais rica, e os personagens mais críveis e tridimensionais.

As cenas em que Verloc tem seu primeiro contato com a superfície de Ona (Ji) evocam a sequência da “Alvorada do Homem” de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, quando vemos o mundo como uma paisagem bela e intocada pela espécie humana. Tais trechos evidenciam o talento de Peeters como ilustrador. Sua arte transmite magnificamente todo fascínio do explorador de um novo mundo, que é impresso com sensibilidade nas expressões dos personagens, e no aspecto alienígena que dá às paisagens, combinando cores de forma a causar uma leve estranheza no leitor. Nestes trechos as escolhas de enquadramentos panorâmicos de Peeters denunciam forte influência de faroestes em seu trabalho. 

aama-volume-1-colonia-de-ona-ji

Por tratar-se de uma série já planejada para durar 4 volumes, este primeiro pode ser um tanto frustrante pra quem espera algum tipo de conclusão. Peeters não faz o menor esforço para responder a maioria das perguntas que levanta ao longo da trama, deixando para explorá-las nos 3 volumes restantes. Além disto, a história termina sem um grande gancho. Ainda assim, é uma leitura que compensa muito. Primeiro porque é uma ficção científica produzida por um suíço, que nos permite conhecer uma abordagem diferente de um gênero que já conhecemos. Segundo, porque Peeters tem um desenho muito bonito de se ver. E terceiro, porque é um ótimo autor, que merece ter sua obra conhecida, e outros trabalhos publicados no Brasil. Portanto, recomendo, e sugiro comprar juntos os dois primeiros volumes que já saíram, e começar a torcer para o terceiro sair logo.

aama-volume-1-o-cheiro-da-poeira-quente-frederik-peeters-editora-nemoAâma – Volume 1: O cheiro da poeira quente

Título original: Aâma 1 – L’odeur de la poussière chaude
História e arte: Frederik Peeters
Tradução: Fernando Scheibe
Nº de Páginas: 88

Formato: 20 x 28 cm
Acabamento: brochura
Editora: Nemo

Compre aqui

nota-4

One thought on “[QUADRINHOS] Aâma – Volume 1: O Cheiro da Poeira Quente (resenha)

  1. Pingback: [QUADRINHOS] Aâma – Volume 2: A Multidão Invisível (resenha) | NERD GEEK FEELINGS

Comments are closed.