[CULTURA] O Povo Celta – As Deusas, o Ferro, As Belezas e Mistérios.

Os celtas integram uma das mais ricas civilizações do mundo antigo. Há quem aponte que as origens desta civilização remontam ao processo de desenvolvimento da Idade do Ferro, quando estes teriam sido os responsáveis pela introdução do manuseio do ferro e da metalurgia no continente europeu. De fato, o reconhecimento do povo celta pode se definir tanto pela partilha de uma cultura material específica, quanto pelo uso da língua céltica. Mas nada é certo de verdade. A riqueza desse povo é, para nós, uma espada com fio amolado dos dois lados. Se de um lado, a grande diversidade cultural dentro daquilo que podemos chamar de “Celta” nos faz ter a possibilidade de ir bem longe no proveito e análise de tradições, hábitos, vestes e rituais, temos a questão de definição. Quem afinal foram os Celtas, se não havia uma coesão, um indício que bem determinasse ser celta ou não ser Celta (questão próxima acontece com os ciganos, mas isso é papo para outro post).

Vamos pensar então na língua como forma de identificação mesmo. Talvez seja o caminho mais coerente.
Pela inexistência de dados e documentos originais, grande parte da história dos celtas é hipotética.

O que sabemos hoje é que a “vivência” Celta como sociedade se estendeu por 19 séculos, desde 1800 a.C. — quando, culturalmente, os celtas se individualizaram entre os demais povos indo-europeus — até o século I d.C, época da decadência motivada pela desunião entre suas várias tribos e a invasão romana às terras que ocupavam.

O período mais brilhante da história celta transcorre, aproximadamente, entre 725 e 480 a.C., na Era de Hallstatt, início da civilização céltica do ferro e, também, da invasão à Europa. Os celtas se instalaram em uma imensa região das atuais repúblicas Tcheca, Eslovaca, Áustria, sul da Alemanha, leste da França e da Espanha, alcançando a Grã-Bretanha. Nesta fase, se consolidaram os traços particulares da civilização céltica.

Os Celtas foram o primeiro povo civilizado da Europa, até onde sabemos.

Eles teriam chegado neste continente junto com a primeira onda de colonização ainda em 4.000 AC. (Muito mais tempo atrás do que a sua mente consegue retroagir nesse momento).

Destacaram-se dos outros povos que chegaram na mesma época porque acreditavam em uma terra prometida e iam em busca dela, o que não deixava de ser uma ideia quase messiânica. Em 1800 AC já tinham a sua cultura e o território totalmente estabelecidos. E isso enquanto os gregos nem sequer existiam para falar de filosofia, certo, errado ou metafísico. Há quem diga que, na verdade, os gregos vieram de Colônias Celtas – muitas são as incertezas sobre esse povo.


Os Celtas, até onde sabemos, ocupavam a região da Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, França e Inglaterra.
Esse povo tão antigo não era lá muito pacífico. É fácil notar isso quando vemos que não raramente confundimos Vikings com Celtas pelas aparências e por características expansionistas.

Para se ter uma ideia do como esse povo tão ligado à natureza era guerreiro, para que um menino fosse considerado homem, ele deveria passar por uma prova (uma espécie de iniciação), que consistia em sair da cidade onde morava, sair da sua região, e trazer a cabeça de qualquer pessoa que não fosse Celta.

Somente com a cabeça na mão é que se fazia uma tatuagem no corpo do menino, cujo simbolismo determinava que ele agora era homem adulto.
(Bons os tempos em que as tatuagens tinham significados, não é?)

Chegaram a desenvolver uma escrita, mas o sistema alfabético e vocabular fora feito de forma tão complexa que até hoje são poucos os que se atrevem a desvendá-la. A escrita era considerada mágica, e somente os seus sacerdotes é que a aprendiam, estes eram os famosos druidas. Inventaram lendas belíssimas, que estão entre as mais famosas dos dias de hoje. Como por exemplo as história do rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda, Tristão e Isolda, além de terem inventado quase todos os contos de fadas (que foram se modificando com o tempo).

Sem dúvida alguma, os Celtas eram um povo com muita ciência unida a muita mística. Existem relatos praticamente inexplicáveis, como o de uma operação de transplante de coração, realizado em 1000 a.C., e o de Navios voadores que soltavam fumaça enquanto desciam e pousavam no meio dos campos da Inglaterra. A eles é creditada a construção do Stonehenge, embora o próprio povo tenha negado essa feitura em muitos escritos.

O mistério de Stonehenge é só um décimo do grande mistério que cerca esse povo fantástico.

O povo Celta tinha uma estrutura de família bem peculiar, se consideravam animais (por isso a ligação tão profunda com a natureza) e acreditavam em uma infinidade de deuses e demônios. Aliás, aqueles duendes bonitinhos com potes de ouro são fruto da mitologia Celta. Se bem que os duendes eram bem mais “trolls” do que aparentam hoje em dia; como pequenos espíritos zombeteiros.

Uma coisa muito bacana presente na cultura Celta é o poder feminino. Em uma literatura histórica tão extensa e cheia de seres bons e maus, guerreiros, algozes e vítimas, a protagonista é sempre a figura feminina. Isso mesmo: se você viu ou leu Brumas de Avalon, aliás, deverá lembrar que as mulheres eram essenciais na sociedade Celta. Além de serem as responsáveis pela reprodução e gestação de numerosos filhos, muitas das mulheres eram sacerdotisas. Isso sem falar nas deusas do Panteão Celta.

Os celtas não misturavam panteões de outras culturas e nem cultuavam deuses celtas de outras tribos. Apesar das semelhanças, cada ramo celebrava seus deuses locais, seguindo apenas as referências das tradições pertencentes à sua terra natal, com exceção de algumas divindades pan-célticas.

Eram grandes nomes deste Panteão:
Áine: deusa do amor, da fertilidade e do verão. Rainha dos reinos feéricos dos Tuatha de Danann, conhecida como “Cnoc Áine” (Monte de Áine) é a soberana da terra e do sol, associada ao solstício de verão, às flores e as fontes de água. Áine (Enya) – filha de Manannán Mac Lir – representa a luz brilhante do verão. Como uma deusa solar, podia assumir a forma de uma égua vermelha.
Brigit / Brigid / Brighid / Brig: deusa reverenciada pelos Bardos, tanto na Irlanda como na antiga Bretanha, cujo nome significa “Luminosa, Poderosa e Brilhante”. Brighid, a Senhora da Inspiração, era filha de Dagda, associada à Imbolc e as águas doces de poços ou fontes, que ficam próximos às colinas. É a deusa do fogo, da cura, do lar, da fertilidade, da poesia e da arte, especialmente a dos metais. Brighid também é uma deusa guerreira, conhecida como “Bríg Ambue“, a protetora soberana dos Fianna. Brighid era consorte de Bres e mãe de Ruadan, que foi morto ao espionar os Fomorianos. Ela sentiu profundamente a morte do filho, dando origem ao primeiro lamento poético de luto irlandês, conhecido como keening.

Cailleach: é a deusa da terra e das rochas, diz a lenda que ela criou os morros e as montanhas a sua volta, ao atirar pedras em um inimigo. Na mitologia irlandesa e escocesa é conhecida também como a “Cailleach Bheur”, que significa mulher velha, às vezes, descrita de capuz com o rosto azul-cinzento. Geralmente é vista como a deusa da última colheita (Samhain), dos ventos frios e das mudanças, aquela que controla as estações do ano, a Senhora do Inverno.
Dagda: deus da magia, da poesia, da música, da abundância e da fertilidade. No folclore irlandês, Dagda era chamado de “o bom deus”, possuía todas as habilidades sendo bom em tudo, “Eochaid Ollathair” (Pai de todos) e “Ruad Rofhessa” (Senhor de Grande Sabedoria), considerado mestre de todos os ofícios e senhor de todos os conhecimentos. Consorte de Boann, teve vários filhos, entre eles Brighid, Oengus, Midir, Finnbarr e Bodb, o Vermelho. Dagda tinha um caldeirão mágico, o Caldeirão da Abundância, que nunca se esvaziava e uma harpa de carvalho chamada “Uaithne”, que fazia com que as estações mudassem, quando assim o ordenasse. Além disso, tinha um casal de porcos mágicos que podiam ser comidos várias vezes e que sempre reviviam, bem como, um pomar que, independente da estação, dava frutos o ano todo.
Dana / Danu / Danann: considerada a principal deusa mãe da Irlanda e do maior grupo de deuses, os Tuatha Dé Danann, o Povo de Dana ou o Povo Mágico (Daoine Sidhe), a tribo dos seres feéricos. A Terra de Ana (Iath nAnann), às vezes, é identificada como Anu ou Ana, seu nome significa “Conhecimento”. Era consorte de Bilé e mãe de Dagda. Em Munster, na Irlanda, Dana foi associada a dois morros de cume arredondados, chamados de “Dá Chich Anann” ou “Seios de Ana”, por se parecem com dois seios. É a deusa da fertilidade, da terra e da abundância.
Macha: deusa da fertilidade e da guerra, filha de Ernmas, junto com as irmãs Badb e Morrighan, podia lançar feitiços sobre os campos de guerra. Após uma batalha os guerreiros cortavam as cabeças dos inimigos e ofereciam a Macha, sendo este costume chamado de a “Colheita de Macha”. É a deusa dos equinos, que durante a gravidez foi forçada a uma corrida de cavalos. Quando chegou ao final, entrou em trabalho de parto e deu à luz a gêmeos. Antes de morrer, Macha colocou uma maldição sobre os homens da província para, que em tempos de opressão e maior necessidade, eles sofreriam dores como as de um parto.
Morrigan / Morrighan: é a Grande Rainha “Mor Rioghain”, na mitologia irlandesa, da tribo dos Tuatha Dé Danann. Senhora da Guerra, possuía uma forma mutável e o poder mágico de predizer o futuro. Reinava sobre os campos de batalha e junto com suas irmãs Badb e Macha eram conhecidas pelo nome de “Três Morrígans”, relacionadas à triplicidade que, para os celtas, significava a intensificação do poder. Associada aos corvos, ao mar, as fadas e a guerra, além da associação à Maeve, rainha de Connacht, casada com o rei Ailill e à Morgana, das lendas arthurianas. Podia mudar sua aparência à vontade, como em um lobo cinza avermelhado. Nos mitos relacionou-se com Dagda e apaixonou-se pelo grande herói celta, Cu Chulainn, que despertou toda sua fúria, ao rejeitá-la. Deusa da morte e do renascimento, da fertilidade, do amor físico e da justiça.
Scathach / Scath: Seu nome significa a “Sombra”, aquela que combate o medo. Deusa guerreira e profetisa que viveu na Ilha de Skye, na Escócia. Ensinava artes marciais para guerreiros que tinham coragem suficiente para treinar com ela, pois era dura e impiedosa. Considerada a maior guerreira de todos os tempos, foi a responsável por treinar Cu Chulainn.


Não compondo uma civilização coesa, os celtas se subdividiram em diferentes povos, entre os quais podemos destacar os Belgas, Gauleses, Bretões, Escotos (eu disse ES-CO-TOS), Batavos, Eburões, Gálatas, Caledônios (A Caledônia é onde fica a Escócia) e Trinovantes. Durante o desenvolvimento do Império Romano, vários desses povos foram responsáveis pela nomeação de algumas províncias que compunham os gigantescos domínios romanos.

Lembraram de Alguém?

Do ponto de vista econômico, podemos observar que os celtas estabeleceram contato comercial com diferentes civilizações da Antiguidade. Por volta do século VI a.C., a relação com povos estrangeiros pode ser comprovada pela existência de elementos materiais de origem Etrusca e chinesa em regiões tipicamente dominadas pelas populações célticas.

Por volta do século V a.C., os Celtas passaram a ocupar outras regiões que extrapolavam os limites dos rios Ródano, Danúbio e Sanoa. A presença de alguns armamentos e carros de guerra atesta o processo de conquista de terras localizadas ao sul da Europa. Após se estenderem em outras regiões europeias, os celtas foram paulatinamente combatidos pelas crescentes forças do Exército Romano.

A sociedade céltica era costumeiramente organizada através de clãs, onde várias famílias dividiam as terras férteis, mas preservavam a propriedade das cabeças de gado. A hierarquia mais ampla da sociedade céltica era composta pela classe nobiliárquica, os homens livres, servos, artesãos e escravos. Além disso, é importante destacar que os sacerdotes, conhecidos como druidas, detinham grande prestígio e influência. Como todas as castas sacerdotais ao longo da evolução da humanidade, diga-se de passagem.

Donos de uma cultura tão bela, a alma do povo Celta ainda vive: Atualmente, a Irlanda é o país onde se encontram vários vestígios da cultura céltica.

E mesmo após a cristianização do povo da natureza por São Patrício, muitos de seus elementos permaneceram perpetuados.

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Livros e quadrinhos relacionados aos celtas: