[QUADRINHOS] A Revolução dos Bichos – Todas as Ditaduras do Mundo.

Li, poucos dias antes das tão polêmicas eleições no Brasil, o clássico da literatura mundial “A Revolução dos Bichos“.

Na verdade, devo dizer que foi uma releitura: Eu já havia lido o livro original “Animal Farm” anos antes.

Também não foi uma leitura comum da obra em si, já que a edição que recebi da Companhia das Letras foi uma versão em quadrinhos magistralmente “reconstituída” (sim, esta é a palavra).

A adaptação – feita pelo quadrinista gaúcho Odyr (Guadalupe) – consegue colocar em imagens, que muito se assemelham a uma técnica mista de aquarela com pintura a óleo, todos pequenos eventos, diálogos importantes, e reviravoltas da tão fantástica história de George – God bless him – Orwell.

Eis um agradecimento que devo fazer à Cia das Letras: Possibilitar esse contato com uma adaptação tão bem-feita, capaz de fazer o sangue ferver. O gosto, tanto nos quadrinhos, quanto no livro, é amargo como o de um remédio para doenças graves.

O título (e tratarei assim, já que faço remissão tanto ao livro quanto à HQ) fala da Granja do Solar, no interior da Inglaterra, em cujas terras animais eram explorados em um trabalho incessante e cansativo, até o último fio de força, precisando viver de cotas reduzidas de ração.

Após muitos anos de exploração, o Velho Major, um dos porcos (já bem avançado em idade), incita em seus amigos animais e companheiros de sofrimento, a centelha da revolta. Em um discurso inflamado, o Porco deixa clara a situação gritantemente abusiva que os animais vêm sofrendo. Os companheiros de pelos e penas, igualmente inflamados e cansados da servidão sem-fim, não apenas concordam com o ancião, como, animados, entoam um hino de revolta e decidem fazer algo para mudar sua miserável situação.

O que acontece a partir daqui é spoiler. Então, caro leitor, vá em frente por sua conta e risco!

Se quiser saber o que acontece, clique aqui!

Após um episódio de confronto físico, os animais conseguem, organizadamente, colocar para fora da Granja o seu maior tirano, e dono original das terras: Mr. Jones.

Os animais vencem, a história está a favor da minoria oprimida e massacrada por anos a fio. Mas, como para cada coisa deve-se estabelecer uma ordem, líderes são determinados (notem que eu não disse que eles foram exatamente escolhidos).

A partir da semente plantada pelo Porco Major e da consequente vitória, dois outros porcos, Bola de Neve e Napoleão, passam a liderar a revolta.

Em um primeiro momento, mandamentos são impostos e as leis, pelo menos para animais, são numerosas.

Os animais, contudo, enxergam um progresso visível, posto que trabalham por si e para si. Há o projeto de criação de um moinho, que gera grande esforço aos maiores, mas isso não parece ser problema.

Os porcos, detentores do poder intelectual que encaminhou aquela pequena parte de “sociedade” à revolução, claramente não trabalham, pois precisam muito ter energias poupadas para o exercício intelectual. Mas tudo bem.

A ração, antes reduzida por Mr. Jones, passa a ser mais farta, mas só até certo ponto. O leite, contudo, começa a desaparecer. Logo, se descobre que não houve desaparecimento de coisa alguma: Bola de Neve, Napoleão e outros suínos à frente do comando, explicam a seus camaradas trabalhadores braçais que se apropriaram do leite, para misturar à própria comida (apenas dos suínos), já que o exercício intelectual exige um esforço absurdo, e uma alimentação mais completa fará toda diferença.

O trabalho continua aumentando, mas parece justo que todos trabalhem de sol a sol, ou sob a neve. Afinal, o Solar dos Bichos (renomeado, como todo fruto de revolução deve ser) precisa de uma grande força motriz, que faça com que a pequena granja seja sempre muito próspera.

Sansão, o cavalo mais forte e trabalhador de todos, crê em seus líderes e companheiros. Aprende vagarosamente a ler com outros animais, e labuta sem questionar. Afinal, está tudo indo muito bem.

Os animais que sabem ler começam a achar estranho que os mandamentos, escritos em uma parede de madeira de um galpão, pareçam cada vez mais resumidos. Mas nada parece realmente ameaçador.

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Agora sim, livres de Spoilers, continuemos.

O tom não ameaçador das coisas fecha um ciclo perfeito que precisa ser iniciado com uma revolução totalitária.

George Orwell (escritor do maravilhoso e indispensável 1984), nos descreve por meio de uma fábula – literalmente, já que temos animais humanizados – o que aconteceu durante a Revolução Russa.

Claramente, temos a figura de Karl Marx em Major, que deixa uma ideologia na qual nunca é realmente inserido em termos práticos. Ou seja: há o levante intelectual, mas não há envolvimento na luta.

Napoleão e Bola de Neve, e toda sua interação – estou tentando não dar spoilers – representam todo o jogo político de Stalin e Lenin.

Os animais, que encontram situações diversas (eu juro que estou tentando não dar Spoilers, embora o próprio título já o faça) representam o povo, em castas mais ou menos preservadas de tiranias e autoritarismo.

Se quiser saber sobre o final do livro, clique aqui!

Quando, no fim, Napoleão apresenta-se como homem, anda em duas patas, negocia com homens e bebe vinho, as sobras da revolução falida são muito claras. Não apenas isso: como se já não fosse o suficiente o seu nível de tirania, Napoleão engana os camaradas animais e manda Sansão para a execução, com a desculpa, muito conveniente, de que o velho Ginete será tratado por um veterinário.

Nesse momento específico, foi difícil não lembrar UM POUCO de DJANGO Unchained, quando o protagonista, não mais guiado pelo amigo Schultz, mata a elite branca escravista, porém, não sem antes tornar-se uma espécie de cópia de Calvin (Leonardo DiCaprio, no papel que deveria ter-lhe valido o Oscar).

É difícil, mas é mister o cuidado em não se tornar aquilo que mais se abomina.

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Orwell escreveu Animal Farm, A Revolução dos Bichos ou O Porco Triunfante, assim como o fez em 1984, como uma forma de protesto inteligente, e muito bem calculado, contra todo e qualquer regime totalitário. Não sei se seria exagero dizer que, no discurso de Orwell, cabem todas as ditaduras do mundo: Desde aquela que berra aos 4 cantos que trará igualdade a todos, valendo-se disso para conquistar um poder que não será usado para promover igualdade alguma; até aquela ditadura que se instala por meio de institutos conservadores extremistas (importante salientar isto), repreendendo o pensamento livre demais. Afinal, tudo que é livre pode perder os freios. Os escravos eram acorrentados para não correr, certo?

Da ditadura que mata de fome a própria população, à ditadura que tortura os perigosíssimos revolucionários com ratos (será que estou citando apenas 1984?), Orwell esmaga os argumentos de qualquer governo autoritário com o poder imersivo e genial de suas palavras, capazes de prever futuros remotos.

Não sei de que lado você, caro leitor, está nesta briga de torcidas a que se reduziu o pensamento no Brasil, e que tem deixado comprometidas relações comerciais, familiares, acadêmicas e fraternas, etc. Mas talvez você esteja aqui pelo apelo do medo à ditadura, seja ela qual for. Venha de quem vier.

Se Orwell esteve certo o tempo todo, o mundo anda na contramão do pensamento. A Primavera Árabe ainda tenta terminar seu trabalho de fazer florescer todas as flores (iniciado com a Jasmin de Bouazizi, na Tunísia), mas o ocidente parece cada vez mais dividido entre amigos de ideologia e inimigos mortais, direita e esquerda, petralhas e fascistas (este último, no caso do Brasil – onde a grande maioria usa o termo sem saber o real significado dele)… You name it.

George Orwell estava mesmo certo?

Mais do que todos os professores de história que conheci (com todo respeito aos meus professores). Mais do que analistas políticos, comentaristas de atualidades, intelectuais midiáticos…

George Orwell quis reclamar da opressão sofrida na época em que o socialismo (que ele abraçava como ideologia de vida) lhe parecia desumano demais, em vista do inicialmente proposto.

Ora, o discurso aceita tudo; a realidade, não.

Contudo, em sua revolta muito particular, Orwell tornou-se o mago visionário dos capítulos que viriam a chacoalhar o mundo, mesmo após sua morte.

E se Orwell estava certo, a ditadura dos porcos, ou dos ratos que são usados em torturas, mais cedo ou mais tarde, cairá sobre a população de mais lugares do mundo do que você, em sua bolha ideológica virtual, é capaz de projetar.

(Quase posso adivinhar que serei xingada, porque apontar dedos é mais fácil do que estudar, buscar informações reais, etc… Fiquem à vontade.)

Mas nem tudo está perdido!

Guarde um pouco de sua tranquilidade ao lembrar que os proletas de 1984 não sofriam tanto assim, os animais conformados de “A Revolução dos Bichos” continuavam vivos (desde que não questionassem); o povo vitimado por ditadores foi seletivamente poupado à medida que sua alienação crescia; a URSS só sumiu e apagou o passado dos que ergueram a voz; as ditaduras do Brasil e Chile jamais tocaram em um fio de cabelo dos que acreditavam na família sólida e nos governantes; Maduro mata de fome uma população que deve mesmo merecer o que passa (afinal, eles escolheram, não?); e, claro, a Primavera Árabe não terminou em fogo para todos, pois há quem esteja apenas ocupado demais em não ser exterminado.

Estando Orwell certo, os porcos vestirão roupas, beberão do melhor vinho… e você…?

Você deveria manter-se bem quieto.


Quadrinhos na Cia

Brochura

Capa comum

26,6 x 20,2 x 2 cm

176 páginas

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Leituras complementares:


Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso, é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.