[QUADRINHOS] O Homem do Amanhã – Parte 2: O Repórter Idealista

Imaginar o impacto do Superman no mundo onde vivemos, fora daquele espectro fantástico dos quadrinhos, sempre rendeu grandes histórias para o personagem. E essa e as próximas duas partes do especial tratarão disso em diferentes aspectos, aqui, falo agora sobre o desejo de Clark Kent mudar o mundo através do símbolo de Superman, e como isso reflete em sua vida. Afinal, O Homem de Aço chegou, filme dirigido por Zack Snyder e produzido por Christopher Nolan, e esse é um dos temas constantes do filme.

Perdeu a primeiríssima parte? Não esquenta, você pode lê-la no link abaixo:

Parte 1: Cidadão Kent

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“Hoje… não me canso mais de assistir o pôr-do-sol. O mundo muda. Como sempre mudou. Muda aos nosso redor, muda nós… não pára. E os crepúsculos são lindos, magníficos e graciosos. Vagarosos, majestosos e… inevitáveis. (…) Temos uma parte que chamamos de “eu”. Temos uma parte que lida com o mundo. Dela vêm as verdadeiras escolhas, e o resto é mera consequência.”

– Clark Kent

Identidade Secreta

Clark, um jovem garoto de Picketsville, no Kansas, teve a honra (ou azar para ele) de ter nascido numa família com o sobrenome Kent, logo seus pais e familiares não perdem a chance de reforçar essa coincidência ao compará-lo com um personagem famoso dos quadrinhos chamado Superman. Em meio a um amontoado de presentes referentes ao super-herói alienígena de vestimenta azul e vermelha, o rapaz renega isso, e após zombarias na escola e em toda a cidade, considera o seu nome uma maldição. Até que quando algo diferente acontece em sua vida e começa a desenvolver, estranhamente, habilidades sobre-humanas idênticas ao personagem para sua própria surpresa. Seria ele, então. a maior coincidência da história?

Como escritor, Kurt Busiek utiliza os diários que o rapaz escreve como uma forma de viabilizar o forte uso de recordatórios para expôr as angústias e felicidades do seu protagonista através de sua vida. Pode ser interpretado, então como um registro biográfico sobre um garoto ordinário que conseguiu ser extraordinário. A arte de Stuart Immonen calca bastante no sentido duma recriação fotográfica, como se víssemos um álbum de recordações, captando bem o âmbito saudosista necessário.

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Composta por quatro capítulos, assim como O Homem de Aço e As Quatro Estações, cada um se passa numa diferente época, mas aqui as elipses são mais ambiciosas ao explorar todo o desenrolar da vida de seu personagem. Começa em sua cidadezinha, realizando grandes feitos e começando a tornar-se um mito popular, até sua ida à cidade de Nova York, a Metrópolis do nosso mundo.  De lá, para a realização de ações tão maiores ao redor do globo sob o uniforme do Superman, pois agora se orgulha dessa figura que tanto foi comparado. Clark aprende cada vez mais sobre altruísmo e como pode inspirar as pessoas a construírem um futuro melhor.

Por outro lado, as diversas reflexões sobre essa sua nova condição e seu hábito de escrever diários acabam o levando a ser um repórter no jornal New Yorker. Com mais uma coincidência, sua história estreita ainda mais com a de Superman, mesmo com brincadeiras constantes na redação onde trabalha, Clark está se tornando um homem mais seguro e confiante a cada dia devido à isso. Por causa duma “pegadinha” armada pelos seus colegas de trabalho, conhece sua própria Lois, mulher que acaba sendo o amor de sua vida. Poderia ser algo forçado nas mãos dum escritor menos experiente, mas Busiek constrói essas relações entre os dois mundos com sobriedade e solidez.

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Devido à sua condição de jornalista e a visão de mundo que ser um super-humano lhe dara, Clark também começa a construir uma carreira como escritor, escrevendo livros sobre sua visão sociopolítica da humanidade. Discutir seu papel como herói e, talvez, o messias de seu tempo é algo que assombra sempre sua consciência, levando-o a agir exaustivamente. Pela frequência de aparições e feitos, o governo dos EUA logo fica em seu encalço, tentando estudá-lo e, se possível, redirecionar suas ações a favor de suas próprias vontades. Mesmo tendo de lidar com isso, acaba, por fim, sendo obrigado a criar uma linha de diálogo com o serviço secreto, reforçando sua ligação com a nação estadunidense e conseguindo confiança como moeda de troca. Mas com o passar dos anos, a civilização se transforma, e como sinal de sucesso para Clark, o futuro se torna um lugar bem melhor do que sonhara. Algo maravilhoso tanto para ele quanto para sua família, pois suas filhas que deverão seguir seu legado através de suas vidas e de seus filhos. Porque, em seus livros, apenas faz o retrato sobre o passado que sempre deve ser conhecido e mudado, instruir quem o lê ara desvendar o potencial dum amanhã mais próspero.

Em seu desfecho, Busiek demonstra que sua obra é uma carta de admiração por aquilo que Clark Kent inspira. Claro que ele conhece e entende a força do Superman, mas o homem que ao idealizar o impossível, e assim o consegue fazê-lo, é uma lição a ser dada para todos sobre o aspecto do super-herói em nossos tempos e imaginários.

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Elas vão superar isso. Você verá quando alguém mais tentar usurpar o símbolo. As pessoas agora sabem que é uma marca de coragem. De esperança. É o “S” de Superman.

– Lois Lane

O Legado das Estrelas

Com a chegada dum novo século, a DC começou a mudar a forma como abordava o Superman através de seus escritores, estes que são Jeph Loeb, Joe Kelly e Joe Casey (devo divagar sobre os dois últimos na próxima parte). Escrevendo os títulos mensais do personagem, discutiam muito sobre o papel do super-herói na civilização e se ainda possuía relevância nos tempos atuais. Naturalmente, nessa direção que as histórias Superman caminhava, viu-se a necessidade de lhe dar uma nova e atualizada origem. Então o escritor Mark Waid, profundo conhecedor do personagem, e o desenhista Leinil Yu assumiram a responsabilidade de entregar um homem de aço moderno ao mundo.

De início, Waid resolve dar um panorama melhor sobre a situação de Krypton logo no prólogo de sua história. Aprendemos que era uma civilização no auge da sua evolução, mas devido à todo esse estado de superioridade em suas consciências e uma mesquinharia egoísta entre eles, acabaram criando um crescente atrito, o que culminou a diversas guerras e desastres trazendo o iminente fim do planeta. Aqui, Jor-El e Lara, pais do pequeno Kal-El, são um casal apaixonado e idealista, como verdadeiros românticos, por amor, se arriscam ao entregar seu filho às incertezas do destino com esperança de que ele consiga uma vida melhor em outro lugar.

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A história avança no tempo e encontramos Kal-El – agora Clark Kent, seu nome terrestre (como todos sabem) – de passagem na África Ocidental como repórter, conhecendo tribos e compreendendo o conflito político local. Assim conhece Kobe, inspirador líder político do clã Thuri, que busca uma revolução para trazer força aos oprimidos de seu povo, nele, Clark se espelha e reconhecendo suas qualidades, entendendo melhor seu papel no mundo. O peso do sacrifício pelo bem maior e a importância dos significados na luta de Kobe são lições que levará para a vida. E após um certo evento trágico envolvendo este líder, Clark resolve retornar para seu “lar”, a cidade de Smallville, no Kansas, para reencontrar seus pais e resolver seu futuro, pois passara os últimos anos da sua vida viajando pelo mundo para descobrir seu lugar e propósito, após as todo o aprendizado com Kobe, Clark decide que deve seguir o legado deste homem e lutar por ideais ainda melhores pelo bem da humanidade.

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Como acontece também em O Homem de Aço de John Byrne, o casal de fazendeiros Jonathan e Martha Kent que encontraram o foguete kryptoniano há 25 anos atrás, “pais adotivos de Clark, fazem parte do processo de confecção da sua nova identidade como Superman e seu disfarce como um cara desajustado e tímido. Vale citar como Waid sabe funcionar bem os momentos em família dos Kent, aliás não há um personagem em que ele não consiga encontrar sua voz, há diversos diálogos agradáveis, carregados de descontração e entrosamento. Destaque para Yu e sua habilidade em captar bem as expressões dos personagens e estar alinhado ao bom humor no texto do escritor. E também cuida de dar explicações a fim de justificar elementos incoerentes ou mal explicados anteriormente, como toda a sequência em que criam o “disfarce” do repórter com o óculos, terno e gravata, e aos incrédulos sobre a validez disso, Waid escancara o óbvio, é tudo questão de atuação.

Outro destaque dessa nova origem, resvale no relacionamento antagônico entre Superman e Lex Luthor, Waid estreita suas histórias e acabam sendo amigos em Smallville aqui. O importante para o escritor é atenuar o contraste entre os personagens como se fosse um duelo entre o homem e um deus. Mesmo que Clark seja alguém com capacidades avançadas e superiores a maioria dos humanos, nunca conseguiu combater igualmente o intelecto de Lex Luthor quando estudavam no colégio. Mas isso não lhe incomoda, na verdade, o faz querer ter amizade com o garoto por ser um gênio nato, e por consequência, a única pessoa na cidade que entenderia a forma complexa como Clark vê o mundo. Mas já adulto, Lex se tornou uma cientista ambicioso e bilionário, ególatra, prefere ser aclamado como um ser superior enquanto enxerga todos aos seu redor como insetos a serem esmagados. E quando chega o Superman em sua cidade, Metrópolis, inspirando pessoas e sendo tão mais grandioso quanto ele, Luthor é consumido pela inveja. Clark ainda acha que dá para salvar seu velho amigo, mas este renega todas as virtude que a figura do herói começa a representar. Afinal, Lex Luthor se revela um grande pensador, em Superman, contempla a chance de poder mostrar que o homem pode renunciar e combater um deus apenas com a destreza de seus talentos e virtudes.

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O plano para derrubar o super-herói resume-se na razão proclamada por Luthor vencendo a fé da humanidade no “S” vermelho que Clark carrega como símbolo de sua luta para salvá-la. Após decifrar a história kryptoniana através duma engenharia quântica e um pedaço de meteorito que veio com a nave – a kryptonita, um material altamente radioativo e letal para kryptonianos na Terra – Luthor então consegue desviar a atenção das pessoas dos atos de bondade do Superman, redirecionando-os a questão deste ser um alienígena na Terra, um estranho no ninho. Manipulando todos para irem contra o Superman. Será que ele é o único? Se não, há outros? E se realmente houver mais outros como ele, seria parte duma massiva invasão alienígena?

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Em seu desfecho, mesmo com as pessoas desiludidas pelo que lutara, Clark consegue dar uma provar sua força a Luthor, ensinando sobre como um ideal melhor inspira as pessoas a superarem seus medos e suas dificuldades, justificando seu discurso. Ele retoma o significado de seu símbolo para si, o “S” que tantos duvidaram, agora significa esperança para o povo da Terra.

– Por Nelson Silva

Próxima parte: Homem do Povo, Herói da Nação.