[QUADRINHOS] A Torre Negra: a expansão do Multiverso de Stephen King em quadrinhos

torre-negra-em-quadrinhos-jae-lee

Semelhante ao universo de Star Wars criado por George Lucas no cinema, o Multiverso conforme concebido por Stephen King na série literária A Torre Negra, e outras de suas obras, faz parte de uma mitologia complexa e expansível, conforme foi muito bem explicado por esta série de artigos de Fernando Sacchetto.

torre-negra-nasce-o-pistoleiro-objetivaTal característica atraiu a atenção da Marvel Comics, que em fevereiro de 2007 publicou a primeira edição da minissérie A Torre Negra: Nasce o Pistoleiro, que saiu no Brasil pela Panini Comics em fevereiro de 2008, e foi reunida num encadernado publicado pela Objetiva em 2010.

A trama da minissérie, contada em 7 edições, era uma adaptação em quadrinhos do longo flashback de  Roland Deschain que ocupa boa parte de Mago e Vidro, volume 4 da série “A Torre Negra”, e narra a primeira e trágica missão de Roland e seu primeiro ka-tet, formado por ele e seus amigos de infância  Alain Johns e Cuthbert Allgood.

“Nasce o Pistoleiro” não apresentava grandes novidades a quem já havia lido a série de livros, exceto pelo fato de conferir uma versão condensada do episódio narrado na obra de King, visualmente bela graças aos desenhos de Jae Lee e as cores de Richard Isanove. Um outro ponto positivo é o fato da HQ, apesar de não ser escrita por King, ter sido aprovada por ele, o que garante aos fãs da obra fidelidade visual aos mundos e personagens imaginados pelo escritor. O argumento ficou por conta de Robin Firth, assistente de pesquisa de King, e autora de dois livros que compõem uma enciclopédia do universo apresentado na série A Torre Negra, portanto, alguém que o entende a fundo, enquanto os roteiros foram escritos por Peter David, um experiente autor de quadrinhos responsável por uma longa fase de histórias do Hulk, que atualmente escreve série All-New X-Factor para a Marvel.

O trunfo dos autores da primeira minissérie em quadrinhos foi aproveitar que estavam partindo do início da jornada de Roland Deschain como herói trágico do Mundo Médio, e torná-la um ponto de entrada àquele mundo também para quem ainda não havia lido os livros de King. Portanto, ela também funciona pra quem não é “iniciado” no universo da Torre Negra, embora proporcione uma experiência de leitura mais rica para quem o conhece dos livros.

torre-negra-nasce-o-pistoleiro-pagina-1

Roland e seu ka-tet contra os Caçadores do Grande Caixão

Graças ao sucesso da primeira minissérie, a Marvel deu continuidade a ela, com a mesma equipe criativa da primeira, e foi neste ponto que a versão em quadrinhos ficou mais interessante. Em março de 2008, foi publicada a minissérie O Longo Caminho Para Casa, que abordou um período da vida de Roland e seus companheiros não detalhado por nenhum dos livros de King. Assim, a experiência de leitura tornou-se uma novidade tanto pra quem já havia lido a série literária, como pra quem só estava acompanhando os quadrinhos daquele universo.

torre-negra-o-longo-caminho-para-casa-objetivaEm “Longo Caminho”, como o próprio título já adianta, é narrada a viagem que Roland, Alain e Cuthbert fazem de volta para Gilead, após os trágicos acontecimentos de Hambry, apresentados na primeira minissérie. Na história os autores aproveitaram para explicar melhor o efeito da Toranja de Merlin, que Roland levou consigo após tomá-la da bruxa Rhea em Hambry. Semelhante à esfera que Merry olha em O Retorno do Rei, e que o conecta com Sauron em Mordor, a Toranja projeta a consciência de Roland para mais perto do Rei Rubro, numa outra dimensão, que parece ter ligação com o mundo dos espíritos, pois ele encontra fantasmas dos Caçadores do Grande Caixão, que ele matou na minissérie anterior, e é torturado por Marten Broadcloak, o Homem de Preto.

Um dos pontos dos livros que a minissérie explica é como os poderes telepáticos, de teletransporte e fator de cura de Sheemie foram despertos depois dele separar-se de Roland e seu ka-tet em “Nasce o Pistoleiro.” Ele se revela essencial para ajudar Roland a libertar-se da dimensão da Toranja.

Outra informação da mitologia d’A Torre Negra que é mencionada é o parentesco entre Roland e o Rei Rubro, que lhe revela que ambos são descendentes de Arthur Eld.

Roland encontra o Rei Rubro na dimensão da Toranja de Merlin

Roland encontra o Rei Rubro na dimensão da Toranja de Merlin

Capa A Torre Negra Vol 3.inddNo mesmo ano saiu a terceira minissérie, “Traição“, cujos eventos narrados ocorrem imediatamente após o fim de “Longo Caminho“. Nela continuam sendo explorados os efeitos da Toranja de Merlin na saúde física e mental de Roland, que torna-se obcecado pelo objeto por enxergar nele uma forma de descobrir onde está John Farson e os Caçadores do Grande Caixão remanescentes, a fim de vingar-se deles por tudo que fizeram em Hambry.

Paralelo a isto acompanhamos um grupo liderado por Steven Deschain, pai de Roland, que após declarar seu filho, Alain e Cuthbert oficialmente pistoleiros, graças às suas ações em Hambry, parte à caça de Farson e seu exército, com o intuito de impedi-los de atacar Gilead.

Como o próprio título da minissérie indica, ela inteira gira em torno do tema traição, em várias frentes. Temos a traição que Gabrielle, mãe de Roland, é forçada a cometer contra Steven, influenciada por Marten; e no grupo de Steven é revelado que há um agente infiltrado de Farson, pra tornar todo clima de Gilead extremamente tenso. Tudo isto acaba, no final, revelando-se um plano armado pelo Rei Rubro, que através de Marten e da Toranja de Marlin (que funciona como o Um Anel de Senhor dos Anéis, sobre a mente daquele que o possui) influência todas estas pessoas.

É em “Traição” também que vemos Roland ganhar de seu pai as armas de Eld, forjadas a partir do metal derretido da espada Excalibur de Arthur, antigo guardião da Torre Negra, e passada através das gerações da família Deschain, descendente direta de Eld, que casou-se com Emmanuelle Deschain (que é mencionada apenas nos quadrinhos e em The Dark Tower: Guide To Gilead, um guia do Mundo Médio lançado pela Marvel em 2009, escrito por Robin Firth, e inédito no Brasil).

O clímax trágico de “Traição” retoma o flashback mostrado no livro Mago e Vidro, quando Roland leva seu ka-tet atual (formado por Susannah, Eddie, Jake e Oy) para dentro da Toranja de Merlin, onde eles têm acesso à lembrança do dia em que Roland foi iludido pelo objeto a acreditar que sua mãe era a bruxa Rhea – que tanto o atormentou em Hambry, e provocou a morte de sua amada Susan Delgado – levando-o a matar sua mãe. Assim termina “Traição“, preenchendo mais uma lacuna dos livros de King.

A morte de Gabrielle Deschain pelas mãos de Roland

A morte de Gabrielle Deschain pelas mãos de Roland

Antes da minissérie seguinte, em abril de 2009, a Marvel lançou o especial “O Feiticeiro“, focado inteiramente no misterioso e multifacetado (literalmente) Marten Broadcloak, que tem sua origem e motivações exploradas. A história deu aos fãs da série uma chance de conhecer um pouco mais de um dos personagens mais enigmáticos da saga, e serviu de prólogo para o arco seguinte.

torre-negra-a-queda-de-gilead-objetivaEm maio de 2009 começou a sair a minissérie em 6 edições “A Queda de Gilead“, que detalhou as circunstâncias que levaram à morte de Steven Deschain e os pistoleiros liderados por ele, e à destruição da capital do Baronato de Nova Canaã, lar e cidade natal de Roland. A história ocorre imediatamente após o fim de “Traição“, e acompanha os turbulentos dias finais de Gilead, cujo moral é abalado pela morte de Gabrielle pelas mãos de seu próprio filho – numa tragédia digna de figurar numa obra de Shakespeare, devo dizer – , e seus pistoleiros tentam descobrir todo o plano por trás dos acontecimentos trágicos ocorridos na minissérie anterior, entre eles o sumiço da Toranja de Merlin, que estava dentro de um cofre dos aposentos de Steven.

A história revela que a derrota se deu muito rápido, graças às maquinações de Marten, que vinha plantando intrigas sorrateiramente em torno e dentro de Gilead, a fim de pegá-la desprevenida. Steven e os pais de Alain e Cuthbert são, um a um, mortos em várias emboscadas, e sua cidade é rapidamente cercada e atacada pelas tropas de John Farson. Os únicos sobreviventes são Roland, Alain, Cuthbert, Aileen – sobrinha de Cort, o treinador dos futuros pistoleiros de Gilead – e alguns garotos e garotas de Gilead, que abandonam a cidade fugindo pelos esgotos, numa clara metáfora à morte de uma geração e à ascensão de outra a partir das ruínas de um antigo reino perdido.

O cerco de Farson a Gilead

O cerco de Farson a Gilead

E aqui chegamos à última minissérie em quadrinhos da Torre Negra publicada no Brasil: “A Batalha da Colina de Jericó.” Pra quem leu apenas os livros sabe que este foi um momento decisivo na vida de Roland, pois foi nesta batalha que ele perdeu praticamente tudo que pertencia à sua vida anterior à formação de seu segundo ka-tet (cuja história acompanhamos nos 7 livros de King). É nela que seus companheiros Alain e Cuthbert morrem, e com eles a esperança dos remanescentes de Gilead impedirem o avanço de Farson sobre o Mundo Médio.

Capa A Torre Negra Vol 5.inddNos livros, Stephen King descreve apenas breves relatos do cerco de Farson ao que resta da Confederação dos pistoleiros, mas não a batalha em sua íntegra. Portanto, a minissérie oferece aos leitores dos livros uma visão rica em detalhes sobre o confronto, fazendo dela a história com mais peso dramático de todas as 5 minisséries iniciais lançadas pela Marvel. É, na minha opinião, a melhor delas, pois nela a equipe criativa demonstrou estar mais à vontade e em melhor sintonia para criar uma história que é mais deles do que de King, apesar de usarem como base os livros. O que não significa que se desviaram deles.

Apesar de terem começado como uma adaptação de um flashback do 4º livro da série, todas as 5 minisséries lançadas no Brasil até o momento servem como um prelúdio do 1º livro, “O Pistoleiro“, e podem ser lidas sem o risco de arruinarem a experiência de leitura de quem resolver deixá-los pra outra ocasião. Elas cumprem muito bem a tarefa de introduzir o leitor a vários conceitos, personagens e cenários fundamentais para entender o funcionamento do universo onde se passa a série, apresentados não apenas pelas histórias em quadrinhos, mas também por vários extras no final de diversas edições, que revelam mais detalhes sobre a história do Mundo Médio, suas lendas, seus personagens mais importantes, e assim por diante. Além disto, ela enriquece a experiência de quem leu os livros primeiro, pois há muitas passagens adaptadas pelos quadrinhos que são rapidamente mencionadas neles, e vice-versa.

A batalha final do 1º ka-tet de rolando na Colina de Jericó

A batalha final do 1º ka-tet de Roland na Colina de Jericó

Minha única crítica com relação aos quadrinhos diz respeito à arte de Jae Lee. Apesar de ter um traço fotorrealístico sombrio que casa muito bem com o mundo pós-apocalíptico retratado, e de ele ter se saído muito bem ao unir os elementos de faroeste, ficção científica e magia da história (mistura que certamente serviu de inspiração para Jonathan Hickman criar a série em quadrinhos East of West – mais detalhes sobre ela aqui), em alguns momentos seus desenhos carecem de mais dinamismo e expressividade em cenas que necessitavam de passar a ilusão de movimento, ou uma expressão facial e corporal mais condizente com a dramaticidade do que é vivido ou dito pelos personagens. Mas isto não chega a comprometer a experiência de leitura, e conforme a história avança, seu traço vai entrando em maior sintonia com o texto e as situações que retrata.

As edições avulsas lançadas pela Panini são mais difíceis de achar pra comprar, mas pode ser que dê pra encontrá-las em sebos, se você for persistente o bastante. O mesmo pode ser dito dos primeiros encadernados da editora Objetiva, mas estes são um pouco mais fáceis de achar. Se você é fã de faroeste, fantasia, ficção científica, terror, e misturas inusitadas de gêneros que parecem não funcionar num primeiro momento, mas que se casam muito bem nas mãos de autores talentosos, vale a pena investir uns trocados nos quadrinhos, e depois encarar os livros de King. Ou começar pelos livros e depois explorar os quadrinhos. Você decide!


Compre aqui obras de Stephen King!

One thought on “[QUADRINHOS] A Torre Negra: a expansão do Multiverso de Stephen King em quadrinhos

  1. Muito legal, eu vou comprar os encadernados em capa dura. Gosto muito de ler romances ( texto apenas ) e de HQS, sou iniciante e comecei com as obras da DC e Marvel, mas estou vendo também outras editoras como Vertigo e encontrei esses encadernados do King.

    Site muito bom, parabéns.

Comments are closed.