[QUADRINHOS] “A Última Bailarina” de Guilherme de Sousa (resenha)

a ultima bailarina guilherme de sousa painel

Laurita, Leo e Fifo não são exatamente amigos, e nem mesmo uma família. Mas uma circunstância extrema leva o trio a se unir para sobreviver. Juntos, uma menina vestida de bailarina, um unicórnio gay e um ursinho de pelúcia boca suja terão que enfrentar um apocalipse zumbi!

Com esta premissa que chega a ser o cúmulo do inusitado, Guilherme de Sousa – de Quer dançar? (resenhada aqui) – construiu a trama de um dos quadrinhos mais criativos lançados recentemente: A Última Bailarina.

a ultima bailarina guilherme de sousa preview 1Embora a combinação de personagens tão contrastantes com o cenário de uma epidemia de mortos-vivos seja inédita, Guilherme os retratou com um visual bem cartunesco e estereotipado. A inteligência da abordagem reside nas oportunidades que ele cria e aproveita para escrachar os estereótipos representados por cada um deles.

Laurita lembra uma mistura da Dee Dee de O Laboratório de Dexter com a Felícia de Tiny Toons, e tem uma inocência que beira o patológico, e que a todo momento ameaça a sua segurança e a de todos os demais. Já Fifo lembra uma versão mais bad ass do Ted, com a personalidade de um pistoleiro calejado interpretado pelo Clint Eastwood, que é sugerida tanto por suas atitudes como pelo tapa-olho que usa, cujo motivo jamais é explicado (volto a falar dele mais adiante). E Leo é um unicórnio viado [desculpa o termo chulo, mas foi irresistível demais fazer essa piada (Ah, quer saber?! Desculpa porra nenhuma! Estou resenhando uma história politicamente incorreta!)].

a ultima bailarina guilherme de sousa preview 3O clima geral da história lembra uma versão para adultos das animações do Cartoon Network – influência também presente em Quer Dançar? – como Coragem – O Cão Covarde e As Terríveis Aventuras de Billy e Mandy, por exemplo.

A impressão que temos é de que estamos lendo um crossover entre um desenho animado infantil, um filme de terror e uma comédia para adultos. E Guilherme conseguiu transitar entre estes gêneros e combiná-los com maestria, sem soar forçado na execução. Seu traço caricato e suas cores vivas são os responsáveis por integrar tudo isto num cenário coeso e divertido.

Grande parte da diversão está na dinâmica entre os personagens. A inocência de Laurita interagindo com a magia afetada de Leo, e ambos tendo que lidar com o pessimismo e pragmatismo de Fifo gera situações muito engraçadas. Entre os três quem se destaca é, obviamente, Fifo, que assume o papel de líder da resistência contra o cerco de zumbis à casa onde se protegem da infestação. Ele por si só é um personagem tão contrastante quanto a combinação do trio: um ursinho de pelúcia com a personalidade de um militar impaciente, linha dura, e com um arsenal de armas e palavrões pra deixar qualquer herói de ação dos anos 80 com inveja.

E você tem que respeitar um sujeito que cita Sun Tzu, Dostoiévski e Stallone Cobra enquanto desmembra sozinho dezenas de zumbis com um machado em um sótão.

Nem preciso dizer que já estou esperando por uma aventura solo do Fifo, né?

Nem preciso dizer que já estou aguardando uma aventura solo do Fifo, né?

Os zumbis são só um artifício para gerar toda a tensão e as circunstâncias que forçam os três a conviverem num mesmo ambiente. O melhor da história é mesmo as situações que vão se desenvolvendo entre eles. Por exemplo, embora não se entendam no início, Fifo e Leo acabam substituindo os pais ausentes de Laurita. Embora não sejam exatamente um, eles não ficam muito distantes de um casal gay, o que me fez lembrar da dupla Timão e Pumba criando Simba em O Rei Leão.

a ultima bailarina guilherme de sousa preview 2Mas é claro que, apesar de ser mais movida pela interação dos três, há homenagens a histórias famosas de zumbis, como A Noite dos Mortos-Vivos e a série The Walking Dead, as quais são muito bem feitas e divertidas.

Minha única crítica é sobre o meio da história, que ficou um tanto episódico, quebrando um pouco da continuidade do início, ao focar em situações isoladas envolvendo os personagens, ao invés de manter um desenvolvimento mais contínuo da trama. Mesmo que a premissa em si permita alguns momentos de humor non sense, uma coesão maior no seu desenrolar a tornaria ainda melhor. Mas acontece que eu sou meio chato pra esse tipo de coisa, e nem dá pra considerar estes detalhes como erros. Essa fragmentação da continuidade acaba servindo ao propósito de transmitir a monotonia do confinamento do trio, e parte de seu cotidiano dentro do cenário extremo que os cerca. No ato final, Guilherme retoma uma continuidade mais linear, alternando entre as interações de Laurita e Leo e a aventura solo de Fifo contra os zumbis do sótão. Ou seja, basicamente esse parágrafo inteiro foi você aturando minha frescurite. Meus parabéns se conseguiu chegar até aqui! 😀

a ultima bailarina guilherme de sousa fifo preview 1A Última Bailarina termina com um baita gancho pra uma continuação, além de deixar margem para histórias anteriores aos eventos retratados (por exemplo, explicar qual é a do tapa-olho do Fifo). Além disto, devo dizer que o Guilherme foi bem safado ao prometer na capa uma situação que sequer ocorre na história [Sim, esse spoiler foi de sacanagem mesmo, Guilherme. Mas somos amigos de Facebook, então qualquer coisa a gente se acerta por lá! *crec! (isto fui eu estalando os dedos)]. Ou seja, ele praticamente obrigou-se a criar novas histórias no universo maluco que concebeu. Então faça o favor de nos fornecer mais! >.<

É isto, meus caros! Eis mais uma recomendação de outra obra do Guilherme de Sousa, que por sinal está concorrendo este ano a duas categorias do HQ Mix: melhor novo talento (roteirista) e melhor publicação independente (edição única). Portanto, o rapaz não é pouca bosta não! É MUITA BOSTA! (Malzaê pelos palavrões, cara, mas foi por influência do Fifo! 😛 )

A Última Bailarina é vendida com exclusividade pela Korja dos Quadrinhos. Compre aqui seu exemplar!

nota-4