[QUADRINHOS] A Diferença Invisível, de Julie Dachez e Mademoiselle Caroline (resenha)

Uns anos atrás, eu assisti um filme chamado Ben X – A Fase Final. A história trata da vida de um adolescente autista, que se refugia num game online, onde conhece uma garota por quem se apaixonava e com a qual marca um encontro no mundo real. Também mostra sua vida escolar, onde sofre bullying graças à sua condição.

É um ótimo filme, que retrata bem o caso de um tipo de autismo, com um final que pega muita gente de surpresa. Recomendo.

Na época eu não sabia que o autismo é um espectro formado por várias síndromes neurológicas, entre elas a Síndrome de Asperger.

Somente alguns anos depois de assistir Ben X é que descobri que um amigo meu de longa data, o Cilon Mello – que escreve pro Nerd Geek Feelings – também é um aspie (gíria usada para se referir a um portador da síndrome). Foi quando eu me interessei em aprender mais sobre essa deficiência, afinal, querendo ou não, ela é parte da personalidade dele, e achei importante conhecê-la melhor para entender mais adequadamente as peculiaridades de seu comportamento

O Cilon já abordou a síndrome de Asperger algumas vezes em alguns de seus textos, com destaque para a sua review de My Little Monster, cuja trama é centrada num aspie. E também temos aqui no NGF uma crítica da Monique sobre o filme Meu nome é Khan, que também fala sobre o tema.

Quando, no início do ano, a editora Nemo anunciou a publicação de A Diferença Invisível, imediatamente me interessei pela obra. Escrita por Julie Dachez, uma aspie, e desenhada por Mademoiselle Caroline, a HQ é um retrato muito fiel e sensível da rotina diária de uma portadora da síndrome. A narrativa acompanha a personagem desde antes de ela saber que tem Asperger, passando por seu diagnóstico, e a readaptação de vida social, já respeitando os limites impostos por sua deficiência.

Mesmo sendo escrita por uma aspie, A Diferença Invisível não seria tão eficaz na transmissão das percepções hipersensíveis de Marguerite sem os recursos visuais empregados por Caroline. Por exemplo, a paleta de cores, que vai se diversificando com a progressão da trama, a conscientização de Marguerite a respeito de sua deficiência, e o aprendizado de novas formas de lidar com ela, a fim de aproveitar-se das vantagens da síndrome.

Carol também é muito feliz no trecho em que narra a primeira crise de ansiedade da protagonista em seu local de trabalho, usando a cor vermelha para pontuar os sons, ruídos e vozes que a perturbam progressivamente.

Mais tarde, em outro momento inspirado da artista, partilhamos da sensação de Marguerite quando, numa festa barulhenta, ela sente-se dissolvida no caos sensorial, ao ponto de não suportar e sair do ambiente. São por momentos assim que a obra justifica a linguagem adotada, utilizando-a com engenhosidade.

Outro problema dos aspies muito bem retratado na HQ é sua falta de traquejo social, que gera momentos que vão do cômico ao constrangedor, levando Marguerite a se fechar ainda mais, antes de tomar a iniciativa de entender mais o seu problema e finalmente buscar ajuda profissional, que é o ponto de virada de trama.

Merece elogios o detalhado relato do diagnóstico de Marguerite, que ajuda o leitor a ficar ciente de outras características dos aspies que apontam pra sua condição. É uma autêntica aula em quadrinhos sobre a síndrome, que não soa meramente didática, mas muito orgânica na forma como foi inserida na narrativa. Foi nele que aprendi que é mais difícil diagnosticar Asperger em mulheres, por elas terem mais facilidade de disfarçar suas dificuldades.

Também vale mencionar o quanto as autoras salientaram sobre a dificuldade da sociedade aceitar as deficiências de um aspie e se adaptar a elas, sendo este um dos maiores desafios enfrentados por Marguerite.

Felizmente esta é uma história sobre superação, conscientização e orientação para portadores e não-portadores (ou, usando a nomenclatura médica, para neurotípicos e neuroatípicos), portanto, o restante da HQ é sobre como Marguerite, através da autoaceitação, ajuda os outros (pelo menos aqueles que se importam com ela) a aceitá-la e se adaptarem às suas deficiências.

Além disto, os extras da edição tiram mais algumas dúvidas sobre o autismo e a Síndrome de Asperger, sendo um excelente complemento à brilhante e esclarecedora HQ.

E eu não poderia encerrar essa resenha sem falar que a graphic novel é também um making of de si mesma, pois, em sua reta final, é usada a metalinguagem pra mostrar Julie e Caroline planejando sua produção e lançando-a.

Se você quer aprofundar seus conhecimentos sobre esta condição; se você deseja ajudar alguém que a possui; ou se, simplesmente, quer livrar-se de alguns preconceitos referentes a portadores de problemas que você não entende plenamente, leia A Diferença Invisível, presenteie amigos, amados e familiares com ela. Este é o tipo de obra que precisa ser conhecida por mais pessoas.


Editora Nemo

Tradução: Renata Silveira

Brochura

24 x 17 x 1,2 cm

192 páginas

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