[QUADRINHOS] A Gigantesca Barba do Mal, de Stephen Collins (resenha)

Quando o comodismo de uma sociedade é tamanho que seu senso de organização se torna uma patologia coletiva, um surto de caos desponta da pele de um indivíduo, cujo único elemento destoante é um pelo solitário na bochecha esquerda.

Dave é o catalisador do Caos que passa a afetar a rotina e organização de Aqui, uma cidade erguida no meio de uma ilha na forma de um ovo quase perfeito, cercada pelo mar de incerteza e pela presença temível, perturbadora e quase onipresente de Lá. Toda a meticulosa organização espacial e comportamental de Aqui gera em nós um desconforto, e uma sensação de que algo acontecerá a qualquer momento para bagunçar seu status quo. É neste ponto que Lá entra na história.

Lá pode ser interpretado de muitas formas. Pode ser desde o Medo do Desconhecido, até a fonte dos pesadelos, ou o Inconsciente – Stephen Collins permitiu todas estas leituras, sem ater-se a uma possibilidade específica de interpretação. Isto enriqueceu os símbolos, metáforas e analogias presentes na graphic novel.

Como um desenhista que domina sua linguagem, Collins sabe explorar a diagramação para tornar suas metáforas visuais mais pungentes.

A arte de Collins é ao mesmo tempo minimalista, expressiva e detalhista. Ele alterna entre estes três aspectos de acordo com o que a situação retratada exige, e o faz com muita propriedade, e uma precisão comparável ao nível de organização de Aqui. Sua arte lembra a de Cris Ware (Building Stories) e do brasileiro Alexandre Sousa Lourenço (Você é um babaca, Bernardo). Mas também há algo de Tim Burton e Henry Selick nela. Fiquei com vontade de assistir uma adaptação animada da HQ, que cairia muito bem nas mãos de Selick.

Chega a ser irônico que um cara tão alienado como Dave seja o responsável por trazer à tona um elemento “alienígena” e caótico para dentro da ordeira Aqui, cuja monotonia visual ele tanto gosta de retratar. É através dele que Collins crítica a automatização e “robotização” de rotinas de trabalho, e sua capacidade de alienação do indivíduo. Por exemplo, quando revela que ninguém no trabalho de Dave sabe precisamente o que faz a empresa onde trabalham. É quando Dave entra em contato com dados estatísticos caóticos da empresa que principia o fim da aparente paz de sua vida monotonamente organizada e, por consequência, a crise que afeta toda a população de Aqui, tão acometida quanto Dave de um TOC coletivo.

A proporção absurda que toma toda a crise causada pela barba de Dave garante parte da diversão que é ler a fábula adulta criada por Collins. Não tem como não se pegar rindo de situações como a convocação de todos os cabeleireiros, barbeiros e jardineiros para que tentem moldar os arredios pelos faciais de Dave. Ou o plano de elevá-la aos céus usando centenas de balões. Acima de tudo é um conto espirituoso em seu aspecto surreal e onírico.

Dave é a resposta somática da repressão social de Aqui. É o sintoma mais evidente da doença que acomete sua cidade, seu idílico lar de ordem cercado de caos. Dave é o Arauto do Caos numa sociedade patologicamente ordeira. Collins parece defender em sua graphic novel que não há ordem verdadeira sem algum caos para ser organizado. É preciso haver um equilíbrio entre forças opostas, pois deste jogo dualístico surgem formas de organização mais aperfeiçoadas. A sociedade onde vive Dave está claramente estagnada num aconchegante comodismo no início da trama, é prisioneira de sua própria organização monótona, que atenta contra a criatividade individual, ou melhor, contra a própria individualidade. Dave só começa a sentir-se verdadeiramente como um indivíduo quando seu problema o destaca da sociedade, assim como ela só consegue enxergar a falta de sentido de seu “determinismo organizacional” quando Dave interfere em sua organização. Daí adiante, rotinas são alteradas, e o comportamento das pessoas de Aqui começa a expressar mais de suas individualidades, mesmo que inicialmente tacanhas, desajeitadas e um tanto tímidas.

Às vezes é preciso que um elemento estranho – seja ele um gênio com espírito revolucionário, ou um fenômeno sobre o qual não temos o menor controle – desperte nossa consciência para um problema que esteve sempre presente. Tudo pode parecer exagerado e fabuloso no quadrinho de Collins, mas sua história não ressoaria tão bem se não houvesse nela disfarçada uma verdade que a alicerça. A essência de um problema real, reinterpretado numa fábula moderna para que consigamos enxergá-lo com mais clareza, quando apresentado sob uma roupagem mais caricata, burlesca e um tanto tola. Alguns de nossos problemas – aqueles que estão no cerne de uma série de outros problemas mais complexos – têm em sua origem um motivo tolo, como nossa resistência a mudanças, ou nossa preguiça de pensar com maior profundidade a respeito de uma questão, seja ela pessoal ou coletiva.

Dave pode não ser um protagonista muito atuante da fábula de Collins, mas, à sua maneira, ele acaba trazendo para Aqui uma chama que inicia um incêndio iluminador de consciências. Para que mudanças ocorram numa sociedade, o indivíduo precisa sentir-se capaz de operar mudanças em seu âmbito pessoal, para depois expandi-las para seu círculo de relações, e assim progressivamente, até seus atos reverberarem nos atos de seus semelhantes, numa reação em cadeia cujo produto final são mudanças sociais significativas.

Em A Gigantesca Barba do Mal, tudo começa com um pelo esquisito e solitário na bochecha esquerda de um sujeito estranho que gosta de desenhar as mesmas cenas da rua que observa confortavelmente da janela de sua casa. No final, graças ao crescimento descontrolado de sua barba, sua cidade passa por mudanças profundas, embora nem mesmo seus habitantes saibam medir as profundezas delas. Há uma lição aí (ou várias), que vou deixar para cada um de vocês extrair enquanto lê essa pérola da 9ª arte. Leia, prepare-se para ouvir Eternal Flame dos Bangles por um bom tempo em sua cabeça, e tente se livrar das ideias que passam a crescer na sua mente, como os pelos arredios da barba “maligna” de Dave.


Nemo

Brochura

23,6 x 16,6 x 1,8 cm

240 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Saraiva

Submarino