[QUADRINHOS] A Vida Secreta de Londres, de vários autores (resenha)

Um breve passeio por Londres à companhia de Moore et al
(sem o dedo mindinho esticado para chá, porque ele foi cortado)

A vida secreta de Londres” foi como um tiro, um golpe de foice ou faca. Você pode escolher. A cada conto ou HQ, uma sucessão de pancadas de martelo na cabeça. Organizado por Oscar Zarate, publicado pela editora Veneta, a coletânea reúne Josh Appignanesi, Steve Bell, Dix, Stella Duffy, Jonathan Edwards, Carl Flint, Neil Gaiman, Melinda Gebbie, Graeme Gordon, Toni Grisoni, Chris Hogg, Stewart Home, Ilya, Garry Marshall, Dave Mackean, Alan Moore, Woodrow Phoenix, Warren Pleece, Alexei Sayle, Iain Sinclair, Yana Stajno, Carol Swain, Chris Webster, Oscar Zarate, que fazem das palavras e imagens, prego agudo e concreto seco. A antologia não salienta apenas a geografia londrina, mas espelha o imaginário emblemático traduzido na mente dos autores, resultado, creio eu, de décadas de urbanização intensiva.

Eis o mapa. Esta é a cidade perdida entre o senso materialista e psíquico. Onde qualquer percepção mística dobra-se ao desejo de qualquer homem rico o suficiente para não existir, e que anseia manter relações com um jovem pertencente ao lendário povo Shahinai. Nem mesmo a mágica, recorrente na escrita de Neil Gaiman, rompeu a máscara de Londres, mas delineou oportunamente o vazio que reside sob ela em A Corte (os personagens aparecem no conto Lembranças e Tesouros, de Coisas Frágeis).

Entre as vinte e duas obras que compõem, não falarei das que mais gostei, mas das que me atingiram de modo mais violento. Aviso, porém, que daqui até o penúltimo parágrafo darei breves spoilers.

A segunda foi a HQ Congelado. Logo no início, a anatomia de personagens cabeçudos desenhados por Carl Flint me provocou estranhamento e riso. A história é sobre um rapaz chamado Alex que, a princípio, pretendia ser modelo para esculturas, e é induzido a fazer um serviço extra: beber muitos litros de água e produzir urina a mando da artista do ateliê para uma finalidade curiosa. Neste tempo em que os conceitos artísticos não têm mais o que transgredir, o conto denota efetivamente o que a alta arte moderna tem se tornado.

A segunda obra é Dançando com a morte. Trata-se da história de Jason, rapaz solitário que trabalha como atendente em um bar. Espécie do já velho arquétipo heroico moderno de jovem viciado em drogas que deseja ser ouvido pelo mundo através da sua música. Seria aquela uma noite de sorte, quando encontrou uma garota no banheiro repleta de cicatrizes nos pulsos… Seria pura sorte, se, ao final, enquanto faziam sexo asfixiante em seu quarto, ele tivesse pagado a conta de luz, ao invés de usar uma vela para iluminar a casa.

Em Come down town, HQ de Carol Swain, o detetive Lahr investiga uma série de vandalismos seriados praticados pelo que parece ser um artista revoltado, algo do gênero. O vândalo tem como alvo livrarias e pontos históricos que, aparentemente, ele julga promover arte elitista e superficial. Agindo como carrasco revolucionário, condena, sob o peso de seu elevado e anônimo arbítrio, toda aquela arte literária a ser encoberta pela tinta preta, censurando livros e nomes proibidos por sua vontade absoluta.

O Corpo, HQ de Ilya, trata da história da obsessão de um médico legista por um cadáver hermafrodita encontrado boiando de bruços no Regent’s Canal. Pesado.

A guerra de Penge foi o conto de que mais gostei. Trata-se da história de Pinkie, primo de Pieface, que aos doze anos roubava conteúdos da loja de sua mãe para construir uma maquete do Deserto Ocidental da Líbia em 1942. O propósito de tal empreitada não era mais que destruí-la. Tragicamente cômica e bem contada história.

A arte visual de que mais gostei foi a de Chris Hogg em Exibicionismo no Parque. A HQ é a breve cena de uma jovem que passeia com seus cães no parque quando é repentinamente abordada por um homem que se despe para ela. O final é bastante trivial, entretanto, inusitado.

Há alguns contos de caráter mais expositivo do que narrativo, que tratam do panorama “geo-histórico” de Londres. Destaco aqui Highbury de Alan Moore e Centre Point, que escapam do gênero e estilos pelos quais ambos foram reconhecidos internacionalmente. Em suas breves crônicas, eles traçam os aspectos lúgubres das propriedades e residências, vielas escuras e construções, explorando fatos sem protagonistas tão importantes quanto a lápide de um Karl Marx, ou o fedor dos esgotos a subir pelos bueiros.

E se me perguntarem qual a história mais louca, eu diria, a bem da verdade, que não é bem uma história, mas a arte gráfica hermética, também feita com corte e colagem de fotos, chamada O ovo do Grifo, seguido pelo conto que julguei ser uma conclusão metalinguística de Iain Sinclair. Não ouso aqui interpretar algo além. Veja por si só. Creio que agradará aos entusiastas de HQs alternativas.

Minha impressão foi que “A vida secreta de Londres” manteve sua unidade e proposta. É uma obra bastante diversificada. Acho que poderá servir de catálogo aos futuros leitores para degustar as principais impressões acerca do imaginário da urbanidade londrina do nosso tempo. De inusitado (e não surpreendente) achei o poema concreto O Museu da solidão, de Chris Petit. Já Capital do Crime, poema de Moore que finaliza a antologia, não posso dizer se achei entediante, mas não leria novamente, talvez por estar “mal acostumado” com sua notável HQ Do Inferno etc. etc.


Editora Veneta

Tradução: Alexandre Boide

Brochura

27,6 x 20,6 x 1,6 cm

176 páginas

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