[OSCAR 2017] FENCES (Um limite entre nós)

Eu sempre fui apaixonado por filmes, séries e livros que não esfregam na sua cara sobre o que eles são, mas sim te dão metáforas para te levar a chegar lá.
Fences é um excelente exemplo disso: é um filme de duas horas sobre um homem construindo uma cerca. Hã, genio, heim? Mas ao mesmo tempo é também, nas entrelinhas, um filme de duas horas sobre um homem construindo uma cerca. O diabo está nos detalhes.

O filme, dirigido e estrelado por Denzel Washinton, é muito mais uma peça de teatro filmada do que um filme propriamente dito. Não, não é só adaptado de uma peça de teatro; Ele é uma peça de teatro – com todas as características interpretativas inerentes ao teatro – que por acaso está usando locações externas e sendo filmada. Isso significa, por exemplo, que o filme não envolve muita ação e sim personagens conversando por longas e longas cenas.

Isso poderia não funcionar muito bem no cinema, e realmente não funcionaria se os personagens falando não fossem fundalmente interessantes. E puta merda, como dos diálogos desse filme são bons.
Sério, durante a primeira metade do filme ele praticamente não tem trilha sonora, ou se tem eu não percebi, porque o personagem de Denzel Washinton matraqueando suas histórias meio reais, meio inventadas, meio roubadas, preenchem totalmente a cena.

Sabe aqueles personagens que você fica esperando aparecer em cena de tão gostosos de se assistir que são? Esse é o Troy Maxson de Denzel Washinton. Sua eloquência e tagarelice são tão legais de se ver que só podem ser complementadas pela miríade de defeitos que Troy esconde nas entrelinhas.

Troy é um lixeiro, e olhando rapidamente, ele está no controle de sua vida. Ele é dono de sua própria casa. Tem um bom casamento com Rose (Viola Davis) e tem um filho com oportunidades que o pai nunca teve. Troy trabalha duro, dá seu pagamento para Rose e fica bêbado nas noites de sexta-feira (com o que ela permite gastar) com seu colega e melhor amigo, Bono (que é a cara do George Martin, puta merda eu tenho certeza que as cenas que ele não aparecia era porque estava matando alguns personagens). Ouvindo suas histórias não tem como não querer ser amigo desse cara.

Engraçado o que você disse aí, vou matar mais um Stark

Olhando mais de perto, no entanto, dá para perceber o quão full of shit Troy realmente é.
Ele diz que poderia ter sido um jogador de beisebol, mas nunca chegou às grandes ligas porque, com certeza, não era branco; Mesmo quando sua esposa e filho citam vários exemplos de jogadores negros que tiveram sucesso, mas claro, isso não é o ponto aqui. Não tem nada haver com ele ter aprendido a jogar beisebol velho demais. Claro que não. Ou então o seu trabalho como catador das latas de lixo e nunca motorista do caminhão é puramente por questões raciais, claro. Eu não duvido que seja isso também, mas o fato dele não ter carteira de motorista talvez tenha algo haver com isso. Mas claro, isso também não é culpa do Troy, é claro.

Para todos os seus protestos sobre o quanto o trabalho duro dele em viver uma vida direita e colocar comida na mesa para sua família não é reconhecido, ele é incrivelmente rápido em ignorar as dificuldades e problemas dos outros. Na visão de Troy, apenas a vida de Troy é dificil e a de todos os outros é um passeio no parque. Apenas Troy dá duro e nunca é reconhecido por isso, isso nunca acontece com os outros.

É absolutamente fantástico como Troy consegue ser um personagem tão carismático e tão detestável ao mesmo tempo. Eu nem sei como ele faz isso. É seguramente a melhor atuação de Denzel Washinton em sua carreira.

Por outro lado, a atuação de Viola Davis, na primeira parte de Fences, é um tanto apagada, eclipsada por Troy.
Ela é a esposa exemplar, na cozinha cozinhando para Troy, tratando seus parentes e amigos com uma ternura e solicitude que ele próprio é demasiado macho para mostrar. A perfeita esposa: boa, recatada e do lar. Isso tem um proposito no filme: as merdas de Troy vão se acumulando até o ponto que Rose tem que quebrar o status quo e soltar um belo:

Davis se destaca nessas cenas que o roteiro passou o filme inteiro construindo, retratando o desconcerto, a raiva e a tristeza de seu personagem de forma devastadora.

Não tem muito mais o que falar do filme além das atuações porque, como eu disse, Fences é muito mais uma peça filmada do que um filme propriamente dito. Apenas que eu gosto de como o filme propõe pequenos núcleos de tramas desde o começo e os vai desenvolvendo até o fim, dando uma sensação de catarse ao serem resolvidos. Achei importante dizer isso porque depois da minha resenha sobre Moonlight poderia ter ficado a impressão (até mesmo para mim) que um filme só é “um filme de verdade” se tiver uma mega trama sobre o destino da humanidade e um raio azul alienígena ameaçando destruir a Terra.
Não é verdade, é possível ter pequenas tramas com começo, meio e fim em escala micro também. Nem toda jornada precisa ser épica, mas tem necessariamente que levar a algum lugar.
Fences é um bom exemplo disso.

OSCAR 2017 (4 indicações)

MELHOR FILME
MELHOR ATOR (Denzel Washinton)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE (Viola Davis)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO (August Wilson, o proprio autor da peça na qual o filme se baseia)