O maior desafio de toda tecnologia

Desde que o mundo é mundo e o homem é homem a tecnologia e a ciência ajudam nossa espécie a conquistar aquele novo passinho pra frente na corrida evolutiva. A primeira vez que controlamos o fogo, as primeirras ferramentas de pedra, o arco, a roda… Todos foram passos extremamente essenciais que moldaram a forma como interagimos com o mundo e ajudaram a humanidade a atingir seu ápice tecnológico nos dias de hoje.

Você já parou pra pensar como o seu computador funciona? Milhares de sinais elétricos passando por vários circuitos microscópicos integrados a vários periféricos, cabos que transmitem nada além de elétrons (que gostamos de chamar de “dados”, pra deixar a coisa mais palpável) se ligam na parte de trás do seu monitor, que de alguma forma organiza tudo isso em sinais que devem ser enviados a pontinhos milimétricos que formam cores e, se tudo der certo, as letras que compõem esse texto se formam brilhantemente diante de seus olhos.

Sua foto pelado no Whatsapp passou por aqui.

Chegamos aqui depois de centenas de milhares de anos de evoluções incrementais (e algumas boas revoluções, é claro) e ainda nos pegamos olhando a nova versão do iPhone e falando “meh, nada de novo…”. Mas todos esses anos não foram suficientes para solucionarmos o problema que mais preocupa inovadores e criadores de novas tecnologias há tempos. A interface com o usuário. Principalmente com o bendito usuário leigo: aquele que sabe-se lá por que, nunca se preocupou em pensar o mínimo que seja sobre como algo funciona. Não que seja um erro desse usuário, afinal quem deve resolver (ou minimizar) esses problemas são os designers, desenvolvedores e engenheiros por trás do produto. E todas as tecnologias sofrem desse mal, inclusive o GPS.

A história que me fez querer escrever este texto chegou até mim durante a semana, com uma manchete bem chamativa no G1: “Falha em GPS faz idosa a caminho de Bruxelas parar na Croácia”. Aí você lê a notícia e fica sabendo que:

  1. A mulher ia fazer um trajeto de 61 km de carro.
  2. Ela cruzou 5 fronteiras internacionais
  3. Foram feitas duas paradas para abastecer e uma para dormir
  4. Ela diz que viu “todo tipo de tráfego passar. Primeiro em francês, depois em alemão. Colônia, Aachen, Frankfurt… mas eu não fazia nenhuma pergunta, apenas acelerava”
  5. O GPS fez ela dirigir por 1450 km.
  6. Um trajeto de 2 horas virou um trajeto de 2 dias.

E então você relê a manchete e… Falha em GPS? Beleza, a falha no GPS podia fazer esta senhora de 67 anos dar umas 4 ou 5 voltas a mais no quarteirão, mas ei! Você está cruzando uma maldita fronteira internacional! Ela diz que estava apenas distraída. Por. Dois. Dias.

Ela foi dormir durante a noite pensando o que? “Nossa, devo ter saído tarde mesmo de casa…”? Em uma entrevista ela disse: “Até que de repente estava em Zagreb e então percebi que já não estava mais na Belgica”. Sério, eu imagino a cena dessa mulher se dando conta de onde estava.

We’re not in Belgium anymore.

E aí está o problema que deve ser solucionado por toda tecnologia. Este GPS, por mais vagabundo que seja, deve ter exibido em algum momento que a viagem teria 1450 km de extensão, ou que o destino estava em outro país ou algo assim… Mas ela estava distraída, claro. Distraída o suficiente para acordar no dia seguinte e continuar: “Vire à direita”.

É preciso existir uma crença muito grande na corretude da tecnologia para largar mão de qualquer julgamento da realidade e confiar em uma máquina desta maneira. Uma crença quase religiosa, eu diria.

Enquanto eu escrevia, entrei no Facebook algumas vezes e me deparei com a seguinte cena:

Hmm, meia bunda de fora. Parece tentador. E suspeito.

Hmm, meia bunda de fora. Parece tentador. E suspeito.

Uma mulher com a bunda de fora. Uma chamada dizendo que é algo incrível e que você não vai acreditar… É, bem tentador. E bem suspeito. Ao clicar no link você é redirecionado pra uma tela que diz que você precisa confirmar um código para se proteger de spam.

Clique na imagem para ampliar.

Clique na imagem para ampliar.

E, claro, depois de clicar ali você vai espalhar essa bobeira pra mais todos seus amigos na rede social.

Mas uma bobeira dessas explica muita coisa sobre a dificuldade que existe em livrar o usuário desses males ocasionados por ele mesmo. É muito mais fácil acreditar no GPS ou na tela com o logo do YouTube do que suspeitar só por um segundo que o endereço na barra do navegador não aponta para youtube.com em momento algum.

E enquanto não conseguirmos solucionar esses problemas, vamos continuar recebendo notícias engraçadas como essas.